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Boteclando

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R.I.P., berbigão

Miguel Icassatti

20/10/2018 00h24

Foto: Creative Commons/PIxabay

Bulhão Pato foi um foi um poeta e memorialista português. Mas o que me faz ter grande apreço por esse cidadão lusitano é o nome que ele empresta a uma das coisas que mais gosto de comer quando vou a Portugal: as amêijoas a Bulhão Pato. A receita é aparentemente simples: pega-se um punhado dessas conchas e as coloca num caldo de vinho branco, alho, azeite, coentro, sal, pimenta e limão. Serve-se com pão, para xuxar o delicioso caldinho.

Em uma viagem a Florianópolis anos atrás, alguém me disse que valia a pena ir até o bairro-vilarejo de Santo Antônio de Lisboa, no norte da ilha, para conhecer uma certa Marisqueira Sintra, e que deveria, antes de mais nada, pedir uma porção de berbigões. Berbigão é um marisco da família das amêijoas (isto se não for a mesma coisa, embora as conchas das amêijoas que costumo comer em Portugal são mais graúdas), eu presumo, até por que, na tal marisqueira, me foram servidos da mesma maneira que a Bulhão Pato.

O que vale dizer é que vale a pena ir a Santo Antônio de Lisboa, independentemente da vontade de comer berbigões. É um lugarzinho que fica de frente para mar calmo da Baía Norte, uma vila de pescadores, com barquinhos a balançar lentamente ao ritmo da água calma, com um casario colonial, a igrejinha de Nossa Senhora das Necessidades, do século XVIII, e alguns restaurantes e bares, entre os quais a Marisqueira Sintra, que ficam de frente para o mar.

Ontem à noite, voltei à Marisqueira com a ideia de comer os berbigões.

Assim que sentei-me à mesa, antes mesmo de explorar um cardápio, pedi ao garçom uma porção desses moluscos, no que ele me olhou com aquela cara de interrogação, como quem diz, "do que é que esse cara tá falando?"

Expliquei-lhe que muitos anos atrás, exatamente oito anos, eu havia comido esses mariscos ali.

Fui ao cardápio e vi que, de fato, não havia nenhuma receita com berbigão. Acabei comendo lula e polvo, boa dupla.

E soube, depois, que desde 2015 ou 2016 não há mais berbigão em Santa Catarina. Esse molusco era retirado dos manguezais das baías Norte e Sul de Floripa por pescadores artesanais e foi extinto em consequência do vazamemto de um óleo tóxico das centrais elétricas do estado. Tristeza define.

De acordo com a Slow Food Brasil, berbigão é a mesma coisa que vôngole. Cá em São Paulo, gosto muito de comer vôngole quando vou ao Marina di Vietri.

Vincenzo Vitale, napolitano que é dono desse subestimado restaurante, prepara um ótimo e delicado espaguete ao vôngole – milha pedida ali sempre inclui o impecável antepasto servido feito com abobrinha, cebola e pimentão grelhados.

Descanse em paz, berbigão. Longa vida ao vôngole, ao Marina e ao Vincenzo.

Vai lá:

Marina di Vietri. Rua Comendador Miguel Calfat, 398, Itaim Bibi, São Paulo

Marisqueira Sintra. Rua 15 de Novembro, 147, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis

 

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.