Boteclando

PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Afinal, o que é "beba com moderação"?

Miguel Icassatti

23/05/2020 04h00

Uma dose de 50 mililitros de conhaque por dia para elas, duas para eles / Foto: Creative Commons

Os exames do check-up naquele mês de outubro do ano da graça de 2013 piscavam para mim em um alarmante tom amarelo: o colesterol mau estava em níveis muito acima do recomendável, o meu índice de massa corporal estava batendo no patamar de sobrepeso e aquelas tonturas que me acometiam eram, segundo o que depreendi da explicação do médico com quem eu me consultava, algo como uma "quase" labirintite.

Saí da consulta com outras duas más notícias – teria de 1. começar a tomar remédios para conter essas tonturas e 2. reduzir alguns itens da minha dieta, em especial carnes, fiambres e pão. Ouvi, no entanto, que eu não precisaria parar de beber; ao contrário, bastava seguir a recomendação de consumir de uma a duas taças de vinho por dia.

"Como é que é, doutor?" Com a boa nova, acho que devo ter saltado da cadeira tão rápido quanto uma rolha escapa ao ser aberta uma garrafa de Champanhe. Segundo o doutor, essa quantidade de consumo de vinho não era contraindicada para mim desde que eu seguisse as demais recomendações: uma imediata readequação alimentar e, o que foi um baita de um presta-atenção, a prescrição do remédio.

Pois bem: dias atrás, a Folha de S. Paulo publicou o editorial "Álcool no isolamento", em que aponta a migração do consumo de bebidas dos bares para as casas das pessoas em quarentena, a partir de dados segundo os quais as vendas de bebida pela internet haviam crescido 50% entre fevereiro e março. E atribui à Organização Mundial de Saúde (OMS) a recomendação máxima de consumo de até três doses por dia ou sete por semana para mulheres e pessoas com mais de 65 anos; para homens, o limite é de até quatro por dia ou 14 por semana.

O Centers of Disease Control and Prevention (CDC), órgão vinculado ao governo dos Estados Unidos, adverte que para certos tipos de câncer (por exemplo, câncer de mama) e doença hepática, não há um nível seguro conhecido de consumo de álcool. Lembra que esse hábito está associado a vários riscos à saúde e que eles aumentam conforme sobe a quantidade de álcool que você bebe. Mas pondera, no documento "2015-2020 U.S. Dietary Guidelines for Americans", que, se for para consumir bebida alcoólica, as doses devem ser de um drinque diário para as mulheres e de dois para homens.

Beleza. Mas o que representam essas três doses por dia ou sete por semana indicadas pela OMS às mulheres ou os dois drinques diários tolerados pelo CDC aos homens, quando convertemos em copos de cerveja, taças de vinho, doses de caipirinha?

(É bom dizer que a diferença de quantidade recomendada a homens em mulheres não se deve a, digamos, nenhuma questão de gênero, mas, sim, ao metabolismo.)

Uma discussão a respeito levaria mais tempo do que uma noitada no Filial. A própria OMS afirma, segundo o site do oncologista Drauzio Varella, que "não existe um nível seguro para o consumo de álcool. Claro que há formas de consumo que oferecem menos risco, mas a OMS não estabelece limites específicos, porque a evidência mostra que a situação ideal para a saúde é não consumir nenhuma quantidade de álcool".

Já um estudo epidemiológico feito na Universidade Harvard, publicado no New England Journal of Medicine, relatou que 84 mil mulheres foram acompanhadas de 1980 a 1994 e aquelas que bebiam moderadamente demonstraram ter um risco de doenças cardiovasculares 40% menor em relação às abstêmias. Outros estudos realizados nos últimos anos sinalizam também para esse caminho de risco baixo aos homens e mulheres que bebem com moderação.

Em seu livro O que Einstein disse a seu cozinheiro – a ciência na cozinha, o professor emérito de química da Universidade de Pittsburgh (EUA) finalmente traduz o que significa "beber com moderação". Segundo ele, "diversas pesquisas definiram consumo moderado – aquele único drinque por dia para as mulheres – como qualquer coisa entre 12 a 15 gramas de álcool.

Enfim, essa é a quantidade aproximada de uma lata de cerveja Pilsen, de uma generosa taça com 150 mililitros de vinho e de 50 mililitros de um destilado com 40% de teor alcoólico, como uísque, gim ou cachaça.

A HPA, órgão vinculado ao Ministério da Saúde da Nova Zelândia, é clara na ilustração acima. Não mais de 2 doses para mulheres, não mais do que 3 para homens e ao menos 2 dias sem beber a cada semana

Em tempo: meses depois daquela consulta médica, fui dispensado do remédio. E os resultados de meu check-up mais recente, de 2019, estão melhores que os de sete anos atrás. Vou beber duas taças de um vinho tinto português para comemorar. Moderadamente.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.