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São Paulo, 466; Padaria Santa Tereza, 148 anos

Miguel Icassatti

23/01/2020 15h58

Padaria Santa Tereza: 148 anos de serviços prestados / Fotos: Miguel Icassatti

Na edição de terça-feira, 22 de janeiro de 1872, o jornal "Correio Paulistano" trazia, na página 2, a informação de que "Na Noute de 24 do corrente, e não de 25 como se propalou é que dar-se-ha a iluminação no jardim publico, por meio de bicos de gaz e luz electrica".

Nesse mesmo ano, a cidade de São Paulo era habitada por algo entre 19.000 pessoas, de acordo com o Banco de Dados da Folha de S. Paulo, e 30.000 pessoas, segundo informação da Prefeitura de S. Paulo. A primeira linha de bonde – com tração animal, diga-se – surgiu, com um trajeto que ligava a Estação da Luz ao Largo do Carmo.

Pois em 1872 foi inaugurada também a Padaria Santa Tereza, certamente o estabelecimento gastronômico mais antigo em atividade na cidade de São Paulo.

Sanduíche de pernil: tamanho ideal / Foto: Miguel Icassatti

A dois dias do 466º aniversário de São Paulo, acomodei-me pela hora do almoço no balcão desse endereço que, ao longo de quase um século e meio de história, coleciona alguns símbolos da gastronomia paulistana, ainda que essas receitas não sejam, vá lá, criações da casa.

Por exemplo, a enorme coxa-creme, que uma vizinha ao balcão comia com muito gosto (R$ 8,40); a centenária canja de galinha (R$ 25,90) e o shap, um sanduíche feito no pão francês – assado na casa, um privilégio – com queijo estepe, tomate, cebola, azeitona e rosbife também feito ali (R$ 22,20). Por má sorte, o rosbife estava sendo assado no exato momento em que eu cheguei à padoca, razão pela qual optei, por sugestão da garçonete, ao sanduíche de pernil (R$ 12,80), precedido por um bolinho de bacalhau (R$ 7,40) que, da estufa, chamou minha atenção. Para acompanhar ambos, senti falta de uma boa pimenta da casa.

Bolinho de bacalhau: faltou uma boa pimenta / Foto: Miguel Icassatti

Bem temperado, o pernil é assado diariamente e preenche o sanduíche numa quantidade amigável à embocadura, aquém, portanto, à do Estadão (em tempo: isto não é uma reclamação).

Vacilei na hora de pedir a bebida pois não vi que havia chope (R$ 9,20) no cardápio, muito menos chopeira no balcão. Pudera. A distinta está instalada no bonito salão do piso superior, que funciona como restaurante.

O salão superior: deu vontade de voltar / Foto: Miguel Icassatti

É um espaço, pelo que pude perceber, frequentado por gente da área jurídica, já que o Fórum Dr. João Mendes fica do outro lado da rua. Possui pé-direito alto, arcadas e janelões com vista para a praça e os fundos da Catedral da Sé.

Antes de sair, aproveitei para comprar um pão português (R$ 9,70 a unidade). Uma noite no freezer, uns minutinhos no forno e o café da manhã desta sexta-feira estará garantido.

Vai lá:

Padaria Santa Tereza. Praça João Mendes, 150, Sé.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.

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