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Ela queria comer um bife à parmegiana. Comeu carne de cavalo

Miguel Icassatti

2020-09-20T18:17:10

20/09/2018 17h10

Filé à parmegiana da Casa Santos / Foto: divulgação

Aconteceu de tudo um pouco naquela viagem – que foi ótima, aliás. Era 2009, a queda do dólar frente ao real batia recorde histórico (em julho, o mês da viagem, 1 dólar valia 1,90 real; em dezembro de 2008, a cotação estava em 2,33 reais) e, com isso, o casal de jornalistas, já iniciado no Velho Mundo, teve a oportunidade de dar um belo giro por destinos menos óbvios da Europa.

No trecho a ser feito de carro entre Cinque Terre e Milão, para tomar um voo rumo à Bélgica, a ideia era passar uma noite em Parma, na Emilia Romagna, no meio do caminho.

– Quero tanto comer um filé à parmegiana …– ela disse, assim despretensiosamente, como quem não quer nada, enquanto ele dirigia o Fiat Panda e tentava não errar a entrada para a cidade.

– Então, Amor… Salvo engano, o bife à parmegiana é uma invenção brasileira e, provavelmente, paulistana – ponderou o rapaz ao volante, um tanto constrangido por te-la decepcionado.

Não pode ser, imagine, você tá viajando. E lá foram atrás do filé à parmegiana perdido para o jantar.

Embora a noite daquele sábado de verão estivesse gloriosa e quente, o casal não conseguia encontrar um restaurante, sequer, aberto no centro histórico de Parma àquela hora. Nem viva alma, tal qual as nossas, a perambular por aquele labirinto de vielas. Depois de mais de uma hora de caça ao filé – sem contar as duas horas de estrada mais o tempo do check-in e do banho no hotel –, a verdade é que o desejo dela começava a ser vencido pela fome e a irritação.

Já estavam se conformando em voltar para hotel e pedir algo pelo room-service quando, ao cruzarem uma ruazinha, avistaram um grupo de pessoas a conversar alegremente à frente do que parecia ser um restaurante.

Por Gobbo, era um restaurante! Era a Osteria Dello Zingaro e estava aberto! Tinha um salão simples, mas cheio de gente, o que era um bom sinal. Encostaram os dois no balcão à esquerda e, já que havia espera por mesa, aproveitaram para provar uns queijos e embutidos locais – memorável o culatello – e a dar uma espiada no cardápio: tortelli di zucca, tagliatelle al prosciutto, risoto ai carciofi, filetto di maiale al rosmarino… e nada que pudesse remeter a algo como um filé de boi empanado e coberto por queijo derretido e molho de tomate.

Mas algo lhes chamou a atenção: havia cinco opções de prato preparadas com carne de cavalo. Na Itália, afinal, não é incomum o consumo de proteína equina. Entre o filletto di cavallo, o roast-beef di cavallo, o tris di cavallo, o tartara dello zingaro e o pesto di cavallo, optaram por compartilhar este último como uma opção de entrada.

Era uma espécie de carpaccio, levemente temperado com vinagre balsâmico e pinhole. A carne crua tinha uma tonalidade mais escura que a de boi e um sabor adocicado. Gostaram.

Enquanto esperavam pelo segundo prato, vinho nos copos, paz restabelecida, retomaram o assunto do filé a parmegiana. Onde comer um dos bons, afinal?

Na Casa Santos, ora. Aberto desde 1946 no bairro paulistano do Pari, "o" Santos é um daqueles restaurantes avessos a modismos, que atendem a mesas grandes, cujas famílias chegam para o almoção de domingo, a fim de compartilhar os pratos fartos, entre as quais receitas de ascendência lusitana, como o bacalhau ao forno, a sardinha assada, as batatas portuguesas e o que vem a ser um dos melhores bolinhos de bacalhau do mundo. O filé-mignon à parmegiana custa R$ 103,90 e é indicado para duas pessoas (mas satisfaz tranquilamente àquele casal de namorados que foi a Parma e as duas menininhas com quem hoje formam uma família).

Na noite seguinte, no meio do voo entre Milão e Bruxelas, o comandante anuncia:

– Senhores passageiros, informo que a partir deste momento nós, os funcionários desta companhia aérea, entramos em greve. Vamos aterrissar no aeroporto mais próximo, que fica na cidade de Liége.

Dizem que a estação ferroviária de Liége é maravilhosa. Eles não se recordam, para falar a verdade. Ela só falava em chocolate belga. Ele só queria saber: "a que horas, afinal, vou comer meus moules et frites?"

Vai lá:

Casa Santos. Rua Conselheiro Dantas, 92, Pari, São Paulo.

Osteria Dello Zingaro. Bordo Del Correggio, 5, Parma.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.