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Entre os morros da Zona Norte, um senhor boteco

Miguel Icassatti

22/11/2019 19h51

Bar do Caldo: rabada com baião-de-dois / Foto: Miguel Icassatti

Havia uns bons dez anos que eu não voltava ao Bar do Caldo, que conheci como "O Bar do Ney", apresentado pelo Carlão, botequeiro de primeira e, ali em meados de 2004, 2005, um dos editores da premiadíssima Edição de Esportes do Jornal da Tarde, o JT, pilotada pelo saudoso Sidney Mazzoni.

O Bar do Ney – perdão, chamarei assim – fica em uma daquelas esquinas tortas, meio em aclive, meio em plano, que só os morros da zona norte de São Paulo são capazes de produzir.

Lembro-me que logo de primeira gostei do boteco, que servia uma comida nordestina, sertaneja, melhor dizendo, saborosa, bem temperada, gorda, sem frescuras.

No salão diminuto, o fogão industrial era coberto por panelões cheios de receitas tais quais baião-de-dois, dobradinha, rabada.

Na condição de crítico de bares do JT, eu não me identifiquei como tal na primeira visita. Assim, pude escrever meu texto sobre o bar com total independência.

 

Bar do Caldo: louvor à simplicidade / Foto: Miguel Icassatti

 

Duas coisas me chamaram atenção naquela década e meia atrás: o semblante carrancudo do Ney, o anfitrião, e os pratos tipo Duralex, de uma simplicidade, como direi, comovente. Ousei, no texto, sugerir ao Ney que os trocasse por louça branca. Quanta pretensão a minha.

Eis que na segunda vez que voltei lá, meses ou poucos anos depois, meu texto estava pendurado na parede e os pratos haviam sido substituídos.

Não perguntei ao Ney se ele trocou por causa do meu texto. Pudera, fiquei mais uns cinco ou seis anos sem voltar lá e regressei dias atrás.

Tudo estava como deveria estar: panelas no fogão, pote de rapadura no balcão, mesas cheias na calçada, a comida (já volto a ela) segue deliciosa e o Ney a atender a toda freguesia.

Desta vez, depois que paguei a conta, apresentei-me a ele, que abriu um sorriso. Ney não tem nada de carrancudo. É cabra bom, excelente anfitrião.

À comida: pedi um torresmo pra começar, pulei os caldos (mocotó e mocofava) e fui direto a uma das opções do dia, a rabada.

Das boas, em pedaços grandes, veio acompanhada de baião-de-dois – daqueles úmidos, com bastante queijo-de-coalho, coentro e cebola roxa – e uma farofa, muito boa também.

Por esse minibanquete eu paguei 25 reais, apenas.

Deu tempo de provar uma dose da cachaça Velho Lobbo, produzida em Janaúba, Minas Gerais, e envelhecida em tonéis de carvalho. Com 39% de álcool, desceu macia, suave.

Na volta pra casa, vim pensando: o Bar do Ney é um louvor à simplicidade. Por que raios fiquei tanto tempo sem voltar ali?

Vai lá:

Bar do Caldo. Avenida Judith Zunkeller, 152, Mandaqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.