Boteclando http://boteclando.blogosfera.uol.com.br Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar Sat, 23 May 2020 07:00:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Afinal, o que é “beba com moderação”? http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/afinal-o-que-e-beba-com-moderacao/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/afinal-o-que-e-beba-com-moderacao/#respond Sat, 23 May 2020 07:00:37 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=681

Uma dose de 50 mililitros de conhaque por dia para elas, duas para eles / Foto: Creative Commons

Os exames do check-up naquele mês de outubro do ano da graça de 2013 piscavam para mim em um alarmante tom amarelo: o colesterol mau estava em níveis muito acima do recomendável, o meu índice de massa corporal estava batendo no patamar de sobrepeso e aquelas tonturas que me acometiam eram, segundo o que depreendi da explicação do médico com quem eu me consultava, algo como uma “quase” labirintite.

Saí da consulta com outras duas más notícias – teria de 1. começar a tomar remédios para conter essas tonturas e 2. reduzir alguns itens da minha dieta, em especial carnes, fiambres e pão. Ouvi, no entanto, que eu não precisaria parar de beber; ao contrário, bastava seguir a recomendação de consumir de uma a duas taças de vinho por dia.

“Como é que é, doutor?” Com a boa nova, acho que devo ter saltado da cadeira tão rápido quanto uma rolha escapa ao ser aberta uma garrafa de Champanhe. Segundo o doutor, essa quantidade de consumo de vinho não era contraindicada para mim desde que eu seguisse as demais recomendações: uma imediata readequação alimentar e, o que foi um baita de um presta-atenção, a prescrição do remédio.

Pois bem: dias atrás, a Folha de S. Paulo publicou o editorial “Álcool no isolamento”, em que aponta a migração do consumo de bebidas dos bares para as casas das pessoas em quarentena, a partir de dados segundo os quais as vendas de bebida pela internet haviam crescido 50% entre fevereiro e março. E atribui à Organização Mundial de Saúde (OMS) a recomendação máxima de consumo de até três doses por dia ou sete por semana para mulheres e pessoas com mais de 65 anos; para homens, o limite é de até quatro por dia ou 14 por semana.

O Centers of Disease Control and Prevention (CDC), órgão vinculado ao governo dos Estados Unidos, adverte que para certos tipos de câncer (por exemplo, câncer de mama) e doença hepática, não há um nível seguro conhecido de consumo de álcool. Lembra que esse hábito está associado a vários riscos à saúde e que eles aumentam conforme sobe a quantidade de álcool que você bebe. Mas pondera, no documento “2015-2020 U.S. Dietary Guidelines for Americans”, que, se for para consumir bebida alcoólica, as doses devem ser de um drinque diário para as mulheres e de dois para homens.

Beleza. Mas o que representam essas três doses por dia ou sete por semana indicadas pela OMS às mulheres ou os dois drinques diários tolerados pelo CDC aos homens, quando convertemos em copos de cerveja, taças de vinho, doses de caipirinha?

(É bom dizer que a diferença de quantidade recomendada a homens em mulheres não se deve a, digamos, nenhuma questão de gênero, mas, sim, ao metabolismo.)

Uma discussão a respeito levaria mais tempo do que uma noitada no Filial. A própria OMS afirma, segundo o site do oncologista Drauzio Varella, que “não existe um nível seguro para o consumo de álcool. Claro que há formas de consumo que oferecem menos risco, mas a OMS não estabelece limites específicos, porque a evidência mostra que a situação ideal para a saúde é não consumir nenhuma quantidade de álcool”.

Já um estudo epidemiológico feito na Universidade Harvard, publicado no New England Journal of Medicine, relatou que 84 mil mulheres foram acompanhadas de 1980 a 1994 e aquelas que bebiam moderadamente demonstraram ter um risco de doenças cardiovasculares 40% menor em relação às abstêmias. Outros estudos realizados nos últimos anos sinalizam também para esse caminho de risco baixo aos homens e mulheres que bebem com moderação.

Em seu livro O que Einstein disse a seu cozinheiro – a ciência na cozinha, o professor emérito de química da Universidade de Pittsburgh (EUA) finalmente traduz o que significa “beber com moderação”. Segundo ele, “diversas pesquisas definiram consumo moderado – aquele único drinque por dia para as mulheres – como qualquer coisa entre 12 a 15 gramas de álcool.

Enfim, essa é a quantidade aproximada de uma lata de cerveja Pilsen, de uma generosa taça com 150 mililitros de vinho e de 50 mililitros de um destilado com 40% de teor alcoólico, como uísque, gim ou cachaça.

A HPA, órgão vinculado ao Ministério da Saúde da Nova Zelândia, é clara na ilustração acima. Não mais de 2 doses para mulheres, não mais do que 3 para homens e ao menos 2 dias sem beber a cada semana

Em tempo: meses depois daquela consulta médica, fui dispensado do remédio. E os resultados de meu check-up mais recente, de 2019, estão melhores que os de sete anos atrás. Vou beber duas taças de um vinho tinto português para comemorar. Moderadamente.

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Um século depois, a malfadada volta dos speakeasies raiz http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/19/um-seculo-depois-a-malfadada-volta-dos-speakeasies-raiz/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/19/um-seculo-depois-a-malfadada-volta-dos-speakeasies-raiz/#respond Tue, 19 May 2020 07:00:54 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=674

Speakeasy: cem anos após a lei seca, alguns bares desafiam a lei e o coronavírus nos EUA / Foto: Creative Commons

Independentemente do contexto de cada país em relação às medidas de prevenção e combate e pandemia do covid-19 – refiro-me às quarentenas (caso do Brasil), declaração de estado de emergência (Portugal) e lockdown (Espanha e Itália) – os bares estão entre as categorias de serviços tidas como não essenciais e, portanto, devem figurar entre os últimos segmentos da economia a voltar ao (novo) normal com suas operações.

Em três estados da Alemanha, por exemplo, conforme escrevi em post duas semanas atrás, os estabelecimentos foram reabertos, mas com capacidade limitada. Aqui em São Paulo, bares vêm atendendo em sistema de delivery ou para retirada e, é bem verdade, alguns vêm dando o seu jeitinho, irresponsável, diga-se, de servir uma cerveja à janela ou sobre aquelas mesas com as quais bloqueiam a entrada de possíveis fregueses.

Um amigo me conta que a irmã que vive em Morbihan, na região francesa da Bretanha, contou-he que alguns botecos locais vêm trabalhando de forma clandestina, à meia-porta, no melhor estilo speakeasy. E nos Estados Unidos, segundo reportagem de quinta passada do jornal britânico Daily Mail, com informações do The New York Post, esse estilo de bar, por assim dizer, renasceu depois de um século, como um efeito colateral das determinações de combate ao novo coronavírus.

Não me refiro aqui aos speakeasy nutella, esses que emulam os originais, quer seja por sua fachada discreta, quer seja por serem acessíveis apenas a poucos e, hum, bons cujos nomes constam nas listas VIP controladas por hostesses à porta desses endereços. Mas, sim, a algo mais próximo, ao menos no que se refere à aura, daqueles que surgiram durante o período da Prohibition, a Lei Seca americana, que perdurou entre 1920 e 1933 e tornou ilegal a fabricação, o transporte e a venda de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos.

Para atender ao público que queria continuar bebendo, mesmo que desafiando essa que foi a 18ª emenda à constituição do país, muitos bares e boates clandestinos apareceram, de costa a costa. A expressão speakeasy é atribuída ao fato de que esses bares eram conhecidos na base da propaganda boca-a-boca, e também porque os clientes tinham de sussurrar seus nomes, ou alguma senha, para terem a entrada liberada nesses locais. Esses bares ocupavam porões ou endereços escuros, quase disfarçados, que não chamavam atenção. Mas a New York National Historical Society estima em 100.000 o número de speakeasies em operação no fim da década de 1920.

Green Mill, em Chicago: o speakeasy preferido de Al Capone / Foto: facebook Green Mill

Muitos deles foram geridos ou frequentados por gângsteres envolvidos com a indústria ilegal de bebida alcoólica – Al Capone, apenas para ficarmos no mais notório fora-da-lei de então, era habituê do Green Mill, em Chicago, que conheci em 2011 e contei aqui.

De volta à reportagem do Mail, corre à boca pequena que em Nova York ao menos quatro bares têm funcionado ilegalmente, apesar da ordem de fechamento expedida em março pelo governador Andrew Cuomo.

Um deles seria um famoso bar em Upper East Side; o segundo, um lounge; o terceiro é um “moderno hotel “ que abriu as portas para servir bebida aos amigos do dono – a reportagem chegou a telefonar a uma fonte que havia estado lá na terça-feira passada, que se mostrou surpresa com a descoberta, mas entregou: o bar do tal hotel foi mesmo aberto para mais de um evento secreto; e o quarto corona-speakeasy seria um badalado bar na Broome St., no Lower East Side, frequentado por nomes como Spike Lee e Donald Trump 02, digo, Jr.

O Miami II Sports Cafe, no Brooklyn: multa e dono preso / Foto: Google Street Viewhi

No dia 30 de março, após ter flagrado doze pessoas bebendo e jogando no Miami II Sport Cafe, no Brooklyn, a polícia novaioquina prendeu Vasil Pando, dono da baiuca, sob a acusação de venda ilegal de álcool, violação da ordem do bloqueio e promoção de jogos de azar. Se condenado, poderá ter de pagar até 10.000 dólares de fiança.

Perdeu, Pando.

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Nos bares que amo, como seria meu primeiro trago pós-quarentena http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/11/nos-bares-que-amo-como-seria-meu-primeiro-trago-pos-quarentena/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/11/nos-bares-que-amo-como-seria-meu-primeiro-trago-pos-quarentena/#respond Mon, 11 May 2020 19:11:03 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=667

Blue Bar, no The Algonquin: será em Nova York / Foto: divulgação

Será debaixo de um guarda-sol, no terraço do Bar do Luiz Fernandes numa tarde calorenta de sábado, daquelas que a gente não quer que acabe nunca, chamando uma gelada e um bolinho de carne.

A primeira vez será numa mesa à janela no Café Lezama, em Buenos Aires, depois de uma caminhada dominical pela feirinha de Santelmo.

Será quente, debaixo do cobertor, tomando um choconhaque naquele barzinho, perdão, esqueci o nome, em Visconde de Mauá, escutando o cricrilar dos grilos.

Terá o déjà vu de um fim de noite do fim dos anos 1970 ou começo dos 80, empunhando um copo de Manhattan e beliscando os bicos de uns pasteizinhos, num canto do balcão do Rodeio, que o célebre maître Ramon definiu como “um lugar que se atende aos cinco sentidos, do paladar ao tato, com o aperto de mãos, de visão de gente bonita e alegre à audição de coisas agradáveis, passando pelo perfume da boa comida”.

A primeira vez será com um copo de Duckstein – no centenário Café Paris, em Hamburgo – levemente resfriada, com aquele vermelho translúcido e colarinho branco, servida pela garçonete de olhos grandes, rosto branquelo, rabo de cavalo e uma intrigante pedrinha brilhante colada no canino esquerdo.

De ladinho, será na banqueta ao balcão do Bar da Lôra, no Mercado Central de Beagá, com a turistada toda a testemunhar aquela beleza de jiló com linguicinha.

Será uma viagem: numa noite, com o cosmopolitan do Blue Bar do hotel The Algonquin, em Nova York; na seguinte, com o bloody mary do Harry’s Bar parisiense.

Ou a bordo de uma movida madalena, regada a um gim tônica no Astor, seguido de um caldinho no São Cristóvão, três ou quatro caldeiretas de chope no Filial e a conta, por favor.

Será numa noite chuvosa e fria com una copa de vino na madrilenha La Bodega Ardosa.

Bodega La Ardosa, em Madri / Foto: Miguel Icassatti

Terá cheiro de maresia e brisa fresca do Gonzaga, na inigualável varanda do Heinz.

A primeira vez não poderá ser com o caju amigo do Pandoro, com o psicodélico do Lírico nem com o bullshot do Bistrô, que Deus os tenha.

Mas, ao som de Led, Stones e Queen, será no sábado-sem-lei do Bar do Joe em Garibaldi.

Por que não seria com as mãos lambuzadas do caldinho morno a escapar do meio do sanduíche de pernil com queijo de ovelha da Casa Guedes, no Porto?

Ou, então, solitária, num dos sofás do Setra, em Braga, desde que a bebericar o negroni perfeito.

Ou, em pleno centro histórico parmigiano, merecerá um brinde com o melhor Chianti Classico disponível na carta da providencial Osteria Dello Zingaro.

Será à la Hemingway, com umas cervejas na Brasserie Lipp seguidas de um pernod no Café de Flore ou, um pouco mais à esquerda, em Havana Vieja, com mi mojito (e moros con cristianos) en La Bodeguita e mi daiquiri en la Floridita.

Será rapidinha, com o tempo de um trago de Canarinha mais um torresmo no Valadares.

Ou despreocupada e molenga na mureta do Bar Urca, no primeiro fim de tarde com pôr-do-sol depois que tudo isso passar.

Ao som de John Coltrane ou Duke Ellington, será no balcão do Piratininga a primeira vez.

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Futurologia: 13 novidades que veremos quando voltarmos a beber no boteco http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/01/futurologia-13-novidades-que-veremos-quando-voltarmos-a-beber-no-boteco/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/05/01/futurologia-13-novidades-que-veremos-quando-voltarmos-a-beber-no-boteco/#respond Fri, 01 May 2020 15:09:09 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=654

Alguns países já estão anunciando planos de retomada, com abertura de bares com cuidados especiais (Fotos: Michele Lapini/Getty Images)

A esta altura do campeonato, digo, da quarentena ainda é impossível cravar a data em que voltaremos a pisar no boteco, no pub, na padoca e chamar uma gelada, conforme tantas vezes fiz no balcão do Bar do Luiz Fernandes, no Bar do Magrão ou no Bar do Vito, entre os outros botecaços apresentados na série Comendo pelas Beiradas, aqui do NOSSA.

Ao menos em São Paulo, esse pequeno prazer deve demorar um bocado, afinal, somos incapazes de cumprir as regras de isolamento social para impedir o contágio do COVID-19 – o governo do estado informou, ontem, que a média está em 48%, muito aquém da meta de 70%, que seria a base para afrouxar as restrições de funcionamento do comércio e do setor de serviços.

A boa notícia, ao menos para os boêmios do Velho Mundo, é que alguns países já estão anunciando planos de retomada, que preveem a reabertura de bares e restaurantes nas próximas semanas. Os alemães, por exemplo, montaram um plano em três fases. Os estados da Baixa Saxônia, Boden Wurttemberg e Nordrhein-Westphalen, que recebem muitos turistas no verão, prevê que bares, restaurantes e biergartens reabram já em 11 de maio, com capacidade limitada.

Mesas separadas por vidro: tendência nos bares e restaurantes? / Foto: reprodução

Portugal publicou hoje um “plano de desconfinamento”, segundo o qual bares, restaurantes e “pastelarias” (os cafés, casas de doces) reabrirão em 18 de maio, com limite de atendimento a 50% da capacidade. Em Hong Kong, bares estão funcionando, também a meia-capacidade, e com mesas para não mais do que quatro pessoas.

No Reino Unido, de acordo com a edição de ontem do The Times, o primeiro-ministro Boris Johnson deve anunciar nos próximos dias um plano em que estuda limitar o consumo de três drinques nos pubs, com regras de distanciamento social. Também ontem, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou um plano de retomada para o país, escalonado em quatro fases, em que cada uma delas terá a duração de duas semanas. Bares e restaurantes devem reabrir em 26 de maio, para serviço de mesa, com limitação de lotação.

Aqui no Brasil, na terça-feira, 27 de abril, a Abrasel (Associação de Brasileira de Bares e Restaurantes) publicou a cartilha “Como retomar as atividades – recomendações e cuidados para uma reabertura de bares e restaurantes diante da crise”, com orientações tanto para os gestores dos estabelecimentos quanto para o público, ou seja, nós. O acesso a esse documento pode ser feito aqui.

Saber como serão os bares num futuro próximo é um exercício de futurologia a la Jetson. (Foto: Warner Bros./Courtesy of Getty Images

Com base no cenário de hoje, e invocando a bênção de Willian Hanna e Joseph Barbera, que em 1962 imaginaram um século 21 à la The Jetsons – que, aliás, foi a primeira série de TV a ser transmitida em cores, pela ABC, nos Estados Unidos – o blog arrisca aqui um exercício de futurologia, com as novidades que veremos nos bares mundo afora daqui a pouco quando, Deus queira, tudo volte ao normal. Ou não.

  1. Junto com os engradados de cerveja, os caminhões de bebidas descarregarão engradados de álcool gel.
  1. Em cima da mesa, o frasco de álcool gel dividirá espaço com o paliteiro, os guardanapos e o galheteiro.
  1. Banheiros passarão a ter acesso individual. Numa parede do salão, um painel luminoso avisará quando estiver livre (luz verde) ou ocupado (luz vermelha), assim como ocorre nos aviões.
  1. Será o fim dos cardápios impressos: vamos receber o menu pelo what’s app ou por meio de QR code. O pedido vai direto para a cozinha. O garçom vira um tira-dúvidas e, claro, traz o pedido à mesa.
  1. Garçom, cozinheiro, caixa: todo mundo vai passar a usar aquelas máscaras plásticas com visor.
  1. Os pagamentos, por sua vez, serão cada vez mais digitais, por aplicativo ou QR Code.
  1. Saem as perguntas “com ou sem colarinho?” e “com gelo e limão?” e entra a nova: “máscara acompanha?”.
  1. As mesas da calçada, aliás, e as das áreas ao ar livre serão ainda mais disputadas pela freguesia.

Balcões do Museo Veronica, em São Paulo: nunca mais serão os mesmos / Foto: Miguel Icassatti

  1. O balcão, esse lugar sagrado de conversa e reflexão, ficará parecido com a área de caixas das agências bancárias. Estaremos separados do barman e dos vizinhos por placas de vidro ou de acrílico. Do lado de lá do balcão, o barman nos passará a bebida por um buraco ou uma boqueta semelhante àquela pela qual a cozinha solta os pedidos.
  1. É o fim da mania brasileira de fazer um puxadinho nas mesas; e nunca mais teremos amigo secreto ou comemorações com muita gente no bar – ou as mesas passarão a ser divididas por placas de vidro ou acrílico, conforme vimos naquele meme que circulou semanas atrás. Pelos menos os contatos por baixo da mesa poderão ser mantidos…
  1. As mesas ficarão mais distantes umas das outras – distância, aliás, prevista em lei: 2 metros uma da outra, com cadeiras distantes 1 metro umas das outras. Bistrôs parisienses é que sofrerão.
  1. Teremos cronômetro na mesa, que vai marcar o tempo regulamentar em que poderemos ficar no bar antes de darmos nosso lugar ao próximo freguês. O que nos obrigará a adotar uma bem-vinda mudança de hábitos…
  1. … Frequentaremos mais de um bar por noite – enfim, uma boa novidade.
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Boemia na telona – Parte II: o cinema e 12 bares inesquecíveis http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/27/boemia-na-telona-parte-ii-o-cinema-e-12-bares-inesqueciveis/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/27/boemia-na-telona-parte-ii-o-cinema-e-12-bares-inesqueciveis/#respond Mon, 27 Apr 2020 17:16:38 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=631

Rick’s Café: no clássico Casablanca / Fotos: reprodução e divulgação

O mocinho desce de seu cavalo e prende o animal a um poste. Ajeita o chapéu, caminha a passos lentos e firmes, sobe o degrau, empurra a porta vaivém e adentra ao salão. Um segundo de tensão toma conta do ambiente enquanto ele chega ao balcão e pede uma dose de uísque. Sentado ao fundo, o vilão se levanta rapidamente e empunha a espingarda. É inútil. Do balcão, nosso herói saca do coldre sua pistola e acerta em cheio o adversário, que cai sobre a mesa, derrubando a garrafa de Bourbon.

Durante a era de ouro dos filmes de faroeste, nos anos 1950 e 1960, uma cena como essa era um clichê ao qual Sergio Leone, John Sturges e John Ford, entre outros diretores, não fugiam. A pena é que esses bares do Velho Oeste eram identificados apenas como “Saloon”.

Felizmente, em diversos outros gêneros de filmes, da ficção científica à animação, os estúdios de Hollywood e mesmo as produções, por assim dizer, independentes inseriram bares marcantes em suas histórias. O blog selecionou alguns deles, embora a lista seja enorme, com os fictícios e os de verdade, que poderão ser visitados pelos leitores assim que a pandemia der uma trégua, por que não?

Rick’s Café, de Casablanca (1942)

Rick’s Café, em Casablanca: inaugurado em 1998

Vencedor de três Oscar – filme, direção e roteiro adaptado – Casablanca (1942) é um dos maiores clássicos do cinema, estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Muitas cenas dessa trama que tem como pano de fundo a Segunda Guerra ocorreram no Rick’s Café, um bar em Casablanca frequentado por estrangeiros. Embora o bar fosse construído em estúdio, em 1998 a cidade marroquina ganhou uma versão real. Uma empresária americana aproveitou-se do fato de que muitos turistas chegavam a Casablanca e não encontravam referencias ao filme, para abrir o bar em um palacete local fronteiriço com a medina. A decoração relembra fielmente o bar do filme e no cardápio constam drinques clássicos como o apricot velvet, feito com champanhe e damasco.
Rick’s Café. 248 Boulevard Sour Jdid, Place du Jardin Public, Anciènne Médina, Casablanca, Marrocos.

Korova Milkbar, de Laranja Mecânica (1971)

Korova Milk: um bar disruptivo de Kubrick

Da mente disruptiva do diretor Stanley Kubrick só poderia mesmo sair um bar como o marcante Korova, onde o protagonista Alex, acompanhado de sua gangue, enchia a cara de moloko e toda sorte de Korova Plus, misturas de leite com drogas diversas, antes de sair para as noitadas violentas. O bar, que aparece já na cena de abertura, era decorado com mesas em forma de mulheres, em posição de quatro apoios, nuas, com cabelos coloridos e de cujos seios saía leite. Nas paredes é possível ver o nome dos drinques servidos ali, como o moloko e o vellocet.

The Gold Room, de O Iluminado (1980)

O Iluminado: Jack Nicholson no Gold Room

Também dirigido por Stanley Kubrick, O Iluminado é um clássico de terror-psicológico e traz Jach Nicholson em mais uma de suas interpretações marcantes. Seu personagem, Jack Torrance, é um escritor em fase de bloqueio criativo, que se muda com a família para trabalhar como caseiro do Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado, durante todo o inverno. Seu filho, Danny, passa a ter visões e o filme se desenrola enquanto Jack fica cada vez mais perturbado. Uma das grandes passagens acontece no bar The Gold Room, com o diálogo de Jack e o barman. O hotel, na realidade, é o The Stanley, que cobra diárias a partir de 299 dólares. E o bar chama-se Cascades.
Cascades Restaurant, The Stanley Hotel. 333 Wonderview Avenue Estes Park, Colorado.

O Cascades hoje: no The Stanley, o hotel de O Iluminado

 

Cocktails & Dreams, de Cocktail (1988)

Cocktais & Dreams: Framboesa de Ouro para o filme

Tom Cruise já era um dos maiores galãs do cinema, graças ao sucesso de Top Gun, quando topou fazer esse filme que foi laureado com os troféus Framboesa de Ouro de pior filme e pior roteiro. Como protagonista, era um barman aprendiz do bombado Cocktails & Dreams. De fato, a história é ruim, mas deu visibilidade ao estilo “flair” de coquetelaria, aquele em que os bartenders fazem acrobacias com as garrafas e coqueteleiras durante o preparo dos drinques (ah, os anos 1980…). O Cocktails & Dreams do filme era ficção mas Cruise tomou aulas de coquetelaria na finada casa novaiorquina John Clancy’s Seafood Restaurant.

 

Moe’s Tavern, de Os Simpsons (1989)

Moe’s Tavern, em Orlando: reprodução fiel da animação

O boteco frequentado por Homer Simpson em Springfield existe e fica, na verdade, dentro do complexo de parques da Universal em Orlando, Flórida – embora existam homônimos espalhados pelo território estadunidense, de Iowa a Rhode Island. Pudera, Moe’s Tavern equivaleria ao nosso onipresente Bar do Zé. A reprodução fiel do bar que aparece tanto no longa-metragem quanto nos episódios da série inclui até a cerveja Duff.
Moe’s Tavern. World Expo, Orlando.

 

The Copacabana, de Os Bons Companheiros (1990)

The Copacabana: em novo endereço novaiorquino

Filmes de gângster esbanjam em cenas em que bandidos e mocinhos aparecem em bares e restaurantes glamorosos. Com este já clássico de Martin Scorcese, indicado a seis Oscar, não foi diferente. No caso, trata-se do Copacabana Bar, casa que de fato fez fama em Nova York. Foi inaugurada em 1940 e existiu até 1992 na 60th Street, endereço que serviu de locação para o filme. O plano-sequência que mostra a primeira vez em que o personagem de Ray Liotta leva Lorraine Bracco para jantar ali é memorável. Mostra a fachada, os bastidores até a triunfal chegada ao salão. Hoje o Copacabana fica nos arredores da Tomes Square.
The Copacabana. 268, 47th Street, 8th Avenue, Nova York.

 

Titty Twister, de Um Drink no Inferno (1996)

Titty Twister: no lado mexicano da fronteira

Violência pouca é bobagem neste policial dirigido por Robert Rodriguez, cujo roteiro foi escrito por Quentin Tarantino. Tarantino também interpreta um dos irmãos protagonistas da trama – o outro é George Clooney – que, juntos sequestram um pastor e sua família no sul dos Estados Unidos. Em fuga, cruzam a fronteira com o México e logo param num bar-boate de beira de estrada, o Titty Twister. Nesse lugar surreal, eles verão que os frequentadores são vampiros.

 

Coyote Ugly, de Show Bar (2000)

Coyote Ugly: depois do filem, bar se tornou uma bem-sucedida franquia

Coyote Ugly é um bar fundado em 1993 na cidade de Nova York e que depois do filme – cujo nome original é, justamente, Coyote Ugly – ganhou treze filiais nos Estados Unidos, além de unidades em outros seis países. No cinema, é o bar da cidade grande ao qual a protagonista Violet (Piper Perabo) chega, vinda de sua cidadezinha natal, em busca do sonho de se tornar compositora. Antes de alcançar seu objetivo, porém, ela tem de trabalhar como bartender na casa, onde passa a faturar um bom punhado de dólares com gorjetas ao dançar ao lado das outras bartenders sobre o balcão.
Coyote Ugly. 135 First Avenue, Nova York.

 

New York Bar, de Encontros e Desencontros (2003)

New York Bar: vista arrebatadora de Tóquio

O maravilhoso piano-bar na cobertura do Park Hyatt Hotel de Tóquio, do qual tem-se uma vista panorâmica da cidade, marca o encontro dos personagens Bob Harris e Charlotte, respectivamente interpretados por Bill Murray e Scarlett Johansson. Ele, um ator, está na cidade para gravar o comercial de uma marca de uísque, enquanto a garota, que está no Japão acompanhando o namorado, um fotógrafo, passa muito tempo sozinha. Insones graças à mudança de fuso horário, eles engatam uma complexa história na qual o bar acaba por ter um papel decisivo.
New York Bar, Park Hyatt Hotel. 3-7-1-2, Nishishinjuku, Tóquio.

 

The Dubliner e Nye’s Polonaise, em Factotum (2005)

The Dubliner: pub ao estilo de Bukowski

Baseado na obra do escritor Charles Bukowski, Factotum tem como protagonista o personagem Henry Chinaski, o alter-ego do autor, interpretado por Matt Dillon. Morto em 1994, Bukowski tinha uma literatura crua e raivosa, biográfica. Beberrão que foi, levou aos livros muitas histórias em bares ordinários, sobretudo na Califórnia. O filme, porém, foi rodado em St. Paul e Minneapolis, no estado americano de Minnesota. Ao longo da película, dois bares se destacam: o pub The Dubliner, onde Chinaski encontra-se com Jan (Lili Taylor), e o Nye’s Polonaise, um bar especializado em coquetéis, hoje fechado, que chegou a ser eleito em 2006 pela revista Esquire como o melhor bar dos Estados Unidos.
The Dubliner. 2162 University Avenue West, St. Paul, Minnesota.

 

Polidor, de Meia-noite em Paris (2011)

Polidor, em Paris: endereço centenário recebeu Hemingway e outros escritores

Na fase em que trocou Nova York por outras cidades como pano de fundo de seus filmes, Woody Allen fez pequenas obras-primas, como Match Point (2005), rodado em Londres; Vicky Cristina Barcelona (2008), na Espanha; Para Roma com Amor (2012), na Itália; e Meia-noite em Paris. Nesse último, Allen viaja à mítica capital francesa dos anos 1920, com seus personagens não menos simbólicos, entre os quais o escritor Ernest Hemingay, autor, aliás, do póstumo Paris É uma Festa, sobre o qual falamos aqui. Gil Pender, o protagonista interpretado por Owen Wilson, encontra-se justamente com Hemingway, num efervescente Le Polidor. A casa existe pelo menos desde o século 19 e está localizada a um quarteirão do Boulevard Saint Michel e dos Jardins de Luxemburgo.
Polidor. 41 Rue Monsieur Le Prince, 5o Arr., Paris.

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Boemia na telona – parte I: 6 filmes brasileiros e seus bares inesquecíveis http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/20/boemia-na-telona-parte-i-6-filmes-brasileiros-e-seus-bares-inesqueciveis/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/20/boemia-na-telona-parte-i-6-filmes-brasileiros-e-seus-bares-inesqueciveis/#respond Mon, 20 Apr 2020 21:41:48 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=614

Bar Esperança: boemia carioca e prêmios no Festival de Gramado / Fotos: reprodução

De Stanley Kubrick a Ugo Giorgetti, de Woody Allen a Carlos Reichenbach, muitos cineastas dirigiram cenas memoráveis de seus filmes em bares e botecos mundo afora. Às telas, eles levaram bares de verdade, serviram-se de outros apenas como locação, sem revelar o nome, e criaram ainda os botecos cenográficos que, em alguns casos, até que mereciam realmente existir. O blog reuniu quase duas dezenas de exemplos, tanto nos filmes nacionais quanto nos estrangeiros, e apresenta aqui em dois episódios, ops!, posts.

Vencedor dos prêmios de melhor roteiro, melhor atriz (Marília Pêra) e melhor atriz coadjuvante (Silvia Bandeira) no Festival de Gramado, Bar Esperança, o Último que Fecha (1983) foi escrito e dirigido por Hugo Carvana, que também atuou na película. Mais do que uma locação, o fictício Bar Esperança – que, a bem da verdade, faz lembrar a atmosfera do Jobi e do Bracarense, entre outros botecos cariocas –era um ponto de encontro de boêmios, artistas e intelectuais localizado no bairro de Ipanema, Rio de Janeiro. Prestes a fechar as portas, para dar lugar à construção de um prédio, foi palco de brigas de casal, noites festivas e diálogos engraçados entre os fregueses. Na época de seu lançamento, foi inevitável a analogia política entre o nome do bar, e o próprio decorrer do filme, com o período ditatorial pelo qual o Brasil vivia. Revê-lo é algo que nos faz comparar com o Brasil de hoje.

Também filmado na Zona Sul do Rio de Janeiro, mas em Copacabana, Fulaninha (1986) tem muitas, e impagáveis, cenas rodadas no Bar do Camarão. No filme de David Neves, esse típico boteco carioca reunia um grupo de amigos de meia-idade que praticavam a mais pura filosofia de bar, em meio a doses de uísque e bolinhos de bacalhau. Um desses personagens, o cineasta Bruno (Claudio Marzo), se encanta por uma adolescente que passa diariamente pela porta do bar, a tal Fulaninha (Mariana de Moraes). A música-tema do filme é de Paulinho da Viola.

Alma Corsária: A Pastelaria Espiritual é cenário marcante

O cineasta Carlos Reichenbach conseguir reproduzir em Alma Corsária (1993), vencedor de melhor filme do Prêmio APCA, um autêntico boteco pé-sujo do centro de São Paulo. Por trás da fachada na qual se destaca o letreiro em neon, a Pastelaria Espiritual, em destaque nos dez primeiros minutos do filme, exibe um indefectível balcão de fórmica azul-calcinha e branco, garrafas enfileiradas junto à parede, banquetas com assento de plástico, aqueles imensos coadores de café com a carcaça cromada, mesa de bilhar, paredes de azulejo branco e piso de ladrilho hidráulico. China, o anfitrião, serve pastel frito na hora e cachaça em dose.

Bar do Aurélio, de Boleiros: alusão ao saudoso Bar do Elias

Já o Bar do Aurélio de Boleiros – Era Uma Vez o Futebol (1998 e 2006) é claramente inspirado no saudoso Bar do Elias, boteco paulistano que era localizado em frente ao estádio do Palmeiras e, obviamente, um reduto de torcedores alviverdes. O diretor Ugo Giorgetti reuniu um elenco formado por nomes como Flavio Migliaccio, Cassio Gabus Mendes, Lima Duarte, Sócrates, o narrador Silvio Luiz e Denise Fraga, entre outros, para contar as memórias dos personagens, sempre ligadas ao futebol, é claro – em tempos de quarentena, eis aqui uma boa pedida para os carentes de boteco e futebol…

Boteco do Zulmiro: ficção no centro de Curitiba

Rodado em Curitiba, Estômago (2007), de Marcos Jorge, mostra logo nas primeiras cenas o personagem Raimundo Nonato (João Miguel) começa fritando coxinhas no Boteco do Zulmiro. Esse bar, na verdade, era o finado Bar do Catarina, localizado na Rua Saldanha Marinho, no centro da capital paranaense. Fundado em 1930, o Bar Palácio também serviu de locação para o filme, mas com o nome de restaurante Boccaccio, de cozinha italiana.

Bar Harmonia, de E aí, comeu?: um boteco imaginário que poderia ser real

Até mesmo a onda dos botecos-chiques, aqueles que apostam num ambiente retrô, em homenagem aos bares cariocas dos anos 1950, tem seu representante no cinema nacional. Trata-se do Bar Harmonia, ponto focal da comédia E aí, comeu? (2012). Dirigido por Felipe Joffily e adaptado da peça de teatro homônima escrita por Marcelo Rubens Paiva, o título tem muitas cenas filmadas ao redor de uma mesa do boteco, onde se reúne o trio de personagens interpretados por Bruno Mazzeo, Emilio Orciollo e Marcos Palmeira. Embora esse seja um bar fictício, há uma das cenas mais lembradas do filme, aquela em que os personagens de Marcos Palmeira e Dira Paes abrem um espumante na cinematográfica mureta em frente ao Bar Urca, que fica no bairro de mesmo nome.

No post seguinte, segue uma lista de 10 (ou mais) filmes e seus bares maravilhosos.

Corta!

 

 

 

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Um drinque com Hemingway, Joyce e Sábato: 6 bares eternizados nos livros http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/10/um-drinque-com-hemingway-joyce-e-sabato-6-bares-eternizados-nos-livros/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/10/um-drinque-com-hemingway-joyce-e-sabato-6-bares-eternizados-nos-livros/#respond Fri, 10 Apr 2020 20:24:51 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=605

O’Neill’s, em Dublin: presente na obra de Joyce / Foto: reprodução site oficial

É difícil não chegar à conclusão de que ninguém neste planeta ora recluso tenha estado em tantos bares ao redor do mundo quanto Ernest Hemingway: de Paris a Havana, de Pamplona a Key West, ele bebeu de tudo, acomodado em inúmeros balcões.

Ao lermos os romances clássicos do grande escritor americano, nos damos conta que o universo dos bares – no qual incluo a descrição do cenário, os barmen, a comida e os drinques – é componente imprescindível na composição de cada obra. Tanto é que essa conexão já foi ricamente analisada, como fez Philip Greene no bom livro To Have and Have Another: A Hemingway Cocktail Companion, sem tradução para o português, que reúne as receitas de dezenas de coquetéis citados nos livros do autor de O Velho e o Mar.

Além de Hemingway, outros escritores transportaram os bares, tanto os reais quanto os imaginários, para as páginas de seus livros.

Por sorte, já pude conhecer in loco alguns deles, a começar pelo Bar Británico, no bairro de Santelmo, em Buenos Aires. Já falei sobre esse lugar em outro post. Era frequentado por Ernesto Sábato, que não apenas escreveu muitas páginas de sua obra-prima Sobre Heróis e Tumbas ali, sentado em uma mesa à janela, como aludiu ao bar em trechos da história de amor de Martín por Alejandra:

“Parecia um símbolo: aquele bar era o primeiro em que havia conhecido a felicidade. Nos momentos mais deprimentes de suas relações com Alejandra sempre vinha ao espírito de Martin a recordação daquele entardecer (…)”

Británico: bar histórico em Buenos Aires / Foto: Miguel Icassatti

Em Dublin, a capital irlandesa, “pubs são uma importante parte da cultura. O pub irlandês encantou muitos dos nossos grandes escritores. James Joyce, Samuel Beckett, Oscar Wilde e Brendan Behan escreveram histórias em que o centro foi o pub”, afirma um texto de apresentação no site do O’Neill’s Pub & Kitchen, cuja história remonta a mais de 300 anos.

Não posso garantir, mas tudo indica que o O’Neill’s citado no conto Counterparts, da coletânea Dubliners (Penguin Popular Classics), seja este que ocupa o número 2 da Suffolk Street, no centro de Dublin:

“(…) He was now safe in the dark snug of O’Neill’s, and, filling up the little window that looked into the bar with his inflamed face, the colour of dark wine or dark meat, he called out:

‘Here, Pat, give us a g.p.’, like a good fellow.

The curate brought him a glass of plain porter. (…)”

“(…) Agora ele estava seguro no aconchegante e escuro O’Neill’s e, colando à pequena janela que dava para o bar o rosto tão vermelho quanto um vinho tinto ou uma carne crua escura, ele gritou, como um bom sujeito:

‘Aqui, Pat, dê-nos um g.p.’.

E o barman trouxe-lhe um copo de cerveja Porter. (…)”

O O’Neill’s: um bar para ‘good fellows’

Lançado em 2005, The Tender Bar traz as memórias do autor, o premiado jornalista , J. R. Moeringer, que ganhou o Pulitzer em 2000, por uma reportagem sobre uma comunidade de ex-escravos americanos. O livro, que ficou mais de um ano na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, foi traduzido no Brasil em 2007, com o nome de Bar Doce Bar – As memórias de um menino adotado pelo bar da esquina (Nova Fronteira).

O tal bar da esquina era o Dickens, aberto em 1948, e, enquanto descreve cenas vividas e observadas ali nos anos 1970 e 80, Moeringer relata suas recordações. E afirma a importância daquele bar na sua formação como homem:

“Sendo apenas uma criança, abandonado pelo meu pai, eu precisava de uma família, um lar e homens. Especialmente homens. Precisava de homens como mentores, heróis, modelos de comportamento, e como uma espécie de contrapeso masculino para minha mãe, minha avó, minha tia e as cinco primas com quem vivia. O bar me oferecia todos os homens de que eu precisava, exceto por um ou dois, que eram a última coisa de que eu precisava.”

Como muitos bares de esquina mundo afora, o Dickens passou por altos e baixos, fechou e reabriu com outro nome, Publicans, em 1977, e com mais outro, Edison’s , de 1999 a 2016. Voltou a ser Publicans em 2017.

Publicans: no passado, um bar doce bar / Foto: reprodução Facebook

De volta a Hemingway, por infindável que seja o rol de bares descritos em sua obra, recorri aleatoriamente a alguns citados em livros aqui da minha estante, e sem a certeza de que sejam reais, até por que, conforme o próprio autor adverte em uma nota do romance Ter e Não Ter (Civilização Brasileira), de 1937: “Tendo em conta a tendência corrente de identificar personagens de ficção com pessoas reais, é oportuno declarar que não há pessoas reais neste livro”.

Nesse livro, já na quinta linha ele menciona um certo Pérola de São Francisco, no centro velho de Havana, em Cuba; três páginas adiante descreve um tiroteio no bar Cunard, também na zona portuária de Habana Vieja; e quase 200 páginas adiante detalha uma baita confusão no Freddy’s, já em Key West, Flórida.

O Freddy´s, na realidade, seria o icônico Sloppy Joe’s, que se autodeclara o bar predileto de Hemingway. É lá que, todos os anos, ocorre o concurso de sósias do escritor.

Em O Sol Também de Levanta, de 1926, Hemingway passeia por bares luxuosos – como o Café Napolitain e o bar do mítico Hotel Crillon, em Paris – e vai aos mais mundanos, caso de uma taverna ordinária em Pamplona, Espanha:

“Ficamos em pé ao balcão. Fizeram Brett sentar-se sobre um tonel. A taverna era sombria e estava cheia de homens cantando com voz rude. Atrás do balcão tirava-se vinho dos tonéis.”

Sloppy Joe’s: segunda casa de Hemingway / Foto: reprodução Facebook

O histórico imóvel onde está instalado o Hotel Crillon em Paris foi construído a pedido do rei Luís XV, em 1758, para ser sede de órgãos do governo francês. Atualmente sob a posse da família real saudita, o exclusivo hotel foi reformado e reaberto em 2017. Seu bar, o Les Ambassadeurs, tem uma extensa carta de vinhos, com 600 rótulos. Mas em O Sol Também se Levanta, o protagonista Jack Barnes bebe outra coisa ali:

“Às cinco horas eu esperava Brett no Hotel Crillon. (…) Brett não chegou e faltando um quarto para as seis desci ao bar e tomei um Jack Rose com George, o barman.”

Jack Rose é um drinque feito basicamente com brandy de maçã, suco de limão siciliano e xarope de romã.

Les Ambassadeurs: vinhoe jack rose / Foto: divulgação

E seria impossível falar de Paris e de Ernest Hemingway sem mencionar o póstumo Paris É uma Festa, que o escritor revisava quando se suicidou, em 1961. Nesse apanhado de histórias de sua juventude na capital da França dos anos 1920, aparecem endereços como o Closerie des Lilas, o Les Deux Magots, o Dingo, na Rue Delambre, e a Brasserie Lipp, na qual Hemingway ocupa três parágrafos da página 87 para relembrar uma refeição:

“Havia poucas pessoas na brasserie e, quando me sentei no banco junto à parede, com o espelho atrás de mim e uma mesa em frente, e o garçom perguntou se queria cerveja, pedi logo um distingué, a grande caneca de um litro, acompanhado de salada de batata. A cerveja estava geladíssima e maravilhosa. (…) Depois do primeiro grande gole de cerveja, bebi e comi muito lentamente”.

Brasserie Lipp: Paris é uma Festa / Foto: reprodução Facebook

Vai lá:

Bar Británico. Calle Brasil, 399, esquina com Defensa, Santelmo, Buenos Aires.

Brasserie Lipp. Boulevard Saint Germain, 151, Paris, França.

Les Ambassadeurs (Hotel Crillon), Place de La Concorde, 10, Paris, França.

O’Neill’s. Suffolk Street, 2, Dublin, Irlanda.

Publicans. Plandmore Road, 550, Manhasset, Nova York, Estados Unidos.

Sloppy Joe’s. Duval Street, 201, Key West, Flórida, Estados Unidos.

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#Fiquenobar http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/fiquenobar/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/fiquenobar/#respond Fri, 03 Apr 2020 14:16:12 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=593

Preso no bar: a cerveja redentora

Calma, gente, calma. Em hipótese nenhuma serei eu o cidadão de bem (nem tanto) a contradizer a recomendação da OMS, do Macron, do Trump (quem diria…), do Mandetta, do Dória, do Dani Alves, da minha mãe, neste sério momento em que vivemos: fica em casa, Miguel!

Mas o confinamento compulsório decorrente da pandemia me fez recordar de um episódio, em que fiquei preso, faminto, por umas boas horas num bar em Buenos Aires. Nada a ver com corona vírus, o perrengue deveu-se a um megaprotesto de garçons.

Foi mais ou menos assim: era 25 de junho de 2010, dia no qual a seleção brasileira empatou em 0 x 0 com Portugal de Cristiano Ronaldo, na Copa do Mundo realizada na África do Sul. Joguinho ruim, que assisti, na companhia de três amigos, num bar do terminal 2 do aeroporto de Guarulhos, já que embarcaríamos no fim da tarde daquela sexta-feira para passar o fim de semana em Buenos Aires.

Parênteses: naquele 2010, nós, brasileiros de classe média, éramos felizes e sabíamos. O câmbio do dólar estava a 1,77 real, o que nos permitia comer, rezar, amar, viajar e pensar no que fazer com aqueles reais que ainda sobravam na conta no fim do mês.

Desembarcamos no aeroporto de Ezeiza pouco depois do anoitecer e seguimos direto ao hotel Own, em Palermo Hollywood, bairro ao qual eu voltaria outras vezes e espero regressar em muitas oportunidades.

Chegamos com fome, é bom dizer, já que o longo período em trânsito entre casa-aeroporto-jogo-aeroporto-avião-aeroporto-hotel havia consumido umas boas 8 horas, com direito, no máximo, a cerveja e batata frita, no aeroporto, e barrinha de cereal, no avião. Por isso, saímos logo depois do check-in à caça de uma parrilla.

Caminhamos algumas quadras pelo vibrante bairro de Palermo Viejo e chegamos à Parrilla El Primo, que, na época, ocupava a esquina das ruas Humboldt e Gorriti. Pelo que pesquisei, já não existe e o mesmo endereço é sede hoje de La Costilla, outra churrascaria.

Lembro-me que logo ocupamos uma mesa no corredor central, entre o balcão e as mesas coladas aos janelões, e pedimos as duas primeiras garrafas de vinho – Rutini Malbec, era uma pechincha –, além de provoleta, asado de tira, ojo de bife e bife de chorizo. Nem demos muita atenção ao preço dos cortes, era realmente bem barato, menos da metade do que pagávamos à época em qualquer restaurante paulistano.

O vinho foi-nos servido logo. Erguemos um brinde, engatamos o papo e a fome foi aumentando. Passaram-se, sei lá, trinta ou quarenta minutos, uma hora, talvez, e nada de a comida chegar. Nem mesmo a provoleta.

Chamei a garçonete à mesa, que veio com a velha máxima: “está saindo”. Minutos depois, viemos a saber que o pedido jamais sairia: no que ela voltou à mesa, trouxe a conta dos vinhos e disse que não poderia servir nossos pratos porque havia recebido ordens de encerrar o serviço, já que ocorria na região, àquela hora, uma manifestação do Sindicato dos Trabalhadores do Hotéis, Bares e Restaurantes de Buenos Aires.

Os piqueteiros seguiam em marcha pelas ruas de Palermo Viejo, pichando carros, batendo panelas, vandalizando fachadas de estabelecimentos, invadindo bares e restaurantes e obrigando seu fechamento imediato.

À mesa da parrilla El Primo, mal tivemos tempo de pagar a conta. A equipe da casa acabou por nos manter ali dentro, em relativa segurança, e teve tempo apenas de baixar as portas e apagar algumas luzes.

Buenos Aires: protesto bom é com os portenhos

A lembrança ainda é assustadora: ouvimos gritos de ordem, barulho de chutes e de objetos arremessados na porta metálica, de sprays de tinta sendo descarregados na fachada. Um rolê black block gastronômico por assim dizer.

Estávamos presos. No bar, com fome e sem ter o que comer.

Aguardamos por cerca de uma hora, até que fomos convidados a sair, depois que, aparentemente, as coisas estavam calmas.

Estávamos livres, já passava de meia-noite, a fome era absurda mas as probabilidades de encontrarmos algum lugar aberto era mínima.

Mas eis que no percurso até o hotel, flagrei uma cena que salvaria nossa noite: enquanto um casal deixava furtivamente o que parecia ser um bar, cuja iluminação da fachada estava completamente apagada, pude notar no brevíssimo entreabrir da porta que do lado de dentro havia um salão iluminado, cheio de gente, bombando. Na cara de pau, segurei a porta e perguntei ao porteiro se poderíamos entrar, pois estávamos realmente famintos.

Complacente, ele autorizou nossa entrada.

Conforme eu avançava salão adentro, fui percebendo que já tinha estado ali, em 2004, na primeira das três vezes que até então havia visitado Buenos Aires.

Era o Acabar, um bar-restaurante muito legal, com salão comprido, repleto de sofás e mesas baixas onde os fregueses se reuinam para beber, comer e passar a noite a disputar partidas de Ludo, WAR, Banco Imobiliário e outros jogos de tabuleiro que a casa deixava à disposição.

O ambiente e o astral lembravam o da Conspiração do Jogo, um bar instalado no complexo O Velhão, nos confins da zona Norte de São Paulo, divisa com a cidade de Mairiporã.

Fomos acomodados em um desses sofás, dividimos uma picada (tábua de embutidos e queijos), a única opção disponível àquela hora, e, para brindar, cerveja Quilmes.

Para a primeira noite daquela viagem entre amigos, bastava aquela surpresa. Viveríamos, naquele fim de semana, momentos impagáveis, como na tarde de domingo, em que assistimos ao jogo da Argentina na companhia dos garçons e do parrillero do Café Lezama, em Santelmo. O sujeito dedicava a mesma atenção à TV e ao preparo de nosso asado de tira que, se bem me lembro, veio no ponto certo.

Uma década depois, fico com duas constatações: 1. os portenhos são mesmo bons de carne e de protesto; 2. em tempos de quarentena, cada dia merece um #tbt.

Vai lá (depois que a quarentena passar):

Parrilla La Costilla. Calle Humboldt esquina com Gorriti, Palermo Hollywood.

Conspiração do Jogo. Estrada de Santa Inês, 3000, Mairiporã, São Paulo.

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E agora, Migué? http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/03/24/e-agora-migue/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/03/24/e-agora-migue/#respond Tue, 24 Mar 2020 16:09:52 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=587

Requinte Vinho Bar: torresmo é chique / Foto: Miguel Icassatti

E agora, Migué?
O boteco fechou,
a cerveja esquentou,
o povo pediu,
o torresmo acabou,
e agora, Migué?
e agora, você?
você no salão,
que consola os outros,
você e seu chope,
colarinho, com ou sem?
e agora, Migué?

 

Está em casa com a mulher,
puxe um assunto,
dê a ela um carinho,
abre uma latinha,
và à janela fumar,
sair já não pode,
a unhappy hour chegou,
o freguês não veio,
o bebum não veio,
a cozinheira não veio,
não veio a caixinha
e a grana acabou
e bichano fugiu
e coxinha mofou,
e agora, Migué?

 

E agora, Migué?
Sua breja gelada,
seu pileque de leve,
sua fome e jejum,
seu jornal,
seu bico,
seu guardanapo de papel,
suas certezas,
seus medos – e agora?

 

Com o copo na mão
quer abrir a garrafa,
não existe garrafa, por ora – de gim;
quer dar um mergulho,
mas a piscina trincou;
quer ir pra Calçada,
Calçada não há mais.
Migué, e agora?

 

Se você escrevesse,
se você ligasse,
se você bebesse
seus amigos,
se você ouvisse,
se você esperasse…
Mas você não espera,
você é teimoso, Migué!

 

Da sala pra cozinha
do banheiro pro quarto,
sem os gols do São Paulo
sem balcão encardido
pro cotovelo deitar,
deu zebra
fodeu,
você bebe, Migué!
Migué, mais uma dose?

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Casa Guedes: sangue brasileiro sem perder o DNA lusitano http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/casa-guedes-sangue-brasileiro-sem-perder-o-dna-lusitano/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/casa-guedes-sangue-brasileiro-sem-perder-o-dna-lusitano/#respond Fri, 13 Mar 2020 14:55:21 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=583

Casa Guedes, no Porto: origem lusitana e investimento carioca / Fotos: Miguel Icassatti

“Bares e restaurantes não vendem somente comida e bebida. As pessoas vão a esses lugares para se alimentar, mas também para ser felizes”, diz Ricardo Garrido, um dos sócios da Cia. Tradicional de Comércio, a bem-sucedida rede de bares e restaurantes composta por casas de origem paulistana como Original, Pirajá, Astor, Bráz e Lanchonete da Cidade.

Assino embaixo a ‘lei de Garrido’ e é por isso que sempre que desembarco na cidade do Porto – por razões profissionais, tenho ido uma ou duas vezes por ano – vou logo à Casa Guedes.

E foi para lá segui, portanto, naquele final de manhã outonal e chuvoso de novembro passado, certo de que seria feliz, mais uma vez. Mal pus os pés no salão, porém, levei um susto.

“Bom dia!”, disse-me, com sotaque carioca, o rapaz que me atendeu ao caixa.

“Ué, cadê o Manuel?”, perguntei e logo virei-me para o canto do balcão e me dei conta de que também não estava ali o César.

“O César está ali na outra unidade”, disse-me o gajo.

Outra unidade? Essa era nova: a Casa Guedes havia acabado de ganhar uma filial.

Desconfiado, fui até lá, em busca da felicidade.

Corta.

César Correia, o mestre: pernil à moda de baião

Conheci a Casa Guedes em 2015, por indicação do compadre Caio Mariano – que, aliás, já havia me apresentado, em 2014, ao fantástico Porchetta, em Nova York.

A Casa Guedes é uma tasca – ou seja, um típico boteco lusitano – instalada em uma esquina da Praça dos Poveiros com o Passeio de São Lázaro, região central do Porto, que havia sido comprada pelos irmão Cesar e Manoel Correia em 1987. Acima do letreiro com o nome da casa ainda está afixada a antiga placa luminosa do “Snack Bar Guedes”, que servia refeições rápidas, como francesinha (típico sanduíche portuense), cachorro-quente e pernil assado.

Foi sob a gestão dos irmãos Correia que a Casa Guedes voltou o foco para o que interessa, a receita que vem fazendo a sua fama: o sanduíche de pernil com queijo de ovelha à moda de Baião, lugarejo de onde os manos vieram, na divisa entre as regiões vinícolas do Douro e dos Vinhos Verdes.

Cesar é o responsável pelo preparo dos sanduíches, enquanto Manoel sempre cuidou do caixa, tarefa acumulada, nos dias de muito movimento, com o serviço do chope e o despacho das porções de batata ou do bolinho de bacalhau aos clientes.

Parte do segredo do sanduíche é a “manha” do César em cortar a peça de pernil, pacientemente, em lascas, e fazê-las deslizar para o recipiente repleto de molho, com o qual serão regadas assim que sejam dispostas sobre meia banda de pão, cobertas por uma fatia de queijo, e a outra metade do pão. Nessa versão, custa 4,50 euros; sem queijo, sai a 3,50 euros.

Também secreta é a mistura de temperos do molho. Nunca consegui que César revelasse o que vai ali, embora possamos suspeitar: vinho, alho, cebola, ervas e a gordura do próprio animal. Se o pernil da Casa Guedes foi parar até na Time Out, célebre revista inglesa, não tardaria a chegar até o lado de cá do Atlântico, certo?

Tanto chegou, que chamou a atenção do grupo Boteco Belmonte, dono de vinte bares e restaurantes no Rio de Janeiro. E, abençoada por São Jorge Jesus, sim, o conglomerado carioca associou-se à Casa Guedes e em setembro de 2019 deu-lhe a tal filial.

Desconfiado, eu dizia, fui lá conferir.

Sanduíche de pernil e César, ao fundo: criatura e criador

Instalada na mesma calçada, uns 50 metros adiante, a Casa Guedes 2.0 ocupa um prédio de três andares, com uma cobertura a céu aberto voltada para a praça. Ali eu tomaria um bom Negroni uma ou duas noites depois.

No movimentado andar térreo foi reproduzido o balcão da casa-mãe, em extensão maior, com direito a uma bela chopeira numa ponta. Na lateral, que fica de frente para a porta de entrada, a grande atração é a estação de trabalho em que Cesar prepara os sanduíches de pernil.

Ao notar que era ele quem estava ali na Casa Guedes 2.0, tranquilizei-me. Pedi um sanduíche de pernil 2.0 e puxei conversa. Ele contou-me, por exemplo, que utiliza pernil de leitoa, mais saboroso e macio. Na ausência dele, garantiu, os sanduíches estão em boas mãos, brasileiras, no caso, já que ensinou a alguns funcionários o delicado ofício. De fato, conforme pude conferir duas semanas trás, o sanduíche segue impecável.

Nessa filial notam-se alguns maneirismos brasucas, como a abordagem do garçom que chega com uma bandeja cheia de salgados, e a inclusão de novas opções no cardápio, a exemplo do carioquíssimo sanduíche de pernil com abacaxi e a dispensável francesinha, típico sanduíche portuense recheado com frios, bife e coberto com queijo e molho de tomate.

Na Casa Guedes original, os novos sócios tiveram a sabedoria de mantê-la intacta, roots. Mais do que isso, compraram o prédio onde está instalada. Há que se reverenciar a tradição, afinal, sem prejuízo ao desejo de crescer e abrir novas frentes de negócio.

Quanto a este glutão, que sorte: a Casa Guedes é o que mais próximo define o conceito de felicidade. Agora, em dose dupla.

Vai lá:

Casa Guedes. Praça dos Poveiros, 76 e 130, Porto.

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