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E se seu candidato a presidente fosse um boteco?

Miguel Icassatti

09/08/2018 01h32

 

Bar do Armando, em Manaus / Foto: divulgação

 

Desde que a buchada de bode entrou para o cardápio das eleições em 1994, a temporada gastronômica é um dos momentos mais aguardados da corrida eleitoral. Há quem diga que, ao menos no Nordeste, a potente receita sertaneja costuma render ou tirar preciosos votos aos candidatos, a depender do apetite deles. "Quando o político está comendo só para agradar, o eleitor nota na hora", sentenciou Gustavo Krause, então candidato ao governo de Pernambuco.

Agora que as convenções partidárias definiram os presidenciáveis – ok, ok, o PT, quem diria, ainda não desceu do muro –, é certo que veremos Vossas futuras Excelências a provar de tudo um pouco, do pastel da feira ao café adoçado com leite na padoca, da citada buchada de bode nordestina à coxinha que dormiu na estufa do mais ordinário dos botequins. Já pensou, por falar nisso, se seu candidato fosse um boteco?

O tucano Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, seria o Guanabara, no velho centrão paulistano. Anda meio decadente mas, ao longo de mais de um século de existência, acolheu políticos de diversas legendas e vertentes, Alckmin entre eles. O ex-governador, aliás, é um fã do pintado assado na brasa dali mas, veja só o leitor, o petisco mais famoso é a coxinha.

Ao ex-tucano e ex-pedetista Álvaro Dias (Podemos), homem público de fino trato, sempre a trajar bons ternos e a exibir a gravata atada por um nó que parece que nunca vai entortar, só caberia ser o bar Ao Distinto Cavalheiro, onde bebe-se um bom chope no centro de Curitiba, não por acaso a capital do estado que é sua base eleitoral.

Defensora da Amazônia, Marina Silva (Rede) seria o fabuloso Bar do Armando, ao lado do Teatro Amazonas, em Manaus. Falha nossa não conhecer o Acre natal de Marina. Mas a região Norte estaria em ótimas mãos caso a ex-ministra do meio ambiente dialogasse com os boêmios e turistas do bar. Arrisco dizer, apenas, que talvez não conviesse à candidata provar o ótimo sanduíche de pernil, receita ainda hoje preparada, mesmo após a morte do grande Armando, que Deus o tenha. Os veganos talvez reclamassem.

E eis que chegamos a algo inédito: pela primeira vez, temos dois candidatos oriundos dos quartéis, no caso, Jair Bolsonaro (PSL) e Cabo Daciolo (Patriota). Por respeito à hierarquia militar, não há como negar a Bolsonaro a patente do Bar do Coronel, em São José dos Campos, onde é possível abater, em poucas mordidas, um bom pastel de carne seca. Cabo Daciolo não há de ficar triste: que tal promove-lo também? Creio que se ele fosse a Trattoria do Sargento, em São Paulo, estaria de bom tamanho.

Bar do Coronel, em São José dos Campos / Foto: divulgação facebook

 

Os últimos dias não têm sido fáceis para Ciro Gomes (PDT). O cearense de Pindamonhangaba não acertou alianças e ainda disse por aí que foi traído pelo PT. Como não há muito o que fazer, só lhe resta tomar uma talagada de uma das cachaças paraibanas à venda no Bar dos Cornos, que, felizmente, voltou para seu endereço original, no bairro do Jaguaré. Grande boteco, esse.

Lula (PT) poderia se reconciliar com Ciro no restaurante da Tia Zélia, aonde o ex-presidente costumava ir em seus anos no Planalto, atrás do conforto da buchada de bode que lhe fizesse lembrar o agreste pernambucano. Mas como é Fernando Haddad quem deve assumir a cabeça da chapa, ao ex-prefeito de São Paulo caberia ser o Itamarati, clássico instalado em frente à Faculdade de Direito da USP, onde Haddad estudou e deu aulas. A bem da verdade, ele é de casa, conforme o blog testemunh u alguns anos atrás, ao ve-lo à vontade em uma mesa no canto do salão a bebericar.

Ainda à esquerda, Guilherme Boulos (PSOL) poderia ser o Estadão Bar e Lanches. Nenhuma relação com o velho jornalão. Mas este que, convenhamos, é um dos botecos mais democráticos de São Paulo remete às origens políticas do candidato, os movimentos populares por moradia. Aberto 24 horas, o Estadão acolhe a toda a gente, à noite ou durante o dia. Teto e pernil para todos, afinal.

Mais a la sinistra ainda, Vera Lúcia (PSTU) não seria outro senão o Rei das Batidas, botecão perto da USP, muito frequentado por companheiros e velhos conspiradores, graças sua cerveja a bom preço.

João Goulart Filho (PPL) cairia bem como o Riviera Bar, na esquina da Paulista com a Consolação. Nem tanto o bar que está em operação nestes anos recentes, chique desde que passou a ter o chef Alex Atala entre os sócios. Muito antes de receber, talvez, esquerdistas-caviar, foi um reduto genuíno da esquerda, nos tempos em que o pai do candidato foi destituído da presidência da República.

No campo oposto em termos de política, Henrique Meirelles (MDB) reconhecer-se-ia no belo bar do Santo Colomba. Neste bom restaurante italiano está montado o mobiliário que pertenceu ao antigo bar do Jockey Club do Rio de Janeiro, composto de um lindo conjunto de de madeira escura e vitrais. Um ou dois martínis ao balcão na companhia do chef Alencar certamente valeriam como uma boa aula de carisma ao governista.

Em sua primeira experiência eleitoral, João Amoêdo (Novo) aparece como a antítese dos políticos tradicionais. É certamente o único outsider, para usar um anglicismo corrente. Um de seus mantras, o corte de privilégios aos políticos, bem que poderia se transformar em algo hype, como são os bares que vêm apostando nas novas tendências de coquetelaria, entre as quais o gim-tônica e suas variações. Taí, Amoêdo seria o Só Shots & Gin Club, no Itaim Bibi. E como bom democrata cristão, EyEyEymael (DC) talvez tenha alguma restrição ao álcool sobretudo em dias de recolhimento espiritual. Para esses momentos de reflexão, a ele dedicamos, portanto, o Tubaína Bar, na Consolação.

Ainda que ele só peça um refri, que beba com moderação.

Vai lá:

Ao Bar Guanabara. Avenida São João, 128, centro, São Paulo.

Ao Distinto Cavalheiro. Rua Visconde do Rio Branco, 894, centro, Curitiba.

Bar do Armando. Rua 10 de Julho, 593, centro, Manaus.

Bar do Coronel. Rua Francisco Rahael, 298, centro, São José dos Campos.

Bar dos Cornos. Rua Araicás, 242, Jaguaré, São Paulo.

Estadão Bar e Lanches. Viaduto Nove de Julho, 193, centro, São Paulo.

Itamarati. Rua José Bonifácio, 270, centro, São Paulo.

Rei das Batidas. Avenida Valdemar Ferreira, 231, Butantã, São Paulo.

Riviera. Avenida Paulista, 2584, Consolação, São Paulo.

Santo Colomba. Alameda Lorena, 1157, Jardim Paulista, São Paulo.

Só Shots & Gin Club. Rua Pedroso Alvarenga, 974, Itaim Bibi, São Paulo.

Tia Zélia. Rua Maranhão, 8, Acampamento Pacheco Fernandes, Vila Planalto, Brasília.

Trattoria do Sargento. Rua Pamplona, 1354, Jardim Paulista, São Paulo.

Tubaína. Rua Haddock Lobo, 74, Consolação, São Paulo.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.