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#Fiquenobar

Miguel Icassatti

03/04/2020 11h16

Preso no bar: a cerveja redentora

Calma, gente, calma. Em hipótese nenhuma serei eu o cidadão de bem (nem tanto) a contradizer a recomendação da OMS, do Macron, do Trump (quem diria…), do Mandetta, do Dória, do Dani Alves, da minha mãe, neste sério momento em que vivemos: fica em casa, Miguel!

Mas o confinamento compulsório decorrente da pandemia me fez recordar de um episódio, em que fiquei preso, faminto, por umas boas horas num bar em Buenos Aires. Nada a ver com corona vírus, o perrengue deveu-se a um megaprotesto de garçons.

Foi mais ou menos assim: era 25 de junho de 2010, dia no qual a seleção brasileira empatou em 0 x 0 com Portugal de Cristiano Ronaldo, na Copa do Mundo realizada na África do Sul. Joguinho ruim, que assisti, na companhia de três amigos, num bar do terminal 2 do aeroporto de Guarulhos, já que embarcaríamos no fim da tarde daquela sexta-feira para passar o fim de semana em Buenos Aires.

Parênteses: naquele 2010, nós, brasileiros de classe média, éramos felizes e sabíamos. O câmbio do dólar estava a 1,77 real, o que nos permitia comer, rezar, amar, viajar e pensar no que fazer com aqueles reais que ainda sobravam na conta no fim do mês.

Desembarcamos no aeroporto de Ezeiza pouco depois do anoitecer e seguimos direto ao hotel Own, em Palermo Hollywood, bairro ao qual eu voltaria outras vezes e espero regressar em muitas oportunidades.

Chegamos com fome, é bom dizer, já que o longo período em trânsito entre casa-aeroporto-jogo-aeroporto-avião-aeroporto-hotel havia consumido umas boas 8 horas, com direito, no máximo, a cerveja e batata frita, no aeroporto, e barrinha de cereal, no avião. Por isso, saímos logo depois do check-in à caça de uma parrilla.

Caminhamos algumas quadras pelo vibrante bairro de Palermo Viejo e chegamos à Parrilla El Primo, que, na época, ocupava a esquina das ruas Humboldt e Gorriti. Pelo que pesquisei, já não existe e o mesmo endereço é sede hoje de La Costilla, outra churrascaria.

Lembro-me que logo ocupamos uma mesa no corredor central, entre o balcão e as mesas coladas aos janelões, e pedimos as duas primeiras garrafas de vinho – Rutini Malbec, era uma pechincha –, além de provoleta, asado de tira, ojo de bife e bife de chorizo. Nem demos muita atenção ao preço dos cortes, era realmente bem barato, menos da metade do que pagávamos à época em qualquer restaurante paulistano.

O vinho foi-nos servido logo. Erguemos um brinde, engatamos o papo e a fome foi aumentando. Passaram-se, sei lá, trinta ou quarenta minutos, uma hora, talvez, e nada de a comida chegar. Nem mesmo a provoleta.

Chamei a garçonete à mesa, que veio com a velha máxima: "está saindo". Minutos depois, viemos a saber que o pedido jamais sairia: no que ela voltou à mesa, trouxe a conta dos vinhos e disse que não poderia servir nossos pratos porque havia recebido ordens de encerrar o serviço, já que ocorria na região, àquela hora, uma manifestação do Sindicato dos Trabalhadores do Hotéis, Bares e Restaurantes de Buenos Aires.

Os piqueteiros seguiam em marcha pelas ruas de Palermo Viejo, pichando carros, batendo panelas, vandalizando fachadas de estabelecimentos, invadindo bares e restaurantes e obrigando seu fechamento imediato.

À mesa da parrilla El Primo, mal tivemos tempo de pagar a conta. A equipe da casa acabou por nos manter ali dentro, em relativa segurança, e teve tempo apenas de baixar as portas e apagar algumas luzes.

Buenos Aires: protesto bom é com os portenhos

A lembrança ainda é assustadora: ouvimos gritos de ordem, barulho de chutes e de objetos arremessados na porta metálica, de sprays de tinta sendo descarregados na fachada. Um rolê black block gastronômico por assim dizer.

Estávamos presos. No bar, com fome e sem ter o que comer.

Aguardamos por cerca de uma hora, até que fomos convidados a sair, depois que, aparentemente, as coisas estavam calmas.

Estávamos livres, já passava de meia-noite, a fome era absurda mas as probabilidades de encontrarmos algum lugar aberto era mínima.

Mas eis que no percurso até o hotel, flagrei uma cena que salvaria nossa noite: enquanto um casal deixava furtivamente o que parecia ser um bar, cuja iluminação da fachada estava completamente apagada, pude notar no brevíssimo entreabrir da porta que do lado de dentro havia um salão iluminado, cheio de gente, bombando. Na cara de pau, segurei a porta e perguntei ao porteiro se poderíamos entrar, pois estávamos realmente famintos.

Complacente, ele autorizou nossa entrada.

Conforme eu avançava salão adentro, fui percebendo que já tinha estado ali, em 2004, na primeira das três vezes que até então havia visitado Buenos Aires.

Era o Acabar, um bar-restaurante muito legal, com salão comprido, repleto de sofás e mesas baixas onde os fregueses se reuinam para beber, comer e passar a noite a disputar partidas de Ludo, WAR, Banco Imobiliário e outros jogos de tabuleiro que a casa deixava à disposição.

O ambiente e o astral lembravam o da Conspiração do Jogo, um bar instalado no complexo O Velhão, nos confins da zona Norte de São Paulo, divisa com a cidade de Mairiporã.

Fomos acomodados em um desses sofás, dividimos uma picada (tábua de embutidos e queijos), a única opção disponível àquela hora, e, para brindar, cerveja Quilmes.

Para a primeira noite daquela viagem entre amigos, bastava aquela surpresa. Viveríamos, naquele fim de semana, momentos impagáveis, como na tarde de domingo, em que assistimos ao jogo da Argentina na companhia dos garçons e do parrillero do Café Lezama, em Santelmo. O sujeito dedicava a mesma atenção à TV e ao preparo de nosso asado de tira que, se bem me lembro, veio no ponto certo.

Uma década depois, fico com duas constatações: 1. os portenhos são mesmo bons de carne e de protesto; 2. em tempos de quarentena, cada dia merece um #tbt.

Vai lá (depois que a quarentena passar):

Parrilla La Costilla. Calle Humboldt esquina com Gorriti, Palermo Hollywood.

Conspiração do Jogo. Estrada de Santa Inês, 3000, Mairiporã, São Paulo.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.