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Um almoço-raiz e um #tbt acadêmico-afetivo

Miguel Icassatti

29/08/2019 19h30

Bistequinha de porco com mandioca frita, arroz e feijão: almoço-raiz / Fotos: Miguel Icassatti

Vou dar o devido crédito ao André, que não poderia ter criado uma legenda melhor às fotos que postei hoje no Instagram e no Facebook: "almoço-raiz".

É verdade, os elementos de um almoço-raiz estavam reunidos ali na lanchonete Igaratá, nos 40 e poucos minutos que eu tinha para meu repasto: pra começar, eu estava em uma "lanchonete" (quer eufemismo melhor para qualificar um boteco?), havia uma banqueta e um espaço livre de cotoveladas ao balcão de granito, o cardápio trazia uma seleção de pratos do dia e fui recebido com um "o que vai querer almoçar, meu amô?", vindo da atendente – não era o Silvio, que, segundo meu primo Alan, é o tirador de pedidos oficial da casa.

Enquanto eu esperava pela minha bistequinha de porco com mandioca frita, arroz e feijão (R$ 18,00) e pela limonada (R$ 5,50), reparei no entra-e-sai de gente: turmas da-firrrrma e alguns estudantes da FGV, a Fundação Getúlio Vargas, que tem um doas acessos no mesmo quarteirão.

Lanchonete Igaratá: vizinha à FGV

O momento nostalgia foi inevitável e me levou aos anos 1990 e as aulas do curso de Jornalismo da PUC-SP, que nós da turma de 1993 costumávamos frequentar antes, durante ou depois das escalas no Doca´s, boteco que ficava, se não me falha a memória, na esquina das ruas Monte Alegre e Bartira.

Não me lembro o que comíamos ali, já que o estômago era acalentado no intervalo das aulas pelo cachorro-quente do Serginho, que montava o carrinho na mesma Monte Alegre, na calçada em frente à entrada do prédio velho puquiano.

Era um baita lanche, composto de bom pão, salsicha, ketchup, mostarda, maionese e queijo ralado por cima do purê de batata, que cumpria uma função hermética no lanche, impedindo que tudo o que foi descrito duas linhas acima se esvaísse. E o melhor é que ganhávamos um dog de graça a cada oito comprados – fidelização era isso aí…

A conta: preço honesto

Havia também o Cardoso, um quarteirão acima do Doca's, boteco mais raiz no qual tomei um dos maiores porres da minha vida em 1996, logo ao fim da manhã, enquanto acompanhava pela TV do bar a cobertura da trágica queda do Fokker 100 da TAM. Triste dia, aquele.

Não frequentei os botecos perfilados na Ministro Godoy, do outro lado da rua, em frente à entrada o prédio novo. Era território dos boyzinhos das faculdades de Administração e Direito.

O Doca's e o Cardoso não existem mais, nunca mais tive notícia do Serginho mas outros botecos continuam firmes e fortes nos arredores das faculdades paulistanas, recebendo os futuros bacharéis.

O cafezinho coado do almoço-raiz: cortesia não tem preço / Fotos: Miguel Icassatti

Um dos mais tradicionais é o Mac-Fil, na Rua Maria Antônia, colado ao campus do Mackenzie. Certeza que meu sogrão, engenheiro formado pelo Mack, frequentou o bar, que existe desde 1966.

Outro clássico é o Prainha Paulista, na Joaquim Eugênio de Lima, ponto de encontro da turma da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, assim como são também o Rei das Batidas, no Butantã, que atrai alunos e mestres em busca da dupla bolinho de bacalhau e cerveja, e o Buim Bom, um pé-sujo localizado em frente à FAAP, invariavelmente cheio nas noites de quinta e sexta, sem contar as quartas-feiras em que há jogo no Pacaembu.

Em comum, esses botecos vizinhos de facul têm cerveja a um preço mais camarada, obviamente, já que estudante é, via de regra, um sujeito durango. Não bebi cerveja na Igaratá mas ganhei um cafezinho recém-coado, aquele tipo de gentileza que, convenhamos, não tem preço.

Vai lá:

Lanchonete Igaratá. Rua Itapeva, 518, Bela Vista.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.