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Bares para ler nas férias

Miguel Icassatti

11/07/2018 17h45

Foto: Miguel Icassatti

Maria Isabel tem 2 anos, fará 3 no mês que vem e é minha filha caçula. Um mundo de fofura, bochechas mordíveis e cabelos encaracolados, ela ainda não chegou à idade dos porquês, mas está numa fase de tiradas sensacionais:

– Pai, tô arrepiada! – disse-me anteontem, presa à cadeirinha do carro, cruzando os braços e franzindo a testa, já que a irmã não queira lhe emprestar a Melancia, uma das bonecas prediletas. Estava irritada, obviamente.

Dias atrás, no início deste mês de julho, depois que minha mulher e eu lhe contamos sobre a programação das férias, que atividades faríamos, os livrinhos que leríamos juntos e, sobretudo, para onde viajaríamos, ela saiu-se com esta:

– Nooossa, lá n’As Férias vai ser muito legal, né?

Bel está certa, o lugar mais legal do mundo é As Férias, a casa das duas vovós, o jardim do prédio, o tapete da sala, o tédio, o circo ao qual fomos no sábado passado, o clube, os balcões dos botecos que o papai espera rever em Buenos Aires, o livrinho As Férias de Miguel e Pedro (da Ruth Rocha), a ida ao supermercado.

Bel me deu uma ideia, a de juntar neste texto duas coisas, falemos a verdade, que não podem faltar na mala-de-tchau (outra pérola da caçulinha) de ninguém: livros e balcões de bar. Seja nas bancas do aeroporto ou em livrarias fundamentais nos destinos, eu tento sempre encontrar um título de algum autor local ou algo que aluda àqueles dias de esperado dolce far niente, como sempre me parecem muitos livros de Hemingway, por exemplo.

Da cinematográfica El Ateneo, em 2004, por exemplo, eu trouxe a coletânea de contos El Aleph, de Borges, em castelhano, e o guia Buenos Aires Populares, que reúne 60 textos a descrever bares, cafés e restaurantes portenhos, dos quais, naquela quente semana de janeiro, consegui conhecer uns seis ou sete e que espero explorar mais alguns na semana que vem.

Voltarei certamente ao El Banderín, um boteco localizado em Nuñez, perto do estádio do River Plate. Comi ali um gostoso sanduíche de jamón em meio às fotos das antigas escalações dos ‘Millionários’ e a vasta coleção de flâmulas de times de futebol espalhadas pelas paredes. Eram centenas delas, de clubes do mundo todo. Só não havia, obviamente, a do Boca Juniors. Compreende-se.

Numa breve passagem por Paris no ano de 2013, saí da Shakespeare and Company com um exemplar de On Wine and Hashish, em que Charles Baudelaire descreve os, efeitos e, digamos, benefícios, do vinho, do haxixe e do ópio.

Em novembro passado, dei-me de presente de aniversário na livraria Bertrand, em Lisboa, a curta e excelente coletânea Crônicas da vida que passa, de Fernando Pessoa, o que me faz lembrar de um macete: como em geral minhas viagens são mais breves do que eu espero, prefiro nessas ocasiões coletâneas e livros curtos, até para não ter de carregar o peso extra de um catatau literário na mochila enquanto faço minha turistagem. Mas nessa viagem rompi a regra e comprei, na magnífica Lello, no Porto, A Máquina de Moer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe.

Leituras de férias, livros para ler no bar, vamos combinar, têm de ser leves, em duplo sentido, razão pela qual pulo, aqui, Bukowski e por que venho deixando sempre para outra hora os deprês Diário Selvagem e O Homem na Varanda do Antonio’s, do Carlinhos Oliveira, o gênio que narrou como ninguém a boemia da zona sul do Rio de Janeiro dos anos 1960 e 1970.

Portanto, encerro com três sugestões para que o leitor boêmio e viajante comece a folhear num balcão de bar, por que não? A primeira é Mordidas Sonoras, o bom relato gastronômico que o vocalista do Franz Ferdinand fez de uma turnê da banda; a segunda, Contos para Ler no Bar, reunidos por Miguel Sanches Neto, e que podem ser vencidos no tempo de dois ou três copos de gim tônica. Por fim, Bar Doce Lar, de J. Moehringer. Nele, o autor, que é vencedor do prêmio Pulitzer, relembra a infância passada no salão do Dickens, um pub de esquina perto de sua casa, à procura de alguém, em meio a personagens impagáveis, que pudesse ocupar o espaço do pai ausente.

Não esqueça de colocar seu livro na mala, Bel.

El Banderín. Calle Guardia Vieja, 3601, Nuñez, Buenos Aires.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.