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Vizinha a botecos, igreja em Madri acolhe fieis e boêmios até de madrugada

Miguel Icassatti

12/06/2020 12h35

Igreja de San Anton, no bairro boêmio de Chueca: aberta 24 horas e possíveis restos mortais do padroeiro dos namorados / Foto: Miguel Icassatti

A mais remota lembrança que tenho do dia de Santo Antônio, 13 de junho, deve datar de 1979 ou 1980, por aí. Foi quando vi, aos 4 ou 5 anos de idade, um frade franciscano enfiado em seu hábito marrom, na calçada da rua Hannemann, à esquerda da Igreja de Santo Antônio do Pari, a aspergir água benta nos transeuntes e incautos, entre os quais… eu:

– Olha, mãe, o Padre Anchieta!

Um axé para Anchieta e os irmãos jesuítas, sem os quais talvez São Paulo (a cidade) não existisse, mas Santo Antônio, São Francisco e Gobbo é que são meus guias espirituais, tenho certeza. Sabe aquela dose de cachaça, aquela onda de cerveja que ultrapassa a parede do copo, e que são vertidas "para o santo"? Pois é: as minhas são sempre dedicadas aos dois – embora Gobbo prefira um valpolicella e São Francisco talvez prefira um gole de um vermentino de sua Úmbria natal. De alguma maneira, eles viajam comigo e posso comprovar:

Em 2015, a caminho de Portugal, passei dois dias e uma noite em Madri. Foi um breve reencontro com esta magnífica cidade, depois de nove anos (eu teria uma passagem mais breve ainda, de míseras três horas, em 2018). Era mês de maio, quase verão na Europa, e os dias primaveris já estendiam sua luz até quase 9, 10 da noite, num convite natural a perambular pelas ruas e, no meu caso, pelos bares. Prevenido, hospedei-me em Chueca, bairro central e turístico que reúne a comunidade gay, hipster e foodie, em especial, graças aos bares e aos mercados de San Ildefonso e de San Antón (olha o santo aí…).

Casa Toni, em Madri: boteco para ir antes da missa / Foto: Miguel Icassatti

Nessa única noite por lá, depois de uma longa jornada que havia começado no Museu Reina Sofia e se estendeu a uma unidade da rede de bares Museo del Jamón, aos dois mercados e mais ao fantástico Mercado de San Miguel, ao turístico complexo de restaurantes Platea Madrid, que ocupa o prédio de um antigo cinema na Plaza Colón, e a um pit-stop em companhia de umas iscas de pulpo a la plancha na deliciosa Casa Toni, fiz uma breve pausa e recomecei a movida no El Tigre.

Uma vez em Madri, fiz como os madrilenhos: encostei meu cotovelo esquerdo no balcão e pedi uma caña (copo de cerveja). Segundos depois, ela veio, acompanhada de um petisco, no caso, umas patatas bravas. Mas poderia ter sido um pedaço de tortilla, um croquete de jamón – taí uma cortesia, não canso de dizer, que poderia ser copiada em bares do mundo todo. Deixei uma moeda de 2 euros (a caña custava 1 euro) e segui para La Bodega Ardosa, um símbolo local, em atividade desde 1892. Ali bebi um copo de vinho Rioja no balcão, que dessa vez foi-me entregue com um pratinho coberto por um naco de pão e umas azeitonas – em 2018, durante uma conexão aérea de três horas, beneficiei-me do fato de que o aeroporto local fica a apenas 20 minutos do centro da cidade e arrisquei uma bate-e-volta até lá. Dessa vez, meu copo de Rioja foi amparado por uma fatia de tortilla.

Bodega La Ardosa, em Madri: a dois passos da Igreja de San Antón / Foto: Miguel Icassatti

De volta a 2015: naquela noite de segunda para terça-feira, quase 2 da manhã, resolvi caminhar da Bodega ao hotel, quando deparei-me com a Igreja de Santo Antônio (San Antón) aberta. Um tanto incrédulo, fiz o sinal-da-cruz e, lentamente, comecei a caminhar pelo corredor lateral para que pudesse contemplar os pequenos altares . Até que cheguei àquele dedicado a São Valentim, no qual avistei uma câmara dentro da qual estariam os restos mortais do santo.

De acordo com a tradição católica, São Valentim foi um sacerdote que viveu no século III, quando meio mundo estava sob o domínio do império romano. Por determinação do imperador Claudio II, os soldados não podiam casar-se, pois o líder acreditava que os solteiros eram mais aptos à guerra. Mas Valentim celebrou diversos casamentos desses guerreiros, até que foi descoberto e decapitado em 14 de fevereiro do ano de 270. Viria a tornar-se o padroeiro dos namorados, tanto é que, em boa parte dos países do hemisfério Norte, os pombinhos celebram nessa data o Valentine's Day (Dia dos Namorados).

Há quem questione a originalidade das relíquias de São Valentim expostas no templo madrilenho, mas o curioso é que a urna com os ossos do santo pode ser vista por quem quiser, 24 horas por dia, 365 dias por ano. A igreja de San Antón esteve assim, sempre aberta, a pedido do Papa Francisco, desde 3 de março de 2015. Foi fechada em 10 de março de 2020 e assim permanece, por causa da pandemia da covid-19.

Mas os boêmios e devotos não estão desamparados. Se o rebanho notívago do Padre Ángel já dispunha de wi-fi, contava com sacerdotes de plantão para conferir os sacramentos a qualquer hora e podia recorrer até a um um serviço de confissão por tablet, o novo coronavírus não iria impedi-los de rezar: diariamente, às 19 horas locais (2 da tarde no Brasil), uma missa é transmitida via internet.

No Brasil, ao que tudo indica, o dia dos namorados tem sabor de jabuticaba. Celebra-se em 12 de junho, na conveniente véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro e primeiro dos três santos juninos. Todos os anos, são celebradas missas de hora e hora e a paróquia localizada na região central de São Paulo recebe milhares de fieis em busca dos pães bentos, das bênçãos distribuídas pelos frades e, quem sabe, de um casamento. Também por causa do protocolo de prevenção à covid-19, a Igreja de Santo Antônio do Pari, em São Paulo, permanecerá fechada neste 13 de junho.

Alguns matrimônios terão de ser adiados.

Vai lá:

Casa Toni. Calle de la Cruz, 14, Madri.
El Tigre. Calle de las Infantas, 30, Madri.
Iglesia de San Antón. Calle de la Horlatesa, 63 Madri.
La Bodega Ardosa. Calle de Colón, 13, Madri.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.