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A resistência gastronômico-musical de dois botecos “madalenos”

Miguel Icassatti

06/09/2019 15h43

Lygia Marina e Ronaldo Câmara no Pira Grill: música e boa comida / Fotos: divulgação

Entre 1998 e 2000, morei numa rebarba da Vila Madalena, na esquina das ruas Paulistânia e Heitor Penteado. Fui um dos primeiros usuários da estação de metrô do bairro, inclusive. Bairro que eu frequentava desde o início dos anos 1990, quando morava na ZN, e, nas noites de sexta e sábado, baixava por ali para perambular entre bares como os finados Barbahala, Dona Maria, Brancaleone, Santa Casa, Dolores, Bom Motivo, Morrison… A lista era longa.

O Dona Maria, por exemplo, ocupou o mesmo prédio do Vou Vivendo, na Rua Pedroso de Morais, que foi um dos bares com música ao vivo mais legais da Vila Madalena.

Aos olhos da turma-do-talkey dos dias de hoje, a Vila Madalena poderia ser rotulada como um bairro de esquerda. Graças, é verdade, a essa predisposição em reunir boêmios, intelectuais, jornalistas, gente, enfim, que sempre gostou de discutir política, religião e futebol numa mesa de bar, mesmo que, lá pelas tantas, com um cigarro entre os dedos (naquele tempo era permitido fumar no bar) e um copo de Brahma na mão (ou Antarctica ou Kaiser ou Cerpa ou Skol, era o que tínhamos), dissesse que "política, religião e futebol não se discutem".

No sábado passado, fui à feira da Rua Aspicuelta e parei para comer no Empanadas. Nostálgico, fiquei um bom tempo a olhar para os pôsteres de filmes pendurados nas paredes. O Empanadas, é bom lembrar, foi um ponto de encontro de diretores, atores, gente do cinema e de muitos esquerdinhas.

Com o passar dos anos, as mudanças urbanas, a transição de gerações, é inevitável constatar que a Vila Madalena de hoje tem muitas diferenças com aquela, da qual sou saudoso. Era também, e fundamentalmente, a Vila Madalena dos botecos que reuniam boemia, cozinha decente e a bom preço, além de música brasileira da melhor qualidade.

Em relação ao passar do tempo, não há muito o que fazer. Mas é preciso resistir e de alguma forma sou resistência, quando estou à mesa de dois bares que me provocam boas lembranças boêmio-gastronômico-musicais: o Filial e o Pira Grill.

Esta semana, por exemplo, fui surpreendido com uma postagem da Vera, dona do Pira Grill, lembrando da festa de 20 anos do bar, que aconteceu em 2018. Ela e o marido, Pedro, foram donos do Piratininga, que foi o primeiro bar sobre o qual escrevi, em 1998, quando eu era repórter de Playboy. Vivi grandes momentos ali, como cliente, inclusive.

Jazz, blues, chorinho, bossa nova: diariamente havia música da boa no Piratininga, costume que o Pira Grill, vizinho, felizmente herdou e mantém vivo. Na festa dos 20 anos, por exemplo, o bar inaugurou uma parede com fotos de grandes nomes da bossa nova, feitas por Ronaldo Câmara. Fotógrafo que registrou muitos dos artistas daquele gênero, Câmara esteve presente ao lado de Lygia Marina de Moraes, ex-mulher de Fernando Sabino, simplesmente a musa inspiradora de Tom Jobim na composição de Ligia, a bela canção.

A polenta frita do Pira Grill: boas memórias

O Pira Grill mantém a tradição da música ao vivo nas noites de sexta e sábado e nas tardes de sábado e domingo, muitas das quais contaram com minha presença e de minha bicicleta. Enquanto ouvia o chorinho na calçada, pedia o bom frango assado e a polenta frita, que é o que costumo comer ainda hoje.

Distante três quarteirões dali, o Filial é outro herdeiro da boa música no bairro. Os donos, irmãos Ricardo e Helton Altman, foram os fundadores de ao menos três outros grandes redutos do samba e da MPB no eixo Vila Madalena-Pinheiros. Ao Helton Altman devo uma correção: nada de chorinho, gostamos mesmo é de Choro.

Salão do Filial: é de choro que gostamos / Foto: divulgação

O primeiro desses bares foi o Clube do Choro, aberto em 1984 na Rua João Moura, o precursor, aliás, da transformação daquela via na Rua do Choro. Eu gostaria de estado lá: nas tardes de domingo, os carros não circulavam no pedaço e a rua era tomada por músicos e público.

No local, os irmãos Altman também abriram o Gargalhada Bar, no início dos anos 1990 e, depois, na Rua Pedroso de Morais, o já citado Vou Vivendo. Frequentaram e se apresentaram nesses bares intérpretes como Chico César, Cristina Buarque e Beth Carvalho. E hoje, passam pelo Filial artistas como o bandolinista Fabio Peron e o cantor Zé Renato, do Boca Livre.

O tempo passa, não há muito o que fazer, mas é possível resistir.

Vai lá:

Filial. Rua Fidalga, 254, Vila Madalena.

Pira Grill. Rua Wisard, 161, Vila Madalena.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.