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O bom freguês só ama o bar que se foi

Miguel Icassatti

2025-07-20T18:20:30

25/07/2018 20h30

Foto: Caio Quero

Foi o bom amigo Caio quem deu a má notícia, uma semana atrás: "o Amigo Leal morreu". Triste por não ter podido render in loco as últimas homenagens ao defunto, restaram-me as boas memórias daquele bar no qual servi-me de copos e mais copos de chope excelente, além de ótimos pasteis.

O Amigo Leal, a bem da verdade, já era uma reencarnação, ou uma sobrevida, como queiram, do Amigo Leo, que, por sua vez, foi o segundo de três bares simbólicos abertos por Leopoldo Urban na região central de São Paulo.

Inaugurado na Rua Aurora em 1940, o Bar Leo permanece vivo. Passou a ser administrado pelo grupo que assumiu há quase duas décadas o Bar Brahma, depois de ter passado por alguns percalços. Embora o finado Luís já não esteja lá para preparar os canapês, ao menos o chope e os bolinhos de bacalhau das quartas e sábados justificam uma visita de tempos em tempos.

O mais jovem dos bares-irmãos, e que se foi mais cedo também, era o O Leo, aberto em 1969 na rua Barão de Duprat (há uns dez anos funciona no mesmo local um estacionamento). Quando o conheci, no início dos anos 1990, já se chamava Bar Barão, embora servisse obviamente um chope respeitável e deliciosos bolinhos de carne. Recordo-me também vagamente das mesas com tampo de fórmica amarela.

Leopoldo Urban havia dado à luz o Amigo Leo em 1967 na rua Amaral Gurgel, e o abandonou dois anos depois, ainda antes de o elevado Costa e Silva ter se aminhocado por ali. O então sócio de Urban, Emilio Noronha, levou o bar até 1981, quando vendeu para três sócios, que rebatizaram a casa como Amigo Leal em 1982, tomando o cuidado de preservar todas as características arquitetônicas, etílicas e gastronômicas originais.

Foto: Caio Quero

O Amigo Leal viveu ainda momentos gloriosos até o início dos anos 2000. Mas desde 2014, já sob nova direção, a saúde do boteco ia mal. Nos últimos anos tentou-se de tudo um pouco para reanima-lo: música ao vivo, novas toalhas sobre as mesas, mais itens no cardápio, cerveja em garrafa. Nada deu certo.

Passou-se mais uma vez o ponto, mas sequer deixaram-no ter uma passagem digna. Foi reaberto sob o nome de Lins Grill e assim está.

Escreveu Paulo Mendes Campos na crônica Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira, enviada a mim pelo amigo Humberto, que "o bom freguês só ama o bar que se foi".

É por isso que neste sétimo dia, peço um minuto de silêncio em memória do Amigo Leal, do Bar Barão, do Amigo Lenzi, do Pandoro, do Bier Von Fass, do Choppinho's, do Brunnen, do Doca's, do Lírico, do Ao Dix Bar.

Descansem em paz.

Bar Léo. Rua Aurora, 100, centro.

Lins Grill. Rua Amaral Gurgel, 165, centro.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.