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Comandante, Capitão, Tio, Brother, Camarada. Mas pode chamar de Garçom

Miguel Icassatti

2013-12-20T18:01:43

13/12/2018 01h43

Wil: a vocação em pessoa, a serviço de quem chega ao Veloso

No primeiro texto deste blog na era Urban Taste, eu disse que a maior contribuição dos Botecos à célebre teoria do 4 "P" do Marketing, de McCarthy, foi a inclusão do quinto "P", de Pessoas. Afinal, "um boteco é feito de gente: a começar do garçom eficiente".

Dias atrás, um episódio ocorrido em Belo Horizonte, no restaurante Benvindo, corroborou minha tese. A esta altura você já deve ter lido a respeito, já que a história viralizou nas redes sociais. Foi mais ou menos assim:

Na terça-feira, 4 de dezembro, em plena hora do almoço, um homem, maltrapilho e descalço, chegou à varanda do Benvindo e pediu uma refeição a um dos dois garçons presentes. Tinha uma nota de R$ 50,00 na mão.

Um dos funcionários apresentou-lhe as sugestões do cardápio e ele optou pelo menu executivo. Pediu também uma garrafa de vinho.

A conta ficou em R$ 121,80 mas, na hora de o homem pagá-la, o garçom disse-lhe que estava tudo certo, que o almoço era uma cortesia da casa. O homem insistiu e entregou a nota de R$ 50,00 ao rapaz, que foi até o caixa e voltou com R$ 40,00 de troco.

Numa mesa próxima, uma cliente viu a cena, fotografou o garçom e o cliente, e compartilhou no Facebook, tecendo elogios à empatia e à compaixão do Felipe e do Rafael, os dois garçons do Benvindo.

Este legítimo conto de Natal me inspirou a lembrar de alguns grandes garçons e garçonetes dos botecos paulistanos.

O Wil, por exemplo. Baiano ali da região de Ubaitaba, sul do estado, ele trabalha no Veloso desde a abertura do bar, em 2005. É a gentileza em pessoa, 100% vocacionado para a profissão.

Perto dali, também na Vila Mariana, a Soninha, da Academia da Gula, é o braço-direito da Dona Rosa e da Daniela, mãe e filha, donas da casa. Tímida, mas de uma eficiência admirável, está sempre no meio-de-campo entre a cozinha, o balcão, o salão e as mesas da calçada, dedicada a bem receber. Se é verdade que as mulheres conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo, imagine do que essa moça é capaz.

A Luana, do Bar dos Cornos, no Jaguaré, domina o salão e também a calçada.

– O pastel aqui é bom?
– Sim, uma delícia!
– Mas acho que vou de torresmo.
– Muito bom também!
– Que cachaça você indica?
– Ah, a da casa, é claro.

Como se vê, Luana é também uma exímia vendedora.

Nós, jornalistas que estamos acostumados a perambular pelos bares da Vila Madalena, poderíamos listar um sem-fim de nomes, tanto dos que se foram como dos que aí estão. Discrição e paciência para administrar pedidos de saideira às 4 da manhã, porém, não são virtudes para qualquer um. Que o diga o Joaquim, ele, sim, o garçom-amigo de editores e repórteres que desembarcam no Filial àquela hora.

Ele sabe que nem sempre esses clientes terão razão, mas não irá negar um copo de chope garotinho a quem lidou o dia inteiro com más notícias.

Vai lá:
Academia da Gula: Rua Caravelas, 374, Vila Mariana.
Bar dos Cornos: Rua Araicás, 240, Jaguaré.
Filial: Rua Fidalga, 254, Vila Madalena.
Veloso. Rua Conceição Veloso, 56, Vila Mariana.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.