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De global pelada na Playboy ao amigo de Che: meus drinques têm histórias

Miguel Icassatti

25/02/2021 04h00

Numa conversa ao telefone com o chef Eduardo Maya no ano passado, possivelmente num período mais restrito imposto pelas autoridades sanitárias para reduzir o contágio de covid-19, ele deu o alerta: "nós não podemos perder a memória do que é um bar, do que é ir a um bar, beber um drinque ao balcão".

A crise decorrente da pandemia já havia causado o fechamento de muitos bares Brasil e mundo afora e a preocupação do meu interlocutor, e grande amigo, era genuína. Edu relatou-me o caso da Inglaterra, cuja cena gastronômica era tida, durante mais de meio século, como sofrível.

Esse cenário foi consequência do período das Primeira e Segunda Guerra Mundiais, uma era de muita carestia no Velho Mundo. Faltava comida, faltava água, os bares e restaurantes foram morrendo. Até que, felizmente, nas últimas duas décadas, o país tornou-se um importante polo gastronômico, com muitos estabelecimentos estrelados. Aquela conversa e uma consulta hoje a uma caixa de fotografias motivada por um trabalho escolar da minha filha me fizeram recordar de passagens em companhia de drinques e histórias.

O gimlet do JR. Duran

Era um fim de tarde em meados de 1999 e minha chefe me chamou à mesa dela: "Miguelito, seguinte: o Duran está fotografando agora a capa da próxima edição da revista no estúdio dele, na Vila Madalena, e preciso que você vá entrevistar a moça, agora. Você terá poucos minutos, num intervalo da sessão de fotos, ou ficaremos na dependência de conseguir um espaço na agenda dela nos próximos dias". A revista era a PLAYBOY, a moça da capa era uma famosa atriz de novelas da Globo, o Duran era o fotografo catalão J.R. Duran. E eu, bem, era um repórter em início de carreira, feliz – e sabia.

Minutos depois, cheguei ao estúdio e lá estava uma equipe do finado programa Vídeo Show, da TV Globo, a registrar imagens para uma espécie de making-of. Era o tal intervalo que eu teria para conversar com a atriz, que estava sendo maquiada no camarim. Fiz as primeiras perguntas e tivemos de dar um tempo para que a moça gravasse mais algumas imagens para a TV.

Fui, então, ao estúdio e comecei a conversar com o Duran, que estava um tanto impaciente com aquela lenga-lenga. Para quebrar o gelo, aproveitei para pedir a ele alguma dica de viagem, comida ou bebida, para eventualmente publicar na revista.

Duran havia acabado de regressar de Los Angeles, onde havia realizado o ensaio com a tal atriz, e me indicou um bar onde tomou um gimlet (acho que era o The Giannini). Ele começou a descrever o drinque – que leva gim e suco de limão –, a relembrar a atmosfera do bar e se empolgou.

Nessa hora, a atriz da capa, a editora de fotografia e a produtora da PLAYBOY retornaram ao estúdio. Ariane, a editora, gentilmente convidou-me a me retirar para que finalizassem as fotos. "Deixa ele ficar aqui, tranquilo", disse o Duran. E, assim, pude acompanhar pela primeira e única vez na minha vida uma sessão de fotos para a capa da revista PLAYBOY.

Uma tarde em Havana, em La Bodeguita: o clássico lar do mojito / Foto: acervo pessoal

O mojito e o amigo do Che

Em outubro de 2003, viajei a Havana para ser o primeiro brasileiro a entrevistar o bioquímico Alberto Granado, amigo de Ernesto Che Guevara, com quem, quando jovem, havia feito uma viagem de moto pela América do Sul, entre o fim de 1951 e o início de 1952. A viagem rendeu o livro "De Moto pela América do Sul", uma coletânea do diário escrito por Che, que foi a base para o filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, a razão para a minha entrevista, que seria publicada pela revista da Mitsubishi.

Foram 11 meses de negociação com Granado, que havia me concedido uma hora de conversa, em que pese o fato de eu ter cinco dias em Havana, já que era mais barato, se bem me lembro, o pacote da passagem aérea Copa Airlines e cinco noites de hotel do que um mero bate-e-volta à terra de Fidel.

Já na casa de Granado, uma da primeiras perguntas que fiz foi sobre futebol – no livro, Che conta que eles assistiram a um jogo do Millionarios, da Colômbia, no qual atuava o craque argentino Alfredo Di Stefano – o que fez com que o gelo fosse quebrado. Ao fim dessa hora de entrevista, Granado disse-me: "vamos continuar amanhã?". Houve o amanhã e o depois de amanhã, num total de 6 horas de entrevista.

No meu tempo livre, passeei por Havana, perambulei por Havana Vieja, recolhi boas histórias e parei para beber um mojito no mítico bar La Bodeguita, frequentado por turistas e, no tempo que lá viveu, como morador do Hotel Ambos Mundos, pelo grande escritor Ernest Hemingway.

Em casa. Jamelão, a moqueca e as caipirinhas feitas por mim / Foto: acervo pessoal

Quatro caipirinhas para Jamelão

Já contei esta história aqui no blog, em 2019, mas vale relembrar: acordei num domingo qualquer com vontade de preparar uma moqueca e resolvi convidar alguns amigos para o almoço. Tinha acabado de voltar do Mercado Municipal com os ingredientes – entre os quais uma quantidade justa, para não dizer modesta, de camarão – quando o Airton, um dos amigos convidados, me ligou para confirmar a presença e perguntou: "posso levar dois amigos?".

Assenti, mesmo sabendo que poderia faltar camarão no prato dos comensais. Tudo bem, pensei, vamos caprichar no pirão e na birita. Eis que os convidados começam a chegar, entre eles o Airton e o tal casal. Quando abro a porta… dou de cara com Airton, a Beth e com José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão! Ele mesmo, o célebre intérprete dos sambas da Mangueira em dezenas de carnavais.

Aos (declarados) 92 anos e amparado por uma bengala, Jamelão foi acomodado logo à ponta da mesa. Ofereci a ele cerveja, uísque e acabei por preparar-lhe, ao longo da tarde, quatro caipirinhas. Pelo jeito, Jamelão aprovou.

Caipirinha de caju com pitanga e de mexerica com pitanga do Totò: falam ao coração / Foto: divulgação

As caipirinhas do Totò e as Marias

Por falar em caipirinha, se tem uma que me transmite os melhores sentimentos é aquela que é feita pelo barman Alfredo Martins no Totò, restaurante italiano no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Aparte a perfeição e o equilíbrio de sabores que Alfredo confere ao drinque, o carinho com quem seleciona, manuseia e corta as frutas, o Totò tem a conveniência de estar instalado a dois quarteirões de distância da Maternidade São Luiz, onde nasceram minhas filhas. Foi ali no balcão do Totò que brindei ao nascimento da mais velha, numa agradável tarde de terça-feira, e aliviei a tensão durante o longo trabalho de parto da caçula, num ensolarado sábado de agosto de 2015.

Quantos dry martini cabem numa garrafa de vermute?

O mesmíssimo endereço na esquina da Alameda Tietê com a Rua Padre João Manuel, nos Jardins, em São Paulo, onde hoje funciona o Cebola Brava, boteco que serve uma feijoada de responsa, abrigou por um breve período, a partir de 2008, um senhor bar: o Dry, onde os barmen Rocha e Kascão serviam impecáveis dry Martini, numa versão em miniatura. O Dry bombava, sob a batuta dos sócios Roberto Suplicy e Germano Fehr, dupla de incomensuráveis serviços prestados à boemia paulistana. Bombava tanto, que a primeira garrafa do vermute Noilly Prat, esvaziou-se em impressionantes quatro meses. Se considerarmos que um dry martini compõe-se de 100 mililitros de gim e três gotas de vermute, foram preparados cerca de 5000 dry Martini no Dry naquele período. E como cheguei a esse número?

Na época editor da VEJA, desci ao ambulatório do edifício da Editora Abril e pedi à enfermeira que introduzisse três gotas de um líquido qualquer em uma seringa de insulina, que tem volume total de 1 mililitro. As três gotas alcançaram 0,15 mililitro, ou seja, cada gota tinha 0,05 mililitro. A partir daí, recorri à matemática: dividi o volume de uma garrafa de Noilly Prat (750 mililitros) pelo volume de uma gota (0,05 mililitro) e cheguei ao resultado de 15000 (gotas por garrafa). Se cada dry Martini leva 3 gotas, dividi 15000 por 3 e cheguei ao número de 5000 drinques por garrafa. O barman Derivan Ferreira de Souza, mestre no preparo do dry Martini, costuma contar essa história nos balcões sobre os quais prepara e serve seus drinques. E lembra da anedota que envolve Harry Craddock, o célebre barman que trabalhou no The Savoy Hotel, em Londres, nos anos 1920. Certa vez, lhe perguntaram: "Por que seus dry Martini são sempre idênticos?". Craddock respondeu: "Porque minha garrafa de vermute é a mesma há vinte anos".

Negroni do Setra, em Braga, Portugal: agradável surpresa / Foto: Miguel Icassatti

O negroni improvável

Braga, no norte português, é uma daquelas cidadezinhass que os turistas, sobretudo brasileiros, costumam visitar em combos naquele esquema bate-e-volta a partir da cidade do Porto, em combos que incluem ainda Guimarães, que é o berço de Portugal. Esse turismo expresso, definitivamente, não faz meu tipo. Gosto de passar ao menos uma noite num destino, para colher diferentes impressões, apreciar o pôr-do-sol, ver como é do despertar dos locais. Em geral, somos premiados com uma conversa ou a descoberta de um lugarzinho especial.

Pois foi o que experimentei em Braga, em novembro de 2019, quando tive duas noites livres em meio a compromissos profissionais entre Lisboa e Porto, de onde parti a bordo de um comboio, digo, trem. Hospedei-me num hotelzinho ao lado da estação ferroviária e fui explorar a cidade, que acolhe muitos jovens, aliás, graças ao campus da Universidade do Minho.

Depois do jantar, caminhando pelas ruas vazias do centro histórico, deparei-me com um prédio de dois andares, cujo hall, de portas abertas à rua, exibia uma sala de estar composta por mobília e TV antigas, além de uma placa indicando que havia um bar no piso superior. E que bar: o Setra era o tipo de lugar que jamais pensei encontrar ali. Um speakeasy, com salão repleto de sofás e poltronas e, num ambiente anexo, jovens se enroscavam e desenrolavam em passos de rockabilly e foxtrote. Era uma aula de dança de salão.

Sentei-me em uma confortável poltrona e pedi um negroni. Impecável, o drinque trazia um toque tostado, graças à laranja chamuscada no maçarico. Um gran finale, pelas mãos do barman Elvis.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.