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Um drinque com Hemingway, Joyce e Sábato: 6 bares eternizados nos livros

Miguel Icassatti

10/04/2020 17h24

O'Neill's, em Dublin: presente na obra de Joyce / Foto: reprodução site oficial

É difícil não chegar à conclusão de que ninguém neste planeta ora recluso tenha estado em tantos bares ao redor do mundo quanto Ernest Hemingway: de Paris a Havana, de Pamplona a Key West, ele bebeu de tudo, acomodado em inúmeros balcões.

Ao lermos os romances clássicos do grande escritor americano, nos damos conta que o universo dos bares – no qual incluo a descrição do cenário, os barmen, a comida e os drinques – é componente imprescindível na composição de cada obra. Tanto é que essa conexão já foi ricamente analisada, como fez Philip Greene no bom livro To Have and Have Another: A Hemingway Cocktail Companion, sem tradução para o português, que reúne as receitas de dezenas de coquetéis citados nos livros do autor de O Velho e o Mar.

Além de Hemingway, outros escritores transportaram os bares, tanto os reais quanto os imaginários, para as páginas de seus livros.

Por sorte, já pude conhecer in loco alguns deles, a começar pelo Bar Británico, no bairro de Santelmo, em Buenos Aires. Já falei sobre esse lugar em outro post. Era frequentado por Ernesto Sábato, que não apenas escreveu muitas páginas de sua obra-prima Sobre Heróis e Tumbas ali, sentado em uma mesa à janela, como aludiu ao bar em trechos da história de amor de Martín por Alejandra:

"Parecia um símbolo: aquele bar era o primeiro em que havia conhecido a felicidade. Nos momentos mais deprimentes de suas relações com Alejandra sempre vinha ao espírito de Martin a recordação daquele entardecer (…)"

Británico: bar histórico em Buenos Aires / Foto: Miguel Icassatti

Em Dublin, a capital irlandesa, "pubs são uma importante parte da cultura. O pub irlandês encantou muitos dos nossos grandes escritores. James Joyce, Samuel Beckett, Oscar Wilde e Brendan Behan escreveram histórias em que o centro foi o pub", afirma um texto de apresentação no site do O'Neill's Pub & Kitchen, cuja história remonta a mais de 300 anos.

Não posso garantir, mas tudo indica que o O'Neill's citado no conto Counterparts, da coletânea Dubliners (Penguin Popular Classics), seja este que ocupa o número 2 da Suffolk Street, no centro de Dublin:

"(…) He was now safe in the dark snug of O'Neill's, and, filling up the little window that looked into the bar with his inflamed face, the colour of dark wine or dark meat, he called out:

'Here, Pat, give us a g.p.', like a good fellow.

The curate brought him a glass of plain porter. (…)"

"(…) Agora ele estava seguro no aconchegante e escuro O'Neill's e, colando à pequena janela que dava para o bar o rosto tão vermelho quanto um vinho tinto ou uma carne crua escura, ele gritou, como um bom sujeito:

'Aqui, Pat, dê-nos um g.p.'.

E o barman trouxe-lhe um copo de cerveja Porter. (…)"

O O'Neill's: um bar para 'good fellows'

Lançado em 2005, The Tender Bar traz as memórias do autor, o premiado jornalista , J. R. Moeringer, que ganhou o Pulitzer em 2000, por uma reportagem sobre uma comunidade de ex-escravos americanos. O livro, que ficou mais de um ano na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, foi traduzido no Brasil em 2007, com o nome de Bar Doce Bar – As memórias de um menino adotado pelo bar da esquina (Nova Fronteira).

O tal bar da esquina era o Dickens, aberto em 1948, e, enquanto descreve cenas vividas e observadas ali nos anos 1970 e 80, Moeringer relata suas recordações. E afirma a importância daquele bar na sua formação como homem:

"Sendo apenas uma criança, abandonado pelo meu pai, eu precisava de uma família, um lar e homens. Especialmente homens. Precisava de homens como mentores, heróis, modelos de comportamento, e como uma espécie de contrapeso masculino para minha mãe, minha avó, minha tia e as cinco primas com quem vivia. O bar me oferecia todos os homens de que eu precisava, exceto por um ou dois, que eram a última coisa de que eu precisava."

Como muitos bares de esquina mundo afora, o Dickens passou por altos e baixos, fechou e reabriu com outro nome, Publicans, em 1977, e com mais outro, Edison's , de 1999 a 2016. Voltou a ser Publicans em 2017.

Publicans: no passado, um bar doce bar / Foto: reprodução Facebook

De volta a Hemingway, por infindável que seja o rol de bares descritos em sua obra, recorri aleatoriamente a alguns citados em livros aqui da minha estante, e sem a certeza de que sejam reais, até por que, conforme o próprio autor adverte em uma nota do romance Ter e Não Ter (Civilização Brasileira), de 1937: "Tendo em conta a tendência corrente de identificar personagens de ficção com pessoas reais, é oportuno declarar que não há pessoas reais neste livro".

Nesse livro, já na quinta linha ele menciona um certo Pérola de São Francisco, no centro velho de Havana, em Cuba; três páginas adiante descreve um tiroteio no bar Cunard, também na zona portuária de Habana Vieja; e quase 200 páginas adiante detalha uma baita confusão no Freddy's, já em Key West, Flórida.

O Freddy´s, na realidade, seria o icônico Sloppy Joe's, que se autodeclara o bar predileto de Hemingway. É lá que, todos os anos, ocorre o concurso de sósias do escritor.

Em O Sol Também de Levanta, de 1926, Hemingway passeia por bares luxuosos – como o Café Napolitain e o bar do mítico Hotel Crillon, em Paris – e vai aos mais mundanos, caso de uma taverna ordinária em Pamplona, Espanha:

"Ficamos em pé ao balcão. Fizeram Brett sentar-se sobre um tonel. A taverna era sombria e estava cheia de homens cantando com voz rude. Atrás do balcão tirava-se vinho dos tonéis."

Sloppy Joe's: segunda casa de Hemingway / Foto: reprodução Facebook

O histórico imóvel onde está instalado o Hotel Crillon em Paris foi construído a pedido do rei Luís XV, em 1758, para ser sede de órgãos do governo francês. Atualmente sob a posse da família real saudita, o exclusivo hotel foi reformado e reaberto em 2017. Seu bar, o Les Ambassadeurs, tem uma extensa carta de vinhos, com 600 rótulos. Mas em O Sol Também se Levanta, o protagonista Jack Barnes bebe outra coisa ali:

"Às cinco horas eu esperava Brett no Hotel Crillon. (…) Brett não chegou e faltando um quarto para as seis desci ao bar e tomei um Jack Rose com George, o barman."

Jack Rose é um drinque feito basicamente com brandy de maçã, suco de limão siciliano e xarope de romã.

Les Ambassadeurs: vinhoe jack rose / Foto: divulgação

E seria impossível falar de Paris e de Ernest Hemingway sem mencionar o póstumo Paris É uma Festa, que o escritor revisava quando se suicidou, em 1961. Nesse apanhado de histórias de sua juventude na capital da França dos anos 1920, aparecem endereços como o Closerie des Lilas, o Les Deux Magots, o Dingo, na Rue Delambre, e a Brasserie Lipp, na qual Hemingway ocupa três parágrafos da página 87 para relembrar uma refeição:

"Havia poucas pessoas na brasserie e, quando me sentei no banco junto à parede, com o espelho atrás de mim e uma mesa em frente, e o garçom perguntou se queria cerveja, pedi logo um distingué, a grande caneca de um litro, acompanhado de salada de batata. A cerveja estava geladíssima e maravilhosa. (…) Depois do primeiro grande gole de cerveja, bebi e comi muito lentamente".

Brasserie Lipp: Paris é uma Festa / Foto: reprodução Facebook

Vai lá:

Bar Británico. Calle Brasil, 399, esquina com Defensa, Santelmo, Buenos Aires.

Brasserie Lipp. Boulevard Saint Germain, 151, Paris, França.

Les Ambassadeurs (Hotel Crillon), Place de La Concorde, 10, Paris, França.

O'Neill's. Suffolk Street, 2, Dublin, Irlanda.

Publicans. Plandmore Road, 550, Manhasset, Nova York, Estados Unidos.

Sloppy Joe's. Duval Street, 201, Key West, Flórida, Estados Unidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.