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Restaurantes clássicos fecham em SP e RJ nos duros tempos de pandemia

Miguel Icassatti

06/06/2020 04h00

Pizza do Vituccio

"Acaaaabooooouoooouooou. Logo mais postamos novidades, mas não abriremos mais".

Três dias depois de postar o comentário acima em seu perfil no Instagram, o Carburadores, restaurante no bairro paulistano da Mooca especializado em assados e carnes defumados, publicou um vídeo em que um funcionário aparecia destruindo a marretadas o defumador da casa. Nesse dia, 27 de maio, o Carburadores anunciou em outro texto que pretende "inventar outros jeitos de trabalhar".

A primeira má notícia, no entanto, havia circulado já em abril, e dava conta do fechamento do La Frontera, restaurante que, certamente, foi um dos que mais frequentei, sobretudo nos sete anos em que morei no bairro da Consolação, a três quarteirões dali. Gostava muito do bife de chorizo a milanesa, preparado na grelha em vez de na fritura, acompanhado de salada de rúcula. Ezequiel, o sommelier daquele tempo, era competente e gentil.

No mesmo mês, foi-se também o veteraníssimo PASV, na Avenida São João. Lembro-me, na única vez em que estive ali, que pedi e gostei da carne assada e das boas batatas fritas à portuguesa. E me recordo também de um vizinho de balcão, freguês, decerto, deliciando-se com o que parecia ser um PF com uma senhora pescada grelhada – inteira, nada de filé.

Em maio, mais tristeza: foi anunciado o fechamento do Itamarati, depois de 74 anos de funcionamento em frente à Igreja de São Francisco e da Faculdade de Direito da USP. Era, obviamente, muito frequentado pela comunidade acadêmica local. Certa vez, cheguei a sentar-me a uma mesa que estava sendo desocupada pelo então prefeito, ex-aluno e professor da USP, Fernando Haddad.

Da Barra Funda veio a notícia que o hipster Capivara "como se conhece, não existe mais", conforme mensagem dos donos da casa no Instagram.

No Rio de Janeiro, apenas para citar o segundo maior mercado de gastronomia no Brasil, não resistiram a filial do Aconchego Carioca no Leblon e a unidade da Barra da pizzaria Bráz – a do Jardim Botânico retoma as atividades ao fim da quarentena. A churrascaria Fogo de Chão encara um justo purgatório depois de desonrosa tentativa de dar calote nos funcionários demitidos. A ótima filial do Astor, ali no comecinho de Ipanema, quase Arpoador, interrompeu as atividades, assim como o Lasai, dono de uma estrela no Guia Michelin.

Como se vê, em se tratando de efeitos da pandemia do novo e maldito coronavírus, o setor de restaurantes é extremamente vulnerável. E o segmento dos pequenos empreendimentos é o que está no grupo de risco.

Na semana passada, um diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) disse-me que uma enquete apontou a quebra de 40% dos associados e a falência de um a cada cinco bares e restaurantes no Brasil em decorrência das necessárias determinações de isolamento social.

É fato, muitos bares e restaurantes não sobreviverão à pandemia. Mas nada é tão triste e revoltante quanto a morte de pessoas, vitimadas pela doença.

Ontem, quinta-feira, 4 de junho de 2020, o Brasil teve mais casos de covid-19 do que os Estados Unidos. É (somos) o epicentro da pandemia. Tornou-se o terceiro país com mais óbitos. Morreram, na quinta-feira, 1.473 pessoas no Brasil.

Na quarta, 3 de junho, o Brasil também havia batido o triste recorde de 1.349 mortes em 24 horas.

Uma dessas vítimas foi o Dida, dono da excelente Vituccio Pizzeria, na Vila Ipojuca.

Estive na Vituccio duas vezes, ambas em 2019. Lembro-me da gentileza e da simpatia do anfitrião. Na primeira visita, o Dida havia dado um pedaço de massa às minhas filhas, para que sossegassem à mesa enquanto aguardávamos nosso pedido.

Ele ensinou as meninas a esticar a massa – com os dedos, do centro do dsco às bordas -, conduziu-as até o vidro que separava o salão da cozinha, pediu para que entregassem a massa ao pizzaiolo e que escolhessem a cobertura de sua preferência, pois, sim, senhoritas, aquele brotinho iria ao forno. Em família, num outro domingo de julho, comemoramos na Vituccio o aniversário da minha mulher. Dessa vez, batemos um bom papo ao balcão do bar na entrada do salão.

Sou, portanto, um dos brasileiros que, segundo pesquisa do Datafolha divulgada esta semana, conhece alguém que foi contaminado pelo novo coronavírus: no meu caso, são dois amigos em São Paulo, um em Recife, outro no Rio de Janeiro. Todos, felizmente, recuperados. Aqui no condomínio, duas vizinhas contraíram a doença. Uma delas, octogenária, morreu ainda em março.

Eu não a conhecia, e isso me fez lembrar de uma passagem do livro O Menino do Dedo Verde, que li aos 8 anos e, nestes dias, venho relendo para minha filha: "A prisão é dessas coisas que a gente encara tranquilamente para as pessoas que não conhecemos. Mas logo que se trate de um menino de quem a gente gosta, é tudo diferente".

Assim é com a morte. A gente gosta de você, Dida. Vá com Deus.

 

Correção: a filial da pizzaria Bráz no Jardim Botânico (Rio) retomará as atividades ao fim da quarentena.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.