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Três botecos de pai para filho – e um de pai para filha

Miguel Icassatti

08/08/2019 23h45

Luiz Fernandes e…

"Não basta ser pai, tem que participar", dizia o locutor ao fim da bela propaganda, no início dos anos 1980, daquele famoso relaxante muscular. Que garoto não sonhou em marcar aquele gol de pênalti debaixo do toró e correr para o abraço do pai?

… Eduardo Fernandes: pai e filho no balcão e no salão / Fotos: divulgação

O Eduardo Fernandes, por exemplo: torcedor do Santos, certamente imaginou-se na cena. Mas a verdade é que, para ele, assim como para outros garotos que seguiram o caminho do pai e foram trabalhar no boteco da família, o slogan poderia ser outro: "não basta ser filho, tem que participar".

Eduardo é filho do Luiz Fernandes, fundador do Bar do Luiz Fernandes, o boteco mais tradicional da ZN paulistana. Hoje com 54 anos, ele trabalha no bar desde 1983, quando completou 18 anos. "Parei de estudar no ginásio e resolvi trabalhar com meu pai. O bar é o único emprego que tive em toda minha vida", diz Edu, que gerencia o estabelecimento e convenceu as duas filhas a também trabalharem no negócio. Catarina formou-se em gastronomia; Carolina é nutricionista.

Ambas dão expediente no bar e mantêm a tradição da casa de colocar no cardápio uma receita nova de bolinho a cada ano. Recentemente, portanto, o Bar do Luiz Fernandes lançou o garbanzo, um bolinho com massa de grão-de-bico com arroz negro e linguiça defumada (R$ 6,00).

Fabrizio, Magrão e Giovanni: o power trio da mamãe Mônica

Foi também aos 18 anos, em 2009, que Giovanni Boralli assumiu a cozinha da Cantina e Bar do Magrão, no Ipiranga, botecaço que o Magrão e a Mônica haviam aberto em 1995 bem antes, portanto, do nascimento de Giovanni – e de Fabrizio, o caçula que, assim como o irmão, formou-se chef de cozinha. "O Giovanni trabalhou com o Alex Atala no D.O.M e no Dalva e Dito. É bom nos risotos e nas comidas mais 'enjoadas'. E o Fabrizio manda bem nas massas e sobremesas", conta Magrão, que atribui ao primogênito a criação de uma das receitas de maior sucesso do bar, que lhe valeu o prêmio de petisco campeão do festival Comida di Buteco em 2012: o escondidinho de bacalhau (R$ 46,00).

Bem mais cedo, aos 13 anos, foi a idade com que o Rodrigo Oliveira começou a trabalhar com o pai, José Almeida, no Mocotó. "Naquela época, 1993, éramos meu pai, eu e mais três funcionários", relembra o chef, que hoje comanda uma brigada de 70 funcionários e levou a casa da Vila Medeiros a alcançar uma estrela do Guia Michelin, graças a itens como os excelentes torresmo (R$ 9,90 a unidade), os dadinhos de tapioca (R$ 16,90 a porção com seis) e a carne-de-sol com chips de mandioca, alho assado e pimenta biquinho (R$ 58,90).

José Almeida e Rodrigo Oliveira: ensinar e aprender o que é a simplicidade / Foto: divulgação

Enquanto Rodrigo divide-se entre as cozinhas do Mocotó e do restaurante Balaio (no térreo do Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista), além da concepção do negócio – "mais que um restaurante", diz Rodrigo – que irá ocupar o espaço do antigo Esquina Mocotó, com abertura prevista ainda para 2019, seu pai aparece diariamente na casa que ele fundou em 1973. "A grande lição que meu pai me dá é a do respeito à simplicidade. O sertão, afinal, não é o lugar dos excessos. É, na maioria das vezes, o da escassez", diz Rodrigo, referindo-se à origem sertaneja do pai, em Mulungu, Pernambuco.

Já Marcia Nozoie diz que sempre trabalhou com o pai e a mãe, a saudosa Dona Shizue, na cozinha do Bar do Luiz Nozoie. Ela nasceu em 1961, um ano antes de o pai abrir o boteco no Jardim da Saúde. "Desde criança eu já ajudava minha mãe a preparar os petiscos. Mas foi em 1986 que larguei meu emprego e passei a trabalhar somente no bar.

Luiz Nozoie e Marcia: de pai para filha / Foto: acervo pessoal

É ela quem comanda o boteco e zela pela tradição e pela qualidade dos itens servidos ali, entre os quais o jiló temperado (R$ 4,00 a unidade) e o bolinho de arroz com calabresa (R$ 2,50).

"Aprendi com meu pai a cuidar de tudo um pouco, a ter uma visão atenta de muitas coisas no dia-a-dia do bar", conta Marcia. Prestes a completar 89 anos, Luiz Nozoie diminuiu o ritmo de trabalho, mas aparece no salão assim que o bar abre as portas e se recolhe no começo da noite. Afinal, não basta mesmo ser pai, né, Seu Luiz?

Vai lá:

Bar do Luiz Fernandes. Rua Augusto Tolle, 610, Mandaqui.

Bar do Luiz Nozoie. Avenida do Cursino, 1210, Jardim da Saúde.

Bar do Magrão. Rua Agosinho Gomes, 2988, Ipiranga.

Mocotó. Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1100, Vila Medeiros.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.