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Souza, o barman dos prazeres líquidos, abre seu próprio boteco

Miguel Icassatti

30/05/2018 17h53

Caipirinhas do Veloso (Foto: Gabriel Cabral – 24.jun.2015/Folhapress)

Estudioso das relações humanas, o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) contrapunha os conceitos de amor e do que chamava de "amores líquidos". Em uma entrevista à revista IstoÉ uns oito anos atrás, em relação aos amores líquidos Bauman disse: "mantenha-os enquanto te trouxerem satisfação e substitua-os por outros que prometem ainda mais satisfação". Quanto ao amor, o polaco lembrou que é "um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço de boa vontade".

Acho que ele acertou. Imagino quanto esforço ele e Janina, com quem foi casado durante 62 anos, tiveram de despender para dar conta das ciladas do dia-a-dia, quanta boa vontade tiveram de entregar um ao outro para seguirem firmes por tanto tempo juntos. No fim das contas, certamente encararam os mesmos dramas corriqueiros, superaram desgastes, compartilharam alegrias e enxaquecas brigaram e cederam a pequenos prazeres e pensamentos clichês, assim como nós fazemos em nossas rotinas. E chegaram a essas seis décadas e dois anos de convívio até que a morte de Janina, em 2009, os separou.

Mas como diz meu amigo Giba, filósofo e profundo conhecedor dos botecos brasilienses e de Copacabana, "a resposta para tudo, para as questões do amor, está nos gregos". Isso se não estiver numa conversa com meus camaradas ou nos conselhos que de vez em quando recolhemos por aí numa mesa ou no balcão de algum boteco. O barman, o falastrão da mesa ao lado, as amigas comentando dos crushs no zap, o solitário do balcão… no boteco, somos todos filósofos e temos resposta para todos os males do mundo, ainda mais se ultrapassarmos a barreira da terceira caipirinha.

Se for a terceira caipirinha preparada pelo Souza no Veloso, então, é capaz de encontramos a resposta para aquela célebre última pergunta do Abujamra para os convidados do seu talk-show: "Miguel, o que é a vida?"

Eis o problema: a caipirinha do Souza não vai ser mais preparada no balcão do Veloso, na Vila Mariana. Depois de treze anos, o barman e ex-gerente do boteco desde a inauguração da casa, em 2005, decidiu pedir as contas e abrir seu próprio bar no bairro da Pompeia, com inauguração prevista para esta terça-feira, 5 de junho, "se o preço da caixa de limão na Ceasa baixar. Por 300 reais, não dá", disse-me o Souza, torcendo pelo esforço de boa vontade do vendedor de limão.

Fechado para uma reforma desde 20 de maio, o Veloso deve reabrir no dia seguinte, 6 de junho, com novos equipamentos de chope e na cozinha, nivelamento da calçada e outros reparos. Com as caipirinhas sendo preparadas pelo Japa e os outros barmen da casa e com as deliciosas coxinhas de sempre. A bem da verdade, o Souza já vinha atuando mais como gerente, embora mantivesse a assinatura e a autoria dos drinques que ajudaram o bar – assim como a coxinha e o bolinho de carne – a se tornar um dos endereços mais premiados de São Paulo.

Nesses treze anos no Veloso, o amor ao trabalho, aos clientes e colegas parece não ter faltado ao Souza. Em todas, rigorosamente todas as incontáveis vezes que estive no bar, sempre encontrei-o sorridente, gentil, competente e disposto a atender a qualquer pedido esdrúxulo de qualquer francês. "Quero aquela, mas sem maracujá"; "tem coxinha vegana?"; "aceita tíquete?". Fosse sim ou não, a resposta era sempre dada no mesmo e amistoso tom. Não tenho dúvida de que foram treze anos de satisfação. E que agora o Souza busca ainda mais satisfação em seu boteco.

Na Esquina do Souza, ele vai comandar uma equipe de 8 pessoas e vai dividir o preparo das caipirinhas e de outros prazeres líquidos com o barman Raimundo. Muitas receitas são, por assim dizer, clássicas do Souza. Por exemplo, de jabuticaba, de caju com limão e de tangerina com pimenta-rosa (R$ 20,00 cada uma).

No capítulo dos comes, o cardápio reúne petiscos e sanduíches inspirados nos do Veloso além de novidades.

Vai ter torresmo (R$ 25,00 a porção), bolinho de aipim com carne louca (R$ 30,00 a porção com 8 unidades), pastel de bobó de camarão (R$ 9,00 a unidade), feijoada completa (R$ 70,00, servida aos sábados), sanduíches, grelhados e pratos individuais. Corajoso, Souza vai servir até coxinha (R$ 5,00 cada uma).

Em tempos de modernidade líquida e do cada-um-contra-todos-e-Deus-por-si, é legal dizer que a separação Souza-Veloso foi amigável, numa boa. E sem querer polemizar com o Bauman, eu fico com Paulo Mendes Campos: para recomeçar em todos os lugares o amor acaba.

 

Esquina do Souza. Rua Coronel Melo de Oliveira, 1066, esquina com Rua Ribeiro de Barros, Pompeia. Inauguração prevista para 5 de junho.

Veloso. Rua Conceição Veloso, 54, Vila Mariana. Reabertura prevista para 6 de junho.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.