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São Paulo, Lisboa, Coimbra e as conservas daqui e de lá

Miguel Icassatti

15/11/2019 21h34

Petingas do Zé Manel dos Ossos: clássico de Coimbra / Foto: Miguel Icassatti

Acabo de regressar de Portugal. Já no free shop do aeroporto de Lisboa é possível notar as cores – seria um problema se os aromas também pudessem ser percebidos ali – dos rótulos das conservas portuguesas expostas nas prateleiras.

A preparação das conservas de pescados é uma tradição lusitana, afinal, Portugal é um país banhado pelo mar, de norte a sul.

Comem-se peixes e frutos do mar, ali, o ano todo e com uma oferta incrível.

Para além da quantidade, a qualidade do pescado português é ótima, graças, principalmente, ao relevo subaquático e o impacto das correntes marítimas na sua costa.

Os bares, quer dizer, as tascas preparam cada qual as suas receitas a exemplo do Zé Manel dos Ossos, em Coimbra, que serve maravilhosas petingas (sardinhas miúdas) em conserva.

Um símbolo da gastronomia lisboeta e em atividade desde 1930, a Conserveira de Lisboa é um endereço tradicionalíssimo. A quem vai à cidade, eu recomendo uma visita à loja original ou à filial, no Mercado da Ribeira, que é também um destino gastronômico obrigatório, com bares e restaurantes comandados pelos melhores chefs do país.

Não tenho dúvida, portanto, que existe uma certa influência portuguesa no cardápio de alguns botecos paulistanos que mantêm algumas conservas à venda. Por sua vez, acredito que os portugueses também receberam alguma influência dos países do norte da Europa, afinal, é lá pra cima que vão pescar o bacalhau, né não?

Bom…

Balcão de conservas e petiscos do Elídio Bar: símbolo paulistano / Foto: divulgação Facebook

 

No Elídio Bar, na Mooca, por exemplo, um dos meus petiscos prediletos é o roll-mop, cuja receita original é uma conserva tradicional no norte da Alemanha. Na versão germânica, trata-se de um filezinho de arenque enrolado, como um minirocambole, em um pedaço de pepino, cebola ou azeitona em conserva e preso por um palitinho. Uma vez montado, o roll-mop fica preso também numa conserva que pode levar água, vinagre, açúcar e sal. No Elídio e em outros bares é feito com sardinha, e é muito gostoso. Come-se frio, com um pãozinho pra xuxar o óleo.

Outro lugar que tem uma conserva deliciosa é o Jabuti, na Vila Mariana, que faz um muito saboroso atum a escabeche. A escabeche, aliás, é um molho que tem origem na Península Ibérica e possui dupla função: dar sabor aos pescados e, obviamente, conservá-los. Leva em geral temperos como louro, pimentão, tomate, salsa e é uma delícia.

Vai lá:

Elídio Bar. Rua Isabel Dias, 57, Mooca

Jabuti. Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, 1315, Vila Mariana

Conserveira de Lisboa. Rua dos Bacalhoeiros, 34 e Mercado da Ribeira, Lisboa

Zé Manel dos Ossos. Beco do Forno, 12, Coimbra, Portugal.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.

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