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Todos os caminhos levam a uma Salada

Miguel Icassatti

30/01/2020 18h29

Salada Record: a casa do virado à paulista / Foto: Miguel Icassatti

Alguma coisa aconteceu no coração de Caetano Veloso, ali pelos idos de 1978, quando ele cruzou a Ipiranga e a Avenida São João. Não se sabe para qual direção o autor de "Sampa" seguiu mas é pouco provável que o destino tivesse sido a Salada Record, casa vizinha do Bar Brahma.

Aberta em 1958, a Salada Record ganhou fama graças ao virado à paulista, tradicional receita servida às segundas-feiras nos botecos paulistanos e que foi tombada como patrimônio imaterial paulista em 2018.

O Salada Record, é bom que se diga, concedeu-se licença para servir o prato diariamente (prerrogativa semelhante têm o Bolinha e o Star City, que vendem feijoada todos os dias). Leva arroz, tutu de feijão, bisteca, torresmo, couve, ovo frito e banana à milanesa. Custa R$ 34,50 (ou R$ 28,00 na versão já montada no prato).

O engraçado é que no domingo passado, quando almocei por lá – fui de filé à parmegiana, R$ 72,00 a porção para duas pessoas, que satisfez, na verdade, a mim, minhas filhas e minha jovem e bela senhora –, não vi ninguém a pedir ou comer uma salada. Afinal, é de se supor que um carro-chefe da casa fosse alguma opção de salada. Mas eu estava enganado.

Talvez estejamos aqui diante de uma pegadinha histórico-gastronômica, já que em São Paulo tudo continua se transformando: temos churrascaria que serve sushi; padaria que monta bufê comida vendida por quilo; pizzaria que vende hambúrguer; hamburgueria que prepara pizza.

Salão do Salada Record: virado à paulista por R$ 34,50 / Foto: MIguel Icassatti

Assim como há o Salada Record, funcionou na Avenida Ipiranga o Salada Paulista, esse, sim, famoso no passado pela salada de batata com salsichão. Talvez esteja aí a explicação pela conexão entre os nomes da casa e da receita.

A finada Leiteria Americana, na Rua Xavier de Toledo, por exemplo, não era um lugar especializado em leite. Em meados dos anos 1960, era um ponto de encontro de jovens, um misto de café e restaurante. Em que pese servir um ótimo pudim de leite condensado, a Leiteria Ita, aberta em 1953 na Rua do Boticário e ainda em atividade, vê seu balcão ficar lotado diariamente graças às dezenas de versões dos PFs por um bom custo-benefício.

Meu palpite é que essa mistureba etimologico-gastronômica segue a lógica da cidade de São Paulo, que cresceu desordenada, não-planejada, puxada pra lá e pra cá. Os ônus são muitos, sabemos disso, mas essa mistura de ingredientes tem lá sua graça, tal qual uma salada que, a bem da verdade, desce melhor quando às folhas juntamos uns grãos, umas frutas, uns queijos, vinagre balsâmico e um bom azeite.

E, no que dependesse de mim, só Caetano poderia se referir a São Paulo como "Sampa". Afinal, qual é o paulistano que chama sua própria cidade dessa maneira, meu?!

Vai lá:

Salada Record. Avenida São João, 719, centro

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.

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