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É muito boteco bom, habibi

Miguel Icassatti

06/06/2018 18h46

No caminho para o aeroporto de Brasília, resolvi parar para almoçar no Moisés, um boteco com uma imensa área avarandada – como muitos são na capital federal, sobretudo os que ficam no, como direi?, final das quadras – e cujas especialidades são porções bem brasileiras, tais quais jiló a milanesa, fígado com jiló, e picanha de carne-de-sol, que foi o que acabei escolhendo para a refeição, precedida por meia porção de torresmo.

À medida que eu percorria o cardápio, notei uma seção dedicada aos petiscos árabes. Opa! Veio-me logo a lembrança do Beirute e do Libanus, dois botecos brasilienses que conheci muitos anos atrás, famosos por servir o quibe recheado com queijo. Na cidade tem ao menos mais um boteco com acento árabe, ou libanês, ou muçulmano, ou mouro, se quisermos polemizar, que é o Cozinha do Salim. Será que Brasília é a capital dos botecos árabes?

Essa concentração pode nos dar essa impressão, mas eu diria que São Paulo está no páreo.

O engraçado é que, seja em Brasília, São Paulo, Beirute ou Marrakech, boteco talvez não combine com a tradição desses países muçulmanos, que costumam restringir o consumo de álcool – em que pese o fato de o Líbano, mais liberal nesse quesito, ser produtor de vinho, e de vinho bom, na região do Vale do Bekaa.

Na virada de 2008 para 2009, ou talvez de 2009 para 2010, resolvi de última hora ir para o Marrocos e, oh-oh, me toquei que talvez fosse um pouco difícil conseguir celebrar o ano novo com uma garrafa de champanhe ou, quem sabe, pedir uma cerveja em algum pé-sujo naquela praça doida de Marrakech, a Djemaa El Fna. Por sorte, ao descer na cidade resolvi comprar uma garrafa de vinho e uma de champanhe do free shop, só para garantir. E foi mesmo o que me garantiu porque nos quatro dias seguintes, em qualquer que fosse a refeição, eu só beberia chá de hortelã, chá de hortelã, chá de hortelã. Não há bebida alcoólica à venda no Marrocos, exceto no Club Med de Marrakech e numa espelunca nos arredores da medina, que só vim a saber tarde demais. Ainda bem que Gobbo, o padroeiro dos boêmios, me guiou para o bom caminho.

Para nossa sorte, há um tipo de jeitinho brasileiro que é do bem, que amacia corações e paladares mais duros e que compreende que aqui, se combinar direitinho, todo mundo toma um gorozinho com tira-gosto. E é por isso que a gente consegue encontrar lugares como os já citados Libanus e Beirute – o “pai” do quibeirute, ou seja, o quibe recheado com queijo, uma receita que certamente só existe no Brasil e que está presente desde sempre no cardápio do boteco aberto na então adolescente Brasília, em 1966.

E há outros lugares preciosos, como é o caso do Carlinhos, no bairro paulistano do Pari. Foi ali que o saudoso Missak Yaroussalian, o Carlinhos, inventou o genial sanduíche feito de cafta prensada no pão sírio. Ai tem cerveja, vinho, caipirinha e uma respeitável carta de cachaças com uns 100 rótulos. E o que dizer do Rei das Esfihas, no mesmo bairro, e suas enormes e saborosas esfihas? Peço sempre ao Tadeu, garçom há 40 anos, a de calabresa com catupiry (miscigenação é isso aí) e o chope na caneca, dos melhores de São Paulo.

O chope do Rei das Esfihas/ Foto: Miguel Icassatti

Outro boteco com ascendência libanesa, que saiu do purgatório do Pari e mudou-se para o Paraíso, é o Halim. Naquele balcão sempre movimentado, voltado para a rua e constantemente abastecido de esfihas (a aberta de carne, com massa folhada, é sensacional), o que brilha mesmo é o uzi (ou uzzi), uma receita criada ainda nos anos 1960 pelo fundador, Halim Sultan, que vem a ser uma espécie de pão de massa folhada recheada com carne moída de boi, arroz, amêndoa e carne desfiada de carneiro). Não há nada igual.

O uzi, do Halim / Foto: Miguel Icassatti

O mais simples dos botecos mouros paulistanos, curiosamente, fica no empertigado Itaim Bibi. Na esquina da Tabapuã com a Bandeira Paulista, o Jasmim Especialidades Árabes é parecido com muitos dos pés-sujos e lanchonetes que vemos aos milhares na cidade. Um balcão central comprido, rodeado por banquetas, domina o salão. A casa prepara um quibe gostoso, úmidos charutinhos de folha de uva e assa as melhores esfihas do pedaço.

“Pai, gostei dessa pizza de carninha moída”, disse-me a Bel, minha caçula de 2 anos, quando almoçamos lá duas semanas atrás.

Esse pessoal das arábias é mesmo muito inventivo.

Vai lá:

Beirute. 109 Sul, bloco A, lojas 2 e 4, Brasília.

Cozinha do Salim. 107 Norte, bloco D, loja 33, Brasília.

Libanus. 206 Sul, bloco C, loja 36, Brasília.

Moisés. 208 Sul, bloco C, loja 36, Brasília.

Carlinhos. Rua Rio Bonito, 1641, Pari, São Paulo.

Halim. Rua Doutor Rafael de Barros, 56, Paraíso, São Paulo.

Jasmim. Rua Bandeira Paulista, 440, Itaim Bibi, São Paulo.

Rei das Esfihas. Rua Doutor Ornelas, 58, Pari, São Paulo.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.

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