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Miguel Icassatti

27/12/2019 12h16

Shawarma do Shawarma Anwar: receita síria no Sumaré / Fotos: Miguel Icassatti

A Avenida Professor Alfonso Bovero, no bairro do Sumaré, tornou-se um improvável reduto de refugiados na cidade de São Paulo.

É gente que se viu obrigada a abandonar seu lar e sua terra, mas que trouxe para cá memórias e receitas culinárias, com as quais incrementam ainda mais o caldeirão de sabores da gastronomia paulistana.

O Fatiado Discos e Cervejas Especiais, um misto de bar e loja de vinis, por exemplo, dedica as terças-feiras a jantares preparados por refugiados sírios e palestinos, numa parceria com a Ocupação Leila Khaled, que acolhe justamente os imigrantes dessas nacionalidades.

No número 1028 funcionou até recentemente o Shawarma do Brimo, uma casa dedicada, como direi, ao preparo shawarma. Mudou de nome recentemente, mas mantém a receita no cardápio, a 17 reais.

Shawarma é um sanduíche típico de países do Oriente Médio, como Síria e Turquia e que, em certos países da Europa em que há grande presença de imigrantes desses povos, converteu-se me uma tradicional comida de rua. Montado num pão árabe, recebe recheios como carne (na Europa, de cordeiro), frango e falafel, além de temperos, entre os quais alguma folha (acelga, por exemplo), cebola, picles, tiras de batata, tomate e molho de alho. Tudo isso é enrolado no pão, vai a uma chapa e entregue ao cliente dentro de um papelote de papel alumínio.

Sim, estamos falando também do kebab, opção boa, rápida e barata de alimentação em cidades alemãs como Berlim e Hamburgo. E não terá sido mera coincidência: trata-se de uma versão do nosso churrasquinho grego, típico sanduíche popular do centro de São Paulo, servido em geral na porta de botecos roots, em espetos verticais giratórios, nos quais um atendente vai raspando a carne e deixando-a cair numa banda de pão francês. De cortesia, o comprador leva um refresco artificial de máquina.

Shawarma misto (carne e frango): no Shawarma anwar

De volta à Avenida Alfonso Bovero, no número 453 fica também uma casa especializada neste sanduíche, o Shawarma Anwar. Serve a receita nos sabores carne, frango, faláfel e misto (carne com frango), a 18 reais, e também salgados como quibe (7,50 reais) e esfihas de carne, queijo e zátar (6,50 reais).

Com um salão pequeno, onde destacam-se dois balcões-vitrine dispostos perpendicularmente, o Shawarma Anwar acolhe, assim como em um bom boteco, os clientes em mesas dispostas na calçada. Vende cerveja (Original e Heineken, 13 reais) e até arak, destilado feito com uva e anis, a 15 reais a dose.

Sem qualquer cerimônia, o pagamento da conta é feito no caixa, diretamente com o proprietário, que nos devolve um inesperado e bem-vindo "obrigado, irmão".

Que em 2020 tenhamos muitas razões para brindar e para agradecer Feliz Ano Novo.

Vai lá:

Shawarma Anwar. Avenida Professor Alfonso Bovero, 453, Sumaré.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.

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