Boteclando http://boteclando.blogosfera.uol.com.br Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar Sun, 13 Sep 2020 19:42:58 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Da receita da sua avó à do bar: o bolinho de arroz vale ouro http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/13/da-receita-da-sua-avo-a-do-bar-o-bolinho-de-arroz-vale-ouro/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/13/da-receita-da-sua-avo-a-do-bar-o-bolinho-de-arroz-vale-ouro/#respond Sun, 13 Sep 2020 19:42:58 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=798

Bolinho de arroz do Ritz / Foto: Tadeu Brunelli

O “bolinho” era da coisas mais gostosas que aparecia de vez em quando à mesa lá em casa. Se me perguntassem “é bolinho de quê?”, aos 6 ou 7 anos, eu não saberia dizer quais eram os ingredientes. Era simplesmente o bolinho, no máximo, o bolinho da vó, com quem morávamos e a quem confiávamos a cozinha.

O bolinho tinha a mesma origem do mexido, um clássico do jantar de muitas famílias de classe média baixa com alguma ascendência mineira. Dividia com ele as sobras do almoço. O mexido ficava com o que restasse de feijão, bife (coxão mole bem frito e picado), ovo, temperos, toucinho de vez em quando e parte do arroz.

O restante do arroz (bem cozido, 10 colheres de sopa) ficava pro bolinho da vó que, segundo minha mãe e para tal proporção, levava um ovo, uma cebola picada, alho (2 dentes, amassados), farinha de trigo só para dar liga, cheiro-verde e, de vez em quando, uma abobrinha picada, talvez quiabo.

Nesta semana em que a polêmica foi a alta no preço do arroz (domingo passado, paguei 11,80 reais no pacote de 2 quilos), vieram à minha cabeça alguns flashes daqueles anos 1980: tabelamento de preços, fiscais do Sarney, sumiço do boi gordo, prateleiras dos supermercados vazias, “compra do mês”.

Felizmente, veio ele também, o bolinho, que ao longo da minha vida foi ganhando versões mais ou menos incrementadas e diferentes temperos.

Tão popular nos nossos pratos, o arroz era alimento suplementar até o século XIX no Brasil, quando cabia à farinha de mandioca a parceria com o feijão na dieta diária. Quem nos conta é o folclorista Luís da Câmara Cascudo, no indispensável História da Alimentação no Brasil.

Segundo ele, foram os árabes que difundiram o arroz no ocidente: “Os árabes deram nome ao arroz, arruz como ainda pronunciam no sul de Portugal, e plantaram-no excelentemente na Espanha. Passou à Itália ao meio-dia da França, determinando doçaria também, pudim, bolo, papas, arroz-doce”.

Daí que é possível inferir que em algum ponto da história o bolinho de arroz de nossas avós seja descendente do arancino, o bolinho de arroz italiano. De acordo com um artigo de 2018 da revista La Cucina Italiana, a origem do arancino, como todos os pratos à base de arroz no sul da Itália, deve ser colocada no contexto do domínio árabe naquela região, entre os séculos IX e XI. “Na verdade, os árabes costumavam enrolar um pouco de arroz com açafrão na palma da mão e temperar com carne de cordeiro”.

Ainda segundo o artigo, o médico e pesquisador Giambonino da Cremona escreveu em seu Liber de ferculis, no século XIII, que os árabes tendiam a chamar as almôndegas com um nome que remetia a uma fruta até certo ponto semelhante: no caso desse bolinho de arroz com açafrão, a arancia (laranja), muito comum na Sicilia. Palermo e Catânia, as duas maiores cidades da ilha, aliás, duelam pela origem da receita do arancino, que ao longo do tempo e a depender da região, ganha ou perde ingredientes, em especial queijo.

Um bolinho de arroz que fica no meio do caminho entre a receita de nossas avós e o arancino, além do quê um clássico da gastronomia paulistana, é aquele servido no Ritz, onde a porção sai a 37 reais, com 10 unidades, ou 26 reais, com 6, e cuja valiosa receita compartilho aqui:

Bolinho de arroz do Ritz

Ingredientes:

4 xícaras de arroz bem cozido

4 ovos

¼ de xícara de farinha de rosca

1 xícara de queijo parmesão ralado

½ colher (chá) de fermento em pó

½ xícara de salsinha picada

½ xícara de cebolinha picada

½ colher (chá) de sal

¼ de colher (chá) de pimenta-do-reino

1 litro de óleo para fritar

Preparo:

Coloque numa tigela o arroz, os ovos, a farinha de rosca, o queijo, o fermento, a salsinha e a cebolinha. Tempere com o sal e a pimenta-do-reino. Misture bem.

Numa frigideira funda, aqueça o óleo e doure os bolinhos, que devem ser moldados na mão, um a um.

Retire com uma escumadeira, escorra bem e sirva em seguida.

Rendimento: de 30 a 40 bolinhos.

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No Dia Internacional do Bacon, 8 lugares para comer um bom torresmo http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/05/no-dia-internacional-do-bacon-8-lugares-para-comer-um-bom-torresmo/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/05/no-dia-internacional-do-bacon-8-lugares-para-comer-um-bom-torresmo/#respond Sat, 05 Sep 2020 18:41:06 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=790 Se a gente for analisar ao pé da letra, há um erro histórico na localização do bacon no corpo dos suínos: de acordo com a etimologia da palavra bacon, a matéria-prima anatômica dessa iguaria – e a do nosso amado torresminho – deveria ser as costas do porco e não a barriga.

Explico: o Online Etymology Dictionary diz que a palavra “bacon” deriva do germânico arcaico bakkon e do holandês também antigo baken e significa “carne das costas e das laterais do porco”.

Originalmente – estamos falando do século XIV –, o bacon era, portanto, a carne das costas do porco, crua ou curada. De fato, essa região dorsal dos suínos é a base do lardo, uma espécie de primo rico do bacon. Trata-se de uma camada de gordura que é extraída do lombo do animal, salgada e temperada com alecrim e sálvia, entre outras especiarias, e que passa por um longo período de cura, de seis meses, em alguns casos. Embora o lardo seja produzido em vários lugares, inclusive no Brasil, o mais famoso e desejado é o lardo di Colonnata, oriundo dessa cidadezinha italiana da região da Toscana.

E, quem diria, na árvore etimológica do bacon – que nada mais é o toucinho defumado –, o lardo é o ancestral direto, já que toucinho vem do latim ibérico tuccinum (lardum), que gerou o tocino (espanhol) e, por extensão, o luso-brasileiro toucinho.

O lado gastronômico e ainda mais saboroso dessa história é que de uns tempos para cá o bacon, o toucinho, o torresmo e todo tipo de produto advindo da barriga de porco, enfim, vêm sendo redimidos e tratados com a devida atenção.

Ao ponto de, nos Estados Unidos, ser comemorado o “International Bacon Day”, uma gaiatice das boas, a bem da verdade. A “data” foi criada em 2004 por estudantes no estado do Colorado e é celebrada no sábado anterior ao Dia do Trabalho, que ocorre por sua vez na primeira segunda-feira de setembro. Ou seja, neste sábado, 5 de setembro de 2020, os fãs do bacon rendem-lhe homenagens e o ingrediente é incluído em todo tipo de receita e refeição: do café da manhã à sobremesa e até na coquetelaria.

Bem que poderíamos seguir o exemplo dos gringos e estabelecer por aqui o Dia Nacional do Torresmo, que tal? Setembro é uma época, ainda mais porque em 13 de setembro celebramos o Dia Nacional da Cachaça, que é a companheira do torresmo por excelência. Para inspirar aqueles que concordam com a ideia, compartilho uma lista afetiva com alguns endereços e seus maravilhosos torresmos e variações:

Torresmo do Bar do Edu: quase um cereal matinal / Fotos: Miguel Icassatti

Bar do Edu: no boteco discretamente localizado numa das franjas do bairro da Vila Olímpia, a dois ou três quarteirões do cruzamento das avenidas Santo Amaro e Bandeirantes, em São Paulo, o torresmo é delicadamente fatiado em quadradinhos finos, e frito na hora. Não à toa, os mais chegados referem-se a ele como “sucrilhos”.

Bar do Tião: Localizado em Jacareí, no Vale do Paraíba, a 80 quilômetros de São Paulo, o boteco serve talvez o maior torresmo do Brasil. Cada unidade chega a ter 20 centímetros de comprimento. É frita na hora e está disponível no prato ou num espetinho.

Dr. Costela: primeiro, o chef Celso Frizon enrola as enormes peças de barriga de porco, amarra e leva à uma marinada com manjericão, alecrim, tomilho, salsinha e outros temperos. A seguir, leva à brasa, onde a carne será assada lentamente e a pele irá ganhar uma bela cor acobreada. Antes de servir, com a pele muito quente, ele derrama água sobre o couro para que se forme a pururuca.

Espaço Tambiú: a casa é especializada em cozinha pantaneira e amazônica. Portanto, os peixes de rio ocupam lugar de destaque no cardápio. O torresmo de peixe servido nesse endereço no bairro do Pacaembu, em São Paulo, é uma adaptação da versão difundida nos barcos-hotéis de Corumbá (MS), preparada com piranha. É feito com lombo de pacu, espinha e pele temperados com sal, pimenta e vinho branco. Depois de passar pela farinha de trigo vai ao óleo bem quente, por 2 minutinhos .
Torresmo do Hilda Botequim / Foto: Miguel Icassatti

Hilda Botequim: no agradável e acolhedor boteco localizado em uma pracinha da bucólica Vila Ipojuca, na zona Oeste de São Paulo, o torresmo passa três horas marinando na banha antes de ser frito e fatiado em pedaços pequeninos, sequinhos – e deliciosos.

Mocotó: foi o próprio chef Rodrigo Oliveira que contou ao blog os macetes no preparo do maravilhoso torresmo da famosa casa da zona Norte de São Paulo. “É preparado ao longo de doze horas, período em que as tiras de barriga de porco ficam em uma marinada e depois são desidratadas”, diz. A barriga então é mergulhada numa solução de água com bicarbonato de sódio por seis horas. Em seguida, escorre-se a carne, que fica pendurada num secador a 60 graus, por mais três horas. A peça então é aparada, para que cada torresmo apresente uma perfeita combinação de pele, gordura e carne, cortada e frita a 150 graus por 15 minutos. Em seguida, vai ao tacho novamente, a 190 graus, por três minutos. Um espetáculo.

Patorroco: na mesma BH do Casa Cheia, cidade em que torresmo é levado a sério, esse bar localizado no bairro do Prado tem um modo de preparo “simples”, nas palavras do chef Patorroco. “É uma receita da roça, feita com barriga de porco, à moda slowfood”, desconversa.

Valadares: a produção diária nesse tradicional boteco da zona Oeste paulistana não para. A estufa do balcão é reposta a todo momento. Assim, o torresmo-raiz da casa está sempre quentinho.

Vai lá:

Bar do Edu. Rua Andrade Pertence, 209, Vila Olímpia, São Paulo (SP).

Bar do Tião. Avenida Santa Helena, 524, São João, Jacareí (SP).

Dr. Costela. Rodovia Régis Bittencourt, quilômetro 293,5, Itapecerica da Serra (SP).

Espaço Tambiú. Rua Traipu, 607, Pacaembu, São Paulo (SP).

Hilda Botequim. Praça Sá Pinto, 67, Vila Ipojuca, São Paulo (SP).

Mocotó. Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1100, Vila Medeiros, São Paulo (SP).

Patorroco. Rua Turquesa, 875, Prado, Belo Horizonte (MG).

Valadares. Rua Fáustolo, 463, Vila Romana, São Paulo (SP).

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Após 6 meses, minha 1ª ida ao boteco: o fantasmavírus rouba a alma do bar http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/03/o-fantasma-do-virus-e-a-apatia-que-habitam-cada-frequentador-de-bar/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/09/03/o-fantasma-do-virus-e-a-apatia-que-habitam-cada-frequentador-de-bar/#respond Thu, 03 Sep 2020 07:00:11 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=779

Crédito: Getty Images

Exatos seis meses depois que foi confirmado o primeiro caso de covid-19 no Brasil, em 26 de fevereiro, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos em número de mortes causadas pelo coronavírus por 100 mil habitantes, segundo dados da Universidade Johns Hopkins: 55,05 mortes por 100 mil aqui e 54,18 no país do Mickey. Nesse período, o Brasil somou 3.722.004 de casos confirmados da doença, que matou 117.756 brasileiros. A boa notícia é que a média móvel diária de registros da doença no país caiu 16% em relação a 14 dias, o que indica uma redução.

Foi também na noite deste dia que, coincidentemente, voltei a sentar-me em uma mesa de bar, a convite de um amigo com quem não me encontrava desde o ano passado.

Novo normal?

Foi estranho, não foi uma experiência nada legal.

E isso não tem nada a ver com a conversa fraterna, com o chope impecável nem com o cumprimento dos protocolos de prevenção por parte do bar, a saber: mesas distantes umas as outras, cardápio disponível por QR code, brigada de salão devidamente paramentada com EPI’s e totem com álcool gel na entrada.

Crédito: iStock

Antes de chegar àquele boteco no qual tantas vezes dei risada, encontrei amigos, bebi e comi bem, eu imaginava que, Ok, não iria me importar com esse novo cenário.

Acontece, meus amigos, que álcool gel e máscara podem muito bem fazer parte, respectivamente, de nossa cesta básica e de nosso enxoval. Mas num ambiente como o bar, que simboliza a confraternização, a irreverência, a celebração, a indulgência e a amizade, esses itens materializam a tristeza de quem, como eu, não consegue relaxar aos colocar os pés para fora de casa, representam o desconforto de quem, como eu, se incomoda com próprio bafo a aquecer a pele sob a máscara, e o medo de quem, como eu, é pai e jamais irá se perdoar se levar para casa o fantasmagórico coronavírus.

No que pude, tomei lá meus cuidados para me proteger: pendura a máscara na orelha, dá um gole no chope, recoloca a máscara. Espeta a calabresa, pendura a máscara na orelha, mastiga, recoloca a máscara, borrifa álcool nas mãos.

O coronavírus à espreita

A verdade é esta: por mais limpo e esterilizado que o bar esteja, o fantasma do coronavírus estará ali a rondar.

Primeiro, porque o bar não é só corpo físico. O fantasmavírus vai roubar a alma do bar e em algum momento vai ser assunto em cada uma das mesas, como foi na minha, quando meu amigo contou que o sobrinho, de 6 ou 7 anos, inventou uma engenhosa armadilha para prender o dito-cujo: folhas de papel melecadas de cola branca colocadas no hall de entrada da casa, para grudar o monstro invisível.

Quando me dei conta, o fantasmavírus já estava dentro da minha, transformando-me num voyeur, com os olhos e ouvidos atentos e preocupados sobre a apatia nas mesas alheias.

Crédito: iStock

Na minha direita, dois caras conversavam numa boa, a menos de 1 metro de distância um do outro, com as máscaras no queixo. Casais cochichavam e bebericavam em dois ou três casulos, digo, mesas, despreocupadamente.

À minha frente, a mesa passaria a ser ocupada por dois rapazes e três moças. No que se sentaram, guardaram as máscaras. Uma delas, ao ser reconhecida por uma mulher que adentrava o salão e seguia para outro canto, levantou-se para cumprimentar. Abraçaram-se e uma delas, sem graça, balbuciou alguma coisa. Só puder ouvir o fim da frase: …nada de distanciamento social, né?”

De uma mesa mais adiante, uma mulher também levantou-se, cambaleante, não sei se por causa do salto ou dos efeitos do gim tônica e, vindo na direção da mesa em que eu estava, desviou, ufa, à direita, não sem antes gritar: “uééé, não é aqui o banheiro?”

Já com as portas de ferro baixadas, próximo do horário regulamentar, o maître passou de mesa em mesa informando que o serviço de cozinha e de bebidas seria encerrado. Bebemos a última rodada de chope, pagamos a conta e fomos embora. Àquela hora, imaginei que estava deixando o fantasmavírus no bar. Mas receio que terei de lidar com ele pelos próximos 14 dias.

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Os 100 anos da Lusa e o sotaque português dos nossos botecos http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/08/26/os-100-anos-da-lusa-e-o-sotaque-portugues-dos-nossos-botecos/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/08/26/os-100-anos-da-lusa-e-o-sotaque-portugues-dos-nossos-botecos/#respond Wed, 26 Aug 2020 14:11:55 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=769

Estádio do Canindé, sede da centenária Lusa. Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress

Um domingo ensolarado era tudo que um adolescente como eu, morador do Pari e sócio da Associação Portuguesa de Desportos, um dos raros orgulhos do nosso pedaço, poderia querer naquele fim dos anos 1980 e início dos 1990.

Às 7 e meia da manhã eu já tocava a campainha na casa do Daniel e dali seguíamos para o clube, a fim de marcar nosso território com a toalha na beira da piscina olímpica, logo que o conjunto aquático fosse aberto. Um cochilo a mais e seríamos obrigados a procurar um pedacinho de chão lá nos confins da piscina infantil, carinhosamente chamada de penicão.

E o dia transcorrer-se-ia do jeitinho que a gente queria: alguns mergulhos, um churrasquinho na lanchonete Tri-Fita Azul, a chegada de mais amigos – Alê, Leandro, Cebola, Fabra, entre outros – para garantir o time completo do futebolzinho no fim da tarde lá em uma das quadras ao lado do ginásio do hóquei sobre patins, a Lusa era uma potência nesse esporte.

Nas inesquecíveis festas juninas, essas quadras meio que ficavam escondidas pela barraca do Minho, se não me engano. A festa junina da Portuguesa decorria ao longo de todos os fins de semana do mês, era um acontecimento e recebia paulistanos de todos os bairros, não só nós os associados, que lotavam o areião – um campo de futebol – e seu entorno, onde ficavam montadas as barracas, os brinquedos e o palco para shows. A última noite era a mais disputada: show de Roberto Leal e uma longa queima de fogos.

Fachada da Taberna do Cais do Porto: uma tasca em pleno Canindé / reprodução Facebook Taberna Cais do Porto

Além do cheiro inebriante das sardinhas assadas na brasa, nessas quermesses era possível sentir também o odor das alheiras sendo assadas na barraca trasmontana, do vapor do caldo verde a cozinhar, dos bolinhos de bacalhau em fritura. Os olhos se encantavam com os pasteis de nata, travesseiros de sintra, toucinhos do céu e tantas outras delícias da doçaria lusitana. Naquelas barracas juninas estava, de certa maneira, sintetizada a ancestralidade portuguesa de nossos botecos.

A meu ver, o antepassado direto dos botecos brasileiros é a tasca portuguesa, lugar simples, em que o dono é, muitas vezes, o cozinheiro, o garçom e o interlocutor das conversas ao balcão. Às vezes tem a ajuda da família em algumas tarefas, tal e qual ainda podemos ver hoje em dia Portugal adentro.

E em um ou outro caso, sobretudo em Lisboa, a tasca é ponto de encontro de fadistas, cantoras, guitarristas e admiradores desse estilo musical ímpar.

Pois na Portuguesa de hoje, que completou 100 anos no dia 14 de agosto, pouco resta daquelas tardes dominicais gloriosas à beira da piscina. Essa foi aterrada, depois de anos de abandono, a festa junina decaiu absurdamente e o Estádio do Canindé há muito não recebe jogos como um Portuguesa x São Paulo ou um Portuguesa x Santos, como aquele de 1993 em que Dener marcou o gol mais lindo da história do estádio.

Estádio do Canindé foi palco de grandes embates e gols memoráveis, como o de Dener, em 1993. Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress

Para os saudosos como eu, porém, felizmente resta viva a Taberna do Cais do Porto, uma tasca incrustada na sede da Lusa, onde posso comer deliciosas pataniscas de bacalhau (20 reais a porção com sete unidades) e uma boa alheira à moda trasmontana (20 reais a unidade). Teresa Morgado, a dona da casa, aliás, é natural de Sendim, uma vila com cerca de 1370 habitantes localizada em Miranda do Douro, Trás-os-Montes, norte de Portugal. Nas noites de quinta a sábado, costumava receber a companhia da irmã, Glória de Lourdes, para interpretar clássicos do fado, outrora famosos na voz de Amália Rodrigues.

Em virtude da pandemia, os concertos estão suspensos. Mas o aroma do azeite que tempera o bacalhau e o polvo a lagareiro (respectivamente 100 e 150 reais, para duas pessoas) continua a alegrar os paladares da freguesia e dos raros torcedores da Associação Portuguesa de Desportos, uma instituição paulistana, que merece reviver seus dias mais gloriosos.

Taberna do Cais do Porto. Rua Comendador Nestor Pereira, 33, portão 3, Canindé, São Paulo.

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O triste fim de um food park e o que isto pode nos ensinar http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/08/06/o-triste-fim-de-um-food-park-e-o-que-isto-pode-nos-ensinar/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/08/06/o-triste-fim-de-um-food-park-e-o-que-isto-pode-nos-ensinar/#respond Thu, 06 Aug 2020 07:00:06 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=760

(Crédito: Instagram)

No dia 31 de julho, a Vila Butantan encerrou as atividades, depois de cinco anos em que ocupou o terreno do número 47 da Rua Agostinho Cantu, bem ao lado da ponte Eusébio Matoso, zona Oeste de São Paulo. No mesmo local havia funcionado por pouco mais de um ano o Butantan Food Park, o primeiro “parque” dedicado à comida de rua e que reunia food trucks e barracas de comida num só espaço.

Talvez tenha sido o capítulo derradeiro de uma história que poderia ter tido um início e uma vida mais felizes para a cidade de São Paulo, sem que precisasse haver um fim ainda que esse fim, possivelmente, tenha sido consequência da pandemia.

Para explicar esse meu raciocínio, volto no tempo, ao dia 6 de maio de 2014. Naquela terça-feira, o prefeito Fernando Haddad assinou o decreto que definia as regras para a venda de comida nas ruas de São Paulo, legislação que ficou popularmente conhecida como “lei do food truck”.

Da noite para o dia, dezenas de food trucks passaram a ocupar as ruas da cidade de São Paulo, principalmente nas zonas Oeste e Sul. Alguns deles pertenciam a chefs ou restaurantes conhecidos, que investiram alguns milhares de reais na compra e na montagem dessas cozinhas sobre rodas.

A chegada dos food trucks trouxe um fenômeno, e um equívoco, em sua gênese: a gourmetização da comida de rua. São Paulo ganhou food truck especializado em saladinha gourmet vendida a 30 reais, food truck de hambúrguer gourmet a 25 reais, food truck de bolinho de carne gourmet a 25 reais – preços praticados em 2014, é bom lembrar.

Acontece que comida de rua é algo que deve ser simples, rápido e barato. É bom lembrar também que a ideia dos food trucks em São Paulo teve lá sua inspiração na experiência de outras cidades, como Nova York e Berlim. Quem conhece a Big Apple sabe: a cada esquina existe um food truck estacionado, onde é possível comer de tudo um pouco, de hot-dog a taco mexicano. A diferença? Simples: você come e paga pouco pelo que comeu.

Em Berlim, pra ficar em outro exemplo, acontece o mesmo: você desembolsa 2 ou 3 euros em quiosques de rua por um sanduíche de linguiça ou por um kebab. E sai satisfeito. Se estiver a fim de uma experiência mais, por assim dizer, gourmetizadora, o cidadão nova-iorquino, o berlinense e o paulistano dispõem de restaurante excelentes.

Panela na Rua, em São Paulo (Crédito: Instagram)

Voltando a São Paulo, a lei dos food trucks, porém, teve um ponto muito positivo, que foi o surgimento das feiras gastronômicos modernas de rua, também com a presença de chefs, e a redescoberta das antigas, como a Feira Kantuta, repleta de receitas bolivianas no bairro do Pari e a Feira da Liberdade, ambas aos domingos; e a Feira da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, aos sábados, que chegou a ganhar a companhia do Panela na Rua, uma espécie de food park instalado no número 85 da praça.

Assim como o Butantan Food Park, esse Panela na Rua e o Pátio Gastronômico, para ficar apenas em três espaços do gênero, ocupavam áreas particulares. Legal que houvesse esses espaços privados, até porque o desafio de vencer a burocracia municipal para a ocupação organizada de vias públicas por iniciativas dessa natureza requer paciência e obstinação.

No fim das contas, aos muitos envolvidos no fenômeno dos food trucks e ao que veio a reboque faltaram uma volta à essência – preparar e vender comida de rua boa e barata – e uma estratégia bem pensada de ocupação das praças, dos largos, dos calçadões, do espaço público em geral por empreendedores, sejam eles chefs estrelados ou cozinheiros anônimos, devidamente regulamentados e pagadores de impostos à cidade.

Aos empreendedores das gastronomia e aos candidatos à prefeitura nas próximas eleições, que tal pensarem a respeito?

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Campos do Jordão sem a muvuca do Baden Baden: o inverno da tristeza http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/21/campos-do-jordao-sem-a-muvuca-do-baden-baden-o-inverno-da-tristeza/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/21/campos-do-jordao-sem-a-muvuca-do-baden-baden-o-inverno-da-tristeza/#respond Tue, 21 Jul 2020 07:10:17 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=748 A tristeza me pegou depois de 123 dias de convívio com as anormalidades já decorrentes da pandemia. Já havia sentido desânimo quando soube do fechamento de uma série de bares e restaurantes dos quais gostava. Fiquei com raiva e revoltado quando vi gente descumprir a simples obrigação de usar corretamente uma máscara e guardar uma distância segura dos outros. Convivo com a compaixão e a admiração pelos profissionais da saúde, entre eles uma pessoa muito querida na família, que contraiu o covid-19 e voltou o trabalho para ajudar a cuidar e a salvar vidas daqueles que são considerados do grupo de risco. Como tantos, ela está todo esse tempo sem contato pessoal conosco.

Mas a tristeza me pegou, pra valer, na sexta-feira passada, quando vi os bares e restaurantes do centrinho do Capivari, em Campos do Jordão, alguns fechados, outros com atendimento a meia-porta. As fotos que acompanham este texto falam por si.

Baden Baden: um ícone do burburinho invernal de Campos, agora vazio

Nunca fui habituê de Campos do Jordão. Em outros invernos, parecia-me um programa de índio a subida da Serra, o trânsito pesado na estrada, a tarifa alta dos hotéis, as temperaturas muito baixas e a longa fila de espera nos restaurantes e bares, em especial o Baden Baden.

As mesinhas no calçadão em frente ao famoso bar da cervejaria, sempre lotadas, simbolizam Campos do Jordão tanto quanto o Véu da Noiva, o teleférico, o Pastelão do Maluf e o Festival de Inverno. A fila de espera por um lugar era, a bem dizer, parte do programa de ver-e-ser-visto. E conseguir uma mesa logo ali na fila do gargarejo era como alcançar a sorte grande.

Neste julho de 2020, a água gelada continua a jorrar do Véu da Noiva mas o teleférico jordanense está inativo, o Festival de Inverno foi adiado para 2021 e o Pastelão do Maluf vem dando, ah vá, seu jeitinho com o delivery: o cliente encomenda o pastel no balcão e aguarda o salgado na praça, onde será entregue por um funcionário, que grita o nome de quem fez o pedido.

Pastelão do Maluf: delivery como solução para seguir atendendo

Mas não há sequer uma mesa posta defronte o Baden Baden, para ser disputada pelos clientes. A área está isolada por uma fita plástica. Dos 50 garçons que corriam para atender a multidão, restaram empregados uns dez, apenas, que ficam ali na área à espera de pedidos para viagem.

Baden Baden: das filas para ver-e-ser-visto à frente marcada pela fita de isolamento

Num único feriado em julho de 2019, por exemplo, Campos do Jordão, que tem 51.454 habitantes (dados de 2017) recebeu 200.000 turistas e 45.000 veículos. Os 14.000 leitos dos 236 hotéis e pousadas tiveram 100% de ocupação e boa parte dos 5.000 leitos disponíveis em casas de temporada também foram preenchidos. Para uma cidade cuja economia depende muito do turismo no mês de julho, esses números podem dar uma ideia dos prejuízos.

Com atendimento a meia porta e sem movimento de invernos anteriores, ganos com turismo caem drasticamente

Nos fins de semana, é verdade, Campos do Jordão tem recebido mais turistas mas o movimento está muito longe do de invernos passados. A cidade está na fase laranja do Plano São Paulo, o que implica, por exemplo, no horário reduzido de atendimento no comércio em geral e permite que os hotéis trabalhem com 40% de sua capacidade para receber os hóspedes. A projeção do setor, porém, é de que o movimento corresponda a 10% do ano passado.

Se de um lado esses estabelecimentos estão operando aquém da capacidade, é fato que a reabertura parcial, desde 1º de junho, trouxe a reboque a multiplicação de casos de covid-19: até aquela data a cidade computava 34 casos. Na sexta, 17 de julho, eram 289 casos confirmados e há, segundo a prefeitura, 217 ocorrências suspeitas.

Exceto pela breve incursão ao centrinho do Capivari na sexta-feira, mantive-me junto da família o tempo todo, em paz, em casa. Mas, na noite de sábado, pude ouvir o som alto de uma banda que tocava ao vivo em algum lugar na vizinhança, que é repleta de casas espaçosas, algumas cinematográficas. Era uma festa. Mas festas e eventos que geram aglomeração seguem proibidos. Dá raiva, não dá?

Por outro lado, ainda não consigo definir o sentimento diante da notícia da carteirada do desembargador na orla de Santos.

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Bares reabertos: o freguês está preparado para voltar? http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/15/bares-reabertos-o-fregues-esta-preparado-para-voltar/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/15/bares-reabertos-o-fregues-esta-preparado-para-voltar/#respond Wed, 15 Jul 2020 07:00:57 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=742

Pub aberto em Cambridge, Inglaterra: regras e colaboração dos clientes / Foto: Kake, creative commons

Oito dias antes do chamado “Super Sábado”, que marcou a volta dos ingleses aos pubs, e nove dias antes da reabertura dos bares e restaurantes em São Paulo, escrevi aqui que a retomada do setor no Reino Unido era a melhor notícia da pandemia. E que, paradoxalmente, para São Paulo não parecia ser uma boa ideia, ainda mais depois do desrespeito às regras – para dizer o mínimo – visto no Rio de Janeiro.

Comigo parecem concordar 59% dos donos de bares e restaurantes de São Paulo, embora, admitamos, por razões diferentes. Eles não pretendem reabrir seus estabelecimentos – segundo pesquisa feita com 150 empresários pela Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel) nos dias 6 e 7 de julho – devido às regras atuais em vigor: horário (até 17 horas) e capacidade (até 40% do salão) reduzidos, além da proibição de instalar as mesas na calçada. O argumento principal é que a conta, desse jeito, não fecha.

Há empresários, porém, que estão conseguindo se manter por meio de delivery ou de outras iniciativas com as quais vêm segurando o negócio. Alguns vão além: manifestaram-se publicamente contra a reabertura, com a consciência de que não, ainda não é o momento de retomar as atividades com toda força. Afinal, a covid-19 ainda está matando 300 paulistas por dia. É louvável a coragem de alguns desses bares, entre eles o Tiquim, na Pompeia, o Rota do Acarajé, em Santa Cecília, e o Mocotó, na Vila Medeiros.

Não ignoro o fato de que a pandemia está levando muitos empresários à falência e trabalhadores ao desemprego. Mas vale correr o risco de contrair um vírus que nos surpreende a cada dia, num cenário em que sabidamente há subnotificação de casos da doença? Eu acho que não. E torço para que seja contrariado por uma nova realidade, em que surja logo a vacina ou as estatísticas se reduzam drasticamente.

Sob esse aspecto da saúde, diferentemente do que aconteceu no Rio de Janeiro e em Londres, a restrição em São Paulo poupou-nos, por enquanto, de vexames vistos nessas cidades. Se bem que neste sábado eu vi ao menos dois bares na Rua Manuel Guedes, no Itaim Bibi, cheios, com gente bebendo em pé, sem máscara. Na quinta-feira, lá pelas 10 da noite, passei de carro pela região da Santa Cecília e vi gente bebendo em grupos na calçada, com a máscara no queixo. Já tinha percebido cena idêntica na tarde do sábado e também na do domingo, quando pedalei pelas ruas dos Jardins e de Pinheiros. Essa gente deve ser da família do Wolverine, não é possível.

Apesar das aglomerações na zona boêmia do SoHo londrino durante o “Super Saturday”, pude ler nas páginas dos jornais ingleses notícias de que muitos cidadãos, em pubs localizados em outros bairros e cidades, conseguiram cumprir o combinado, simples assim.

No Reino Unido, algumas regras me pareceram muito boas e poderiam ser copiadas aqui. Por exemplo, a possibilidade de os clientes fazerem a reserva dos pedidos antecipadamente por aplicativo; a música ambiente tocada em volume baixo para evitar que as pessoas gritem; e o controle no acesso aos toaletes. Sem contar o uso e a disponibilidade corretos de equipamentos de proteção individual para os funcionários e os clientes.

Mas a principal e mais eficaz regra é a de obrigar uma pessoa de cada grupo de clientes a informar o nome e o número de telefone com os responsáveis pelo local. Esses dados devem ficar em poder dos pubs por 21 dias. O estabelecimento pode marcar o horário de chegada dos clientes e quanto tempo ficaram ali. Se alguém se negar a passar os dados, o pub pode escolher não atender essa pessoa.

Foi essa regra que permitiu que ao menos três pubs fossem fechados preventivamente ao longo da semana, de acordo com o jornal London Evening Standard, depois que frequentadores testaram positivo para Covid-19, ainda que de maneira assintomática.

Tanto aqui, como no Rio, Londres ou em qualquer lugar, está claro: bebida alcoólica e distanciamento social não é uma boa combinação. E não basta que os estabelecimentos estejam de acordo com os novos protocolos. Enquanto as pessoas estiverem desrespeitando os as regras, mais distantes ficaremos do balcão do bar. Eu prefiro esperar.

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iFood “fecha” restaurantes abertos e prejudica estabelecimentos http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/ifood-fecha-restaurantes-abertos-e-prejudica-estabelecimentos/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/ifood-fecha-restaurantes-abertos-e-prejudica-estabelecimentos/#respond Sat, 04 Jul 2020 07:00:38 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=731 Terça-feira, 30 de junho. A última manhã do mês já se apresentava como o prenúncio de um dia difícil para Livia Mannini, gestora do histórico Bar do Alemão, em São Paulo: a única pessoa de sua desfalcada equipe de cozinha avisou que daria o cano. Livia respirou fundo e tratou de encontrar um plano B para dar conta de abrir o bar às 11h e, assim, atender aos pedidos via Rappi e iFood, os aplicativos de delivery com os quais vem trabalhando para garantir a sobrevivência desse que é um dos baluartes do samba e da MPB na cidade, desde 1968.

Terça-feira, 30 de junho, 12h30. Apesar do perrengue, o Bar do Alemão conseguira abrir a porta no horário, com a cozinheira substituta a postos para preparar os pratos disponíveis no dia, entre os quais o delicioso páprika schnitzel da casa. Feita com filé de pernil de porco empanado e regado ao molho de paprica picante, a receita é acompanhada de duas batatas ao murro (R$ 37,90). A versão para duas pessoas leva os mesmos itens, em dobro, e custa R$ 69,84 pelo iFood.

Passada uma hora e meia de expediente, porém, o bar não havia recebido nenhum pedido sequer pelo iFood. Nem de páprika schnitzel, nem de filé à parmegiana (outra especialidade do cardápio) nem de nenhum outro item listado no menu do aplicativo.

Pudera. Para o usuário que quisesse pedir algum prato do Bar do Alemão naquele dia e horário, o iFood mostrava que o estabelecimento estava “Fechado”, conforme podemos ver na foto da tela do aplicativo tirada às 12h37 do dia 30 de junho. Mas estava aberto. Só que para o iFood, repito, estava fechado. Sendo que estava aberto, às 12h37 da terça-feira, dia 30 de junho.

Tela do iFood que aparece ao usuário: restaurante fechado, mesmo estando aberto / Foto: MIguel IcassattiPor que isto aconteceu? Foi o que o blog quis saber. Primeiramente, falamos ao telefone, no mesmo dia, com o Bar do Alemão. “Estamos abertos desde as 11 horas”, garantiu Livia Mannini.

Entramos em contato com o iFood,na quarta-feira, 1º de julho, 11h03, por e-mail. Perguntamos o seguinte:

“Fiz uma pesquisa ontem, às 12h30, em busca de um bar que estava aberto desde 11h, e apareceu no meu app como ‘fechado’. Por que isso aconteceu?”

A resposta, recebida pelo blog às 15h23 de ontem, dia 2 de julho, também por e-mail, foi esta:

“Os horários de abertura são determinados pelos próprios estabelecimentos. Como um último recurso, em casos críticos em que o restaurante não consegue acompanhar a demanda ou na área específica os entregadores já estiverem com alta taxa de ocupação, essa medida é tomada momentaneamente para equilibrar a oferta e demanda. Isso evita grande impactos para os restaurantes, tanto em sua operação como em avaliação de clientes que poderiam ter um nível de experiência ruim.”

Opa! Se bem entendemos, o iFood assume que “fecha” o estabelecimento, mesmo que esse esteja aberto. Só que nem o estabelecimento nem o usuário ficam sabendo disso. E a justificativa acima cai por terra, afinal, ao ver que o bar está fechado, o usuário é induzido a procurar outra alternativa e aquele bar perde uma possível venda.

“A informação tem de ser clara, precisa, adequada e ostensiva. O estabelecimento está inacessível pelo aplicativo. Não está fechado. É esta a informação que deveria ser divulgada: estabelecimento aberto e não-acessível no momento”, informa ao blog o diretor-executivo do Procon-SP, Fernando Capez , que foi designado secretário de Defesa do Consumidor do Estado, por um período de 120 dias, desde 9 de abril, entre as medidas do governo para o combate ao coronavírus.

Essa situação, segundo Fernando Capez, pode configurar prática abusiva por parte do iFood, por atentar contra o direito de informação do consumidor. E pode caber penalidade: multa proporcional ao faturamento da empresa, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor.

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel-SP), junto a donos de 300 bares e restaurantes na cidade de São Paulo, divulgada na sexta-feira, 19 de junho, mostra que 80% dos que têm parceria com os aplicativos estão insatisfeitos. Eles reclamam das taxas abusivas – 27% a 30%, a depender do app – e da retirada de muitos estabelecimentos do app em horários de grande movimento, impedindo o cliente de efetuar o pedido.

É a chamada “área reduzida”, recurso que os apps usam, segundo eles próprios, para equilibrar oferta e demanda. Segundo a assessoria de imprensa do iFood, “durante períodos de alta demanda, caso o restaurante não consiga acompanhar o movimento ou se, em determinado momento, os entregadores localizados na área estiverem com alta taxa de ocupação, o iFood reduz o raio de entrega dos restaurantes que atuam no modelo full service até que seja possível equilibrar a demanda. Dessa forma, evitamos impactos na operação do restaurante, em suas nas avaliações, bem como na experiência dos clientes”.

Só faltou combinar com os bares e restaurantes. “O cliente vai fazer o quê? Dar nota zero ao bar no app, esculachar nas redes sociais e cancelar o pedido”, diz Livia Mannini. “É assim diariamente…”

Outro recurso, no mínimo controverso, adotado pelos aplicativos em horário de muito movimento, é o de “convidar” os motoboys a se dirigirem aos bairros que estão com alta demanda, conforme podemos ver na reprodução da tela do Rappi, capturada de um smartphone de um motoboy:

Se por um lado os motoboys vão aonde pode haver mais oferta, esse mensagem acaba, na prática, por esvaziar outras áreas.

Na manhã de hoje, o Bar do Alemão abriu a porta às 11h10. Recebeu dois pedidos pelo iFood às 11h29 e um terceiro, às 12h15. Às 12h19 e às 12h22, porém, voltou a aparecer como “fechado” para o usuário.

Tela do aplicativo reproduzida hoje / Foto: Miguel Icassatti

Já para o dono do restaurante, às 12h28, sinalizava que estava sob “área reduzida temporariamente”.

Tela de gestão do aplicativo dos bares e restaurantes / Foto: reprodução

Mas o Bar do Alemão, fundado há 52 anos, que já recebeu em suas mesas Beth Carvalho e Paulinho da Viola, entre outros importantes nomes da música brasileira, está aberto. E como diz o lema do bar, que leva o nome de um disco lançado em 1975 por Paulo César Pinheiro, Marcia e Eduardo Gudin: “o importante é que nossa emoção sobreviva”.

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Por que a reabertura dos pubs no Reino Unido é a melhor notícia da pandemia http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/06/26/por-que-a-reabertura-dos-pubs-no-reino-unido-e-a-melhor-noticia-da-pandemia/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/06/26/por-que-a-reabertura-dos-pubs-no-reino-unido-e-a-melhor-noticia-da-pandemia/#respond Fri, 26 Jun 2020 07:00:03 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=720

(Getty Images)

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou esta semana que integrantes de famílias diferentes poderão se reunir em ambientes fechados, a regra de distanciamento social de 2 metros será reduzida pela metade e os pubs poderão reabrir. Tudo isso a partir 4 de julho.

Nos pubs, porém, não será permitido ao cliente encostar-se no balcão. Apesar dessa limitação e de ser restrita ao Reino Unido, a reabertura dos pubs é a melhor notícia que o mundo ganhou até aqui desde o início da pandemia – esperamos que a vacina contra o coronavírus seja a outra.

E é a melhor notícia porque traz um sinal de esperança para a humanidade, afinal, o pub é uma de suas grandes invenções. Os restaurantes por quilo – uma criação brasileira! –, e os bufês de café da manhã de hotel talvez sejam coisa do passado. Mas os pubs, oh, Lord, renascerão.

O “British Pub” não é simplesmente um lugar para beber uma cerveja ou um drinque qualquer. Para a cultura dos britânicos é um ponto de convívio social. Em muitas das aldeias e vilarejos pontilhados pelo interior de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, eles têm o papel de centro aglutinador da comunidade. Tanto (ou mais) quanto uma igreja, um boteco, uma padaria, a casa de nossos pais.

No passado, cervejarias e tavernas tiveram autorização para hospedar e oferecer comida e bebida aos forasteiros mediante o pagamento de um valor – não é por acaso que “pub” seja a corruptela de “Public House” (ou “Casa Pública” em tradução livre). Os primeiros teriam surgido há 2.000 anos. Em meados do século XVI, teriam havido cerca de 19.000 desses estabelecimentos na Inglaterra e no País de Gales: um pub para cada 200 britânicos – hoje seria um para cada 1.000 súditos da Rainha Elizabeth II. Em meados do século XVII, alguns chegaram até a emitir moedas próprias, que os donos podiam trocar por libras esterlinas.

Para nós, um pub não traz toda essa simbologia embora, sim, seja um estilo de bar que nos serve nos momentos de celebração, quando juntamos os amigos, e mesmo nos de introspecção, quando queremos simplesmente tomar um pint de Guinness ao balcão.

Lembro-me que – mas não sei o porquê – peguei um blazer emprestado de um amigo quando, aos 17 anos, fui pela primeira vez ao Victoria Pub, finado endereço na Alameda Lorena, no bairro paulistano dos Jardins. Mais velho, vim a beber um Irish Coffee dos bons no Finnegan’s Pub, em Pinheiros, um herói da resistência na noite paulistana.

Em Garibaldi, cidade na Serra Gaúcha famosa pela produção de bons espumantes nacionais, estive por duas vezes no mais improvável dos pubs brasileiros, o Bar do Joe, onde me esgoelei ao som de bandas cover, que só perde em memória afetiva para o Downtown Pub, no centro histórico de Recife, que conheci em 1997. Devo ser o não-recifense a mais vezes ter colocado meus pés ali, conforme podem atestar meus amigos Emerson e Carol.

De acordo com o jornal londrino The Guardian, o próprio Boris Johnson confessou sua ansiedade para voltar a um pub. É óbvio que, tanto lá quanto cá, autoridades estão sendo pressionadas pela retomada dos diversos setores da economia. Questionado se não poderia recair sobre si a culpa por um novo aumento de casos de Covid-19 por causa da reabertura dos pubs, ele disse que “sim, é claro, eu tenho responsabilidade, o governo tem responsabilidade por essas decisões. Somos gratos aos nossos cientistas por seus conselhos mas temos de tomar decisões”. E garantiu que não hesitará em recuar se o número de casos voltar a crescer.

Acrescento que os frequentadores de pubs terão também sua responsabilidade. Eles deverão, segundo o The Telegraph, de deixar anotados no pub seus dados pessoais e horário em que estiveram ali, para fins de futuro rastreamento, se necessário. Deverão manter a distância regulamentar, usar máscara, seguir procedimentos de higiene, tais quais os staffs dos próprios pubs. O monitoramento por parte das autoridades, por sua vez, terá de ser impecável.

É um risco? Sem dúvida, mas para um povo que conseguiu domar os hooligans e enfiar no xadrez muitos daqueles maus torcedores do futebol, talvez seja um laboratório para uma situação com a qual tenhamos que lidar em lugares de convívio social em qualquer parte do mundo, e por tempo indeterminado.

Sem contar que o Reino Unido ocupa o segundo lugar no ranking de testes de detecção de COVID-19, com 122.422 testes para cada milhão de habitantes, enquanto no Brasil essa relação é de 12.603 para cada milhão, o que indica que a chance de subnotificação aqui seja enorme.

Esta é a principal razão pela qual discordo da reabertura dos bares em São Paulo, prevista para segunda-feira, 29 de junho – cinco dias antes do que no Reino Unido. Foi o que disse o prefeito Bruno Covas (PSDB) ontem, em uma live do Banco Itaú. Ele condiciona a reabertura dos estabelecimentos à evolução de fase da cidade para a categoria amarela, de acordo com o Plano São Paulo, imposto pelo governo do Estado.

O setor de bares propõe que os estabelecimentos mantenham distância de 1,5 metro entre as mesas e de 1 metro entre as cadeiras. Já o Plano São Paulo prevê atendimento apenas em casas que tenham mesas em área externa, mantidas essas e outras ações mencionadas em um protocolo.

Mais prudente para nós seria acompanhar o modelo inglês, torcer para que dê certo por lá e adaptar para a nossa realidade.

Sorte dos britânicos, que em breve poderão também sentarem-se ao balcão. Mais um pouco, erguerão brindes. A Rainha Elizabeth II, posso apostar, decerto tirará suas luvas e irá segurar um pint de red ale no The Argyll Arms, ali nos arredores de Oxford Circus, que já está aceitando reservas, aliás para o dia D.

Enquanto isso, aqui seguimos com a máscara a sustentar nosso queixo.

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Vizinha a botecos, igreja em Madri acolhe fieis e boêmios até de madrugada http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/06/12/vizinha-a-botecos-igreja-em-madri-acolhe-fieis-e-boemios-ate-de-madrugada/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2020/06/12/vizinha-a-botecos-igreja-em-madri-acolhe-fieis-e-boemios-ate-de-madrugada/#respond Fri, 12 Jun 2020 15:35:15 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=713

Igreja de San Anton, no bairro boêmio de Chueca: aberta 24 horas e possíveis restos mortais do padroeiro dos namorados / Foto: Miguel Icassatti

A mais remota lembrança que tenho do dia de Santo Antônio, 13 de junho, deve datar de 1979 ou 1980, por aí. Foi quando vi, aos 4 ou 5 anos de idade, um frade franciscano enfiado em seu hábito marrom, na calçada da rua Hannemann, à esquerda da Igreja de Santo Antônio do Pari, a aspergir água benta nos transeuntes e incautos, entre os quais… eu:

– Olha, mãe, o Padre Anchieta!

Um axé para Anchieta e os irmãos jesuítas, sem os quais talvez São Paulo (a cidade) não existisse, mas Santo Antônio, São Francisco e Gobbo é que são meus guias espirituais, tenho certeza. Sabe aquela dose de cachaça, aquela onda de cerveja que ultrapassa a parede do copo, e que são vertidas “para o santo”? Pois é: as minhas são sempre dedicadas aos dois – embora Gobbo prefira um valpolicella e São Francisco talvez prefira um gole de um vermentino de sua Úmbria natal. De alguma maneira, eles viajam comigo e posso comprovar:

Em 2015, a caminho de Portugal, passei dois dias e uma noite em Madri. Foi um breve reencontro com esta magnífica cidade, depois de nove anos (eu teria uma passagem mais breve ainda, de míseras três horas, em 2018). Era mês de maio, quase verão na Europa, e os dias primaveris já estendiam sua luz até quase 9, 10 da noite, num convite natural a perambular pelas ruas e, no meu caso, pelos bares. Prevenido, hospedei-me em Chueca, bairro central e turístico que reúne a comunidade gay, hipster e foodie, em especial, graças aos bares e aos mercados de San Ildefonso e de San Antón (olha o santo aí…).

Casa Toni, em Madri: boteco para ir antes da missa / Foto: Miguel Icassatti

Nessa única noite por lá, depois de uma longa jornada que havia começado no Museu Reina Sofia e se estendeu a uma unidade da rede de bares Museo del Jamón, aos dois mercados e mais ao fantástico Mercado de San Miguel, ao turístico complexo de restaurantes Platea Madrid, que ocupa o prédio de um antigo cinema na Plaza Colón, e a um pit-stop em companhia de umas iscas de pulpo a la plancha na deliciosa Casa Toni, fiz uma breve pausa e recomecei a movida no El Tigre.

Uma vez em Madri, fiz como os madrilenhos: encostei meu cotovelo esquerdo no balcão e pedi uma caña (copo de cerveja). Segundos depois, ela veio, acompanhada de um petisco, no caso, umas patatas bravas. Mas poderia ter sido um pedaço de tortilla, um croquete de jamón – taí uma cortesia, não canso de dizer, que poderia ser copiada em bares do mundo todo. Deixei uma moeda de 2 euros (a caña custava 1 euro) e segui para La Bodega Ardosa, um símbolo local, em atividade desde 1892. Ali bebi um copo de vinho Rioja no balcão, que dessa vez foi-me entregue com um pratinho coberto por um naco de pão e umas azeitonas – em 2018, durante uma conexão aérea de três horas, beneficiei-me do fato de que o aeroporto local fica a apenas 20 minutos do centro da cidade e arrisquei uma bate-e-volta até lá. Dessa vez, meu copo de Rioja foi amparado por uma fatia de tortilla.

Bodega La Ardosa, em Madri: a dois passos da Igreja de San Antón / Foto: Miguel Icassatti

De volta a 2015: naquela noite de segunda para terça-feira, quase 2 da manhã, resolvi caminhar da Bodega ao hotel, quando deparei-me com a Igreja de Santo Antônio (San Antón) aberta. Um tanto incrédulo, fiz o sinal-da-cruz e, lentamente, comecei a caminhar pelo corredor lateral para que pudesse contemplar os pequenos altares . Até que cheguei àquele dedicado a São Valentim, no qual avistei uma câmara dentro da qual estariam os restos mortais do santo.

De acordo com a tradição católica, São Valentim foi um sacerdote que viveu no século III, quando meio mundo estava sob o domínio do império romano. Por determinação do imperador Claudio II, os soldados não podiam casar-se, pois o líder acreditava que os solteiros eram mais aptos à guerra. Mas Valentim celebrou diversos casamentos desses guerreiros, até que foi descoberto e decapitado em 14 de fevereiro do ano de 270. Viria a tornar-se o padroeiro dos namorados, tanto é que, em boa parte dos países do hemisfério Norte, os pombinhos celebram nessa data o Valentine’s Day (Dia dos Namorados).

Há quem questione a originalidade das relíquias de São Valentim expostas no templo madrilenho, mas o curioso é que a urna com os ossos do santo pode ser vista por quem quiser, 24 horas por dia, 365 dias por ano. A igreja de San Antón esteve assim, sempre aberta, a pedido do Papa Francisco, desde 3 de março de 2015. Foi fechada em 10 de março de 2020 e assim permanece, por causa da pandemia da covid-19.

Mas os boêmios e devotos não estão desamparados. Se o rebanho notívago do Padre Ángel já dispunha de wi-fi, contava com sacerdotes de plantão para conferir os sacramentos a qualquer hora e podia recorrer até a um um serviço de confissão por tablet, o novo coronavírus não iria impedi-los de rezar: diariamente, às 19 horas locais (2 da tarde no Brasil), uma missa é transmitida via internet.

No Brasil, ao que tudo indica, o dia dos namorados tem sabor de jabuticaba. Celebra-se em 12 de junho, na conveniente véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro e primeiro dos três santos juninos. Todos os anos, são celebradas missas de hora e hora e a paróquia localizada na região central de São Paulo recebe milhares de fieis em busca dos pães bentos, das bênçãos distribuídas pelos frades e, quem sabe, de um casamento. Também por causa do protocolo de prevenção à covid-19, a Igreja de Santo Antônio do Pari, em São Paulo, permanecerá fechada neste 13 de junho.

Alguns matrimônios terão de ser adiados.

Vai lá:

Casa Toni. Calle de la Cruz, 14, Madri.
El Tigre. Calle de las Infantas, 30, Madri.
Iglesia de San Antón. Calle de la Horlatesa, 63 Madri.
La Bodega Ardosa. Calle de Colón, 13, Madri.

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