Boteclando http://boteclando.blogosfera.uol.com.br Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar Thu, 20 Jun 2019 15:51:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 50 anos de Stonewall e botecos para antes, durante e depois da Parada LGBT http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/20/50-anos-de-stonewall-e-botecos-para-antes-durante-e-depois-da-parada-lgbt/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/20/50-anos-de-stonewall-e-botecos-para-antes-durante-e-depois-da-parada-lgbt/#respond Thu, 20 Jun 2019 15:51:23 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=402 Neste domingo, 23, a 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo deve reunir 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista. O evento terá 19 trios elétricos e atrações como as cantoras e DJs Lexa, Mc Pocahontas, Luisa Sonza e a ex (ou eterna?) Spice Girl Mel C. O tema da festa, este ano, é a celebração dos 50 anos do que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall, uma marco na luta do movimento gay.

Em meados dos anos 1960, o Stonewall Inn, no Village, era um bar do underground nova-iorquino que reunia gays, moradores de rua, pobres, mafiosos – consta que os donos do Stonewall Inn pagavam uma grana para que a casa pudesse funcionar sem maiores problemas – e todo tipo de gente que vivia à margem do glamour da Madison Avenue.

Acontece que o Stonewall Inn vendia bebida alcoólica e não tinha autorização para isso. Na madrugada de 28 de junho de 1969, esse foi o pretexto da polícia de Nova York para invadir o local. Nove policiais entraram na casa, prenderam funcionários, agrediram e levaram dali clientes, sobretudo travestis. Ao serem conduzidas à viatura, algumas dessas pessoas debocharam dos policiais, fazendo caretas, por exemplo, e a violência recrudesceu.

Do lado de fora, uma multidão começou a atirar moedas, pedras e garrafas nas viaturas. Os policiais montaram um abarricada e ficaram encurralados dentro do bar, que começou a pegar fogo. Pegaram uma mangueira para conter as chamas e ao mesmo tempo jogar água para dispersar os manifestantes.

Bar Balcão: um dos bares mais legais de SP / Fotos. Miguel Icassatti

 

Nos dias seguintes, os frequentadores que, por assim dizer, se escondiam no Stonewall Inn passaram a se reunir nos arredores, fazendo beijaços, abraçaços, marchando e exigindo direitos. Em 2016, o presidente Barack Obama tombou o local como o primeiro monumento em homenagem aos direitos dos cidadãos americanos LGBTQ.

Voltando à Paulista de 2019, a Parada do Orgulho do LGBT é uma das datas mais movimentadas do calendário paulistano. Segundo dados do Ministério do Turismo, chega a 90% a taxa de ocupação dos hotéis no centro e na região da Paulista. Em 2018, de acordo com o prefeito Bruno Covas, o evento movimentou 288 milhões de reais na economia da cidade.

Para além dos números, a Parada é uma festa. Durante os cinco anos em que morei no Baixo Augusta, a três quarteirões da Avenida Paulista, assisti a algumas edições do evento, tanto na companhia de amigos, como na de minha mulher.

Bares e restaurantes não faltam no entorno – e não estou aqui me referindo a pontos exclusivamente LGBT, mas, como direi, democráticos – seja para o antes, o durante e o depois da Parada, embora eu recomende as duas primeiras situações.

#ficaadica, o mundaréu colorido vai lotar esses endereços, por isso vale a pena chegar cedo e explorar alguns pontos um pouquinho mais distantes, a quatro ou cinco quadras da Paulista, tanto para o lado do centro como para os Jardins.

As duas unidades do Sujinho, uma de cada lado da Rua da Consolação, por exemplo, têm a vantagem de ficar no caminho dos trios elétricos. Haja bisteca.

Naquele quadrilátero entre as ruas Luís Coelho, Bela Cintra, Matias Aires e Frei Caneca, está fincado uma espécie de Baixo Minas, em pleno Baixo Augusta, com várias opções de cozinha das alterosas: Segredos de Minas, O Mineiro, Boteco de Minas e Terraço de Minas.

Haja torresmo.

O Tubaína Bar – de quem eu era vizinho – tem uma boa carta de cervejas (A Paulistânia Caminho das Índias é uma IPA vendida a 22,90 reais) e pratos redondinhos para compartilhar, como o baião-de-dois (59 reais, para três).

Do lado de lá da Paulista, quase em frente um ao outro, estão um clássico e uma boa novidade.

O primeiro é o Balcão, um dos bares mais legais desta cidade, pelo conjunto da obra, e que obra!: o amistoso balcão em ziguezague, o bom cheesesalada, a enorme de tela de Roy Lichtenstein, o quadro pintado pelo Jô…

Caipirinha Bruta, do Candeeiro

O recém-aberto Candeeiro, por sua vez, tem no comando o barman Zulu, que criou uma variada carta de drinques, que privilegia variações de caipirinha e outros drinques feitos com cachaça. São exemplos a Bruta (Cachaça 1000 Montes, limão rosa, mel e jurubeba) e a caipirinha Três Limões (26 reais).

Coxinha com massa de mandioquinha, do Candeeiro

Para comer, vale provar a porção de coxinha com massa de mandioquinha (22 reais a porção de 3 unidades) e a costela assada com arroz carreteiro (96 reais, para duas pessoas). Neste domingo, aliás, o DJ Leo Marinho, da Love Story, vai tocar música eletrônica na casa. Haja pick-up!

Vai lá:

Balcão. Rua Dr. Melo Alves, 150, Cerqueira César.

Boteco de Minas.Rua Matias Aires, 86, Consolação.

Candeeiro. Rua Dr. Melo Alves, 205, Cerqueira César.

O Mineiro. Rua Matias Aires, 74, Consolação.

Segredos de Minas: Rua Bela Cintra, 919, Consolação.

Stonewall In. 53 Christopher Street, Greenwich Village, Nova York.

Sujinho. Rua da Consolação, 2063, Consolação.

Terraço de Minas: Rua Haddock Lobo, 179, Consolação.

Tubaína. Rua Haddock Lobo, 74, Consolação.

 

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Dante e Astor, NY e SP http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/dante-e-astor-ny-e-sp/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/dante-e-astor-ny-e-sp/#respond Thu, 13 Jun 2019 22:13:03 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=396

Negroni do Dante NYC: neste fim de semana, no Astor / Foto: dante-nyc.com

Está lá, na capa do site do Dante, um dos grandes bares nova-iorquinos: de 15 a 18 de junho, a casa apresenta sua primeira versão pop-up “in one of our all time favorite cities, São Paulo”. Nesses quatro dias, está previsto o desembarque do barman Naren Young no balcão do Astor.

Considerado o melhor bar de Nova York em 2018 pela revista Time Out e o 9º melhor bar do mundo na lista World’s 50 Best Bar, o Dante NYC tem mais de um século de história. Foi aberto no Village, em 1915, como Caffé Dante, e funcionou também como trattoria, aberto todos os dias e durante o dia.

É historicamente conhecido pela coquetelaria, em especial graças às versões do Negroni, e vem recebendo boas resenhas desde que o ponto da McDougal Street foi reformado, em 2014 – aliás, está prometida até uma mudança cenográfica do ambiente do Astor, durante os quatro dias em que a casa paulistana recebe os gringos.

Da lista de drinques apresentadas no Astor, constam onze receitas, entre as quais quatro de Negroni – o chope Sbagliato, por exemplo, mistura a cerveja Wäls 42 com gim, vermute tinto, Campari e laranja; 30 reais a dose – e uma versão do Gibson, que é assim um Dry Martini com cebola em conserva, em vez de azeitona. Trata-se do Upside Down Dirty Gibson, feito com vermutes seco e branco, gim, cebola em conserva e bitter com absinto (34 reais).

Vou lá pedir o meu, stirred not shaken.

Vai lá:

Dante no Astor. Rua Delfina, 163, Vila Madalena.

Quando: sábado (15), segunda (17) e terça (18), 18h/22h; domingo (16), 12h/16h.

 

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Leiden e o gim que não bebi com meu avô http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/leiden-e-o-gim-que-nao-bebi-com-meu-avo/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/leiden-e-o-gim-que-nao-bebi-com-meu-avo/#respond Fri, 07 Jun 2019 03:34:40 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=390

Leiden: terra natal do gim / Foto: Holland.com

 

Leiden é uma cidade holandesa de 121 mil habitantes, nos arredores de Haia. Ali nasceu o grande pintor e gravurista Rembrandt (1606-1669) – aliás, há cinco gravuras dele expostas na Fundação Ema Klabin Casa Museu, na esquina da Avenida Europa com a Rua Portugal.

De Leiden partiu em 1620 rumo à América do Norte um grupo de refugiados religiosos ingleses, os “Pilgrims Fathers”, que iriam fundar a colônia de Plymouth, no futuro estado da Nova Inglaterra, território que mais tarde daria origem aos Estados Unidos.

A Universidade de Leiden, fundada em 1575, é a mais antiga da Holanda e, ainda hoje, uma das mais prestigiadas instituições de ensino do mundo. Foi em seus laboratórios – segundo consta no livro Os Segredos do Gim, de João Osvaldo Albano do Amarante, Mescla Editorial, lançado em 2016 –, que, no século XVII, o professor alemão Franciscus Sylvis de la Boe produziu um medicamento a base de zimbro para tratar dores de estômago, artrite, cálculo biliar e gota. Esse remédio era o gim, que mais tarde viria a ser popularizado na Inglaterra.

De acordo com a legislação brasileira, “gim é uma bebida com graduação alcoólica de 35% a 54% obtida pela redestilação do álcool etílico potável de origem agrícola” (no Brasil, por exemplo, produz-se gim a partir da cana de açúcar), na presença de bagas de zimbro, com adição ou não de outra substância vegetal aromática. Na Europa, há gins que ultraassam esse limite alcoólico, como é o caso do Blackwood’s Vintage Dry Gin, que tem 60% de graduação alcoólica.

Negroni: clássico feito com gim / Foto: Miguel Icassatti

Veio da Europa, aliás, e mais precisamente de Portugal e da Espanha, a atual onda de consumo de gim nos bares brasileiros. Base de drinques clássicos como o Dry Martini e o Negroni –, a bebida vem sendo muito consumida nesses países na forma de Gim Tônica, também um drinque clássico homologado pela Internation Barmen Association (IBA).

Na cidade do Porto, por exemplo, o Gin House segue firme e forte desde 2014, ao menos, quando lá estive pela primeira vez, com sua impressionante oferta de 200 marcas de gim.

Em São Paulo, como não poderia deixar de ser, pipocaram bares especializados na bebida, casos do G&T, do Só Shots e do Periquita & Gin Club.

E neste sábado, 8 de junho, acontece na cidade pela quarta vez a festa World Gin Day, das 16h à meia-noite, na Casa Bossa (Shopping Cidade Jardim). Trata-se de uma festa regada a jazz ao vivo e DJ sets que celebra o dia mundial do gim, comemorado em 11 de junho. Com ingressos a 60 reais, o evento reunirá dez barmen, que irão preparar drinques com diferentes marcas de gim. Em paralelo, acontecem palestras e workshops, nos quais é possível adquirir mais conhecimento sobre a bebida.

Voltando a Leiden, foi lá que nasceu meu avô Antonius, no ano de 1905. Ele morreu em São Paulo, aos 83 anos. Jogávamos futebol de botão na mesa da sala – eu sempre roubava para que ele ganhasse de mim – mas ele se foi antes de ter me dado a honra de acompanhá-lo em um Dry Martini. Lembro que ele gostava de café coado e de uma cerveja.

Vai lá:

World Gin Day. Sábado, 16h à 0h, Casa Bossa (Shopping Cidade Jardim), worldginday.com.br

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Se essa rua, se essa rua fosse um boteco… http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/se-essa-rua-se-essa-rua-fosse-um-boteco/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/se-essa-rua-se-essa-rua-fosse-um-boteco/#respond Thu, 30 May 2019 19:05:44 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=385

Frango a passarinho da Camelo: clássico / Foto: divulgação FB

Se a Rua Pamplona fosse um boteco, seria um boteco dos bons, um clássico. Foi a amiga Sofia Carvalhosa quem, há uns bons anos – acho que foi quando a Vinci, loja de vinhos, passou a ocupar um imóvel nessa rua, no terceiro quarteirão depois da Paulista, na rebarba dos Jardins –, mencionou o charme da Pamplona.

No que concordei. As calçadas, sobretudo nesse lado dos Jardins e embora em declive, são gostosas de caminhar, o comércio de rua parece resistir bravamente ao e-commerce – tem loja de roupas, perfumaria, mercadinho, açougue, farmácia, relojoaria, armarinhos – e opções nas quais comer e beber não faltam. Por duas vezes, até, quase morei nela, em dois endereços diferentes, um bem no comecinho, ali na Bela Vista, e outro lá embaixo, quase em frente ao Shopping Jardim Pamplona.

O Jardim Pamplona, aliás, ocupa um logradouro afetivo. Ali ficava o Eldorado, que, há quarenta anos, quando minha mãe dava aula em uma escola no Itaim Bibi, era o super ou, melhor, hipermercado no qual nós fazíamos a compra do mês. Meu pai me buscava na escola, cruzávamos a cidade pela Nove de Julho e baixávamos ali. Antes da compra – ou, talvez, enquanto minha mãe ia às compras eu e meu pai ficávamos no balcão do restaurante comendo filé com fritas. E eu bebia também Fanta Limão.

O balcão do restaurante do Eldorado foi meu primeiro boteco naquela rua.

Uns vinte anos atrás, já de posse do certificado de reservista, passei a fequentar a Osteria Generale e da Trattoria do Sargento, com especial predileção por essa casa de patente mais baixa. Jovem, durango e da paz, eu gostava de ver as camisetas de times de futebol penduradas, bem como as fotos de fregueses ilustres nas paredes. À mesa, o espaguete à calabresa e o penne à matriciana, entre outras massas cobertas de molhos densos e amanteigados garantiam a mim boa dose de carboidrato a bom preço.

Já com um pouco mais de grana no bolso, passei às pizzas da Camelo, uma das minhas preferidas até hoje na cidade. Mas o quê de boteco que existe ali, sem dúvida, vem da deliciosa porção de frango a passarinho – pedida obrigatória, assim como o bom chope. A partir daí, beleza, vamos ao cardápio de pizzas.

Capa do cardápio do Cedro do Líbano: esfiha old-fashioned / Foto: Miguel Icassatti

No quarteirão acima, o restaurante Cedro do Líbano permanece servindo boas esfihas, assim como é o quibe frito, e ótima abobrinha recheada. O salão old-fashioned, no qual se destacam lindas fotos de cidades libanesas, é um convite para se fazer o repasto ali mesmo. Mas se o pedido for para viagem, não será nada mau ficar no balcão e pedir um chope.

A quem levou em conta minha sugestão de um passeio a pé pela Pamplona será impossível não reparar na fachada do Alfama dos Marinheiros – um restaurante que é craque no merchand, quem assistia a Mesa Redonda do Avallone haverá de concordar comigo –, com aquele enorme aquário e o porteiro na escada a receber os clientes, devidamente fardado como o Popeye.

Presunto cru do Alfama dos Marinheiros / Foto: divulgação FB

Na forma e na hora de entregar a conta, o Alfama está longe de ser um boteco, é verdade, mas para aqueles dias de bolso cheio e sentimento nostálgico, vale a pena estacionar numa das mesas e pedir um prato de presunto cru ou uma porção de bolinho de bacalhau, devidamente acompanhados de uma taça de vinho. Por instantes, a Pamplona será Lisboa.

Vai lá:

Alfama dos Marinheiros. Rua Pamplona, 1285, Jardim Paulista.

Camelo. Rua Pamplona, 1873, Jardim Paulista.

Cedro do Líbano. Rua Pamplona, 1701, Jardim Paulista.

Osteria Generale. Rua Pamplona, 957, Jardim Paulista.

Trattoria do Sargento. Rua Pamplona, 1354, Jardim Paulista.

Vinci Vinhos. Rua Pamplona, 917, Jardim Paulista.

 

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Na Virada, Boteco é muito mais do que cultura http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/14/na-virada-boteco-e-muito-mais-do-que-cultura/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/14/na-virada-boteco-e-muito-mais-do-que-cultura/#respond Tue, 14 May 2019 13:27:26 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=368

Choripán artesanal da Linguiçaria Real Bragança / Foto: divulgação

Pense rápido e diga: o que é mais gostoso, a coxinha feita pelo chef Carlos Bertolazzi ou o bolinho de carne do Bar do Luiz Fernandes? O choripán da Linguiçaria Real Bragança ou o arais, aquele sanduíche de kafta inventado pelo Carlinhos, boteco armênio localizado no bairro do Pari?

Agora, pensando bem, não responda ainda e deixe para tirar a prova in loco, neste fim de semana, durante o festival Urban Taste Cultura de Boteco, que acontece nos jardins do Museu da Casa Brasileira. Apresentado pelo Museu da Casa Brasileira e pelo Urban Taste, plataforma de cultura urbana do portal UOL, o evento acontece no sábado e no domingo e faz parte da programação oficial da Virada Cultural 2019.

Bolinho de bacalhau da Academia da Gula / Foto: divulgação

O Urban Taste Cultura de Boteco vai reunir dez cozinheiros e botecos tradicionais e tem entrada gratuita. O verdadeiro dream team da botecagem foi reunido por este que vos escreve, por meio da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco (@spculturadeboteco) e tem também a proposta de conectar o público da Virada com os bares mais autênticos de São Paulo, mostrando sua importância para a gastronomia, a cultura, o turismo e a economia criativa da cidade – sim, há tudo isso e muito mais por trás daquele petisco que o garçom entrega a você, de bandeja.

Acarajé da Rota do Acarajé / Foto: divulgação

Os dez bares vão estar reunidos na Vila dos Botecos, que ocupará o centro do gramado do Museu da Casa Brasileira, uma espécie de oásis urbano em meio ao ritmo cada vez mais frenético da Avenida Faria Lima. Ao redor, serão montados um Beer Garden, um Lounge de Vinhos e um Gin Bar, além de um mercadinho com produtores artesanais de queijo, tartes francesas, ratatouille e conservas, bem à moda dos conterrâneos de Asterix.

Croquete de carne do Boteco do Carmo / Foto: Leo Feltran

Workshops sobre drinques e cerveja, além de um espaço kids e shows de forró, MPB e rock acústico estão programados tanto para o sábado quanto para o domingo – afinal, boteco é muito mais que cultura, certo?

Vai lá:

O quê: Urban Taste Cultura de Boteco
Quando: sábado, 18, das 12h às 22; e domingo, 19, das 12h às 20h.
Onde: Museu da Casa Brasileira (Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano).
Quanto: entrada grátis.

Vila dos Botecos / Foto: divulgação

Botecos confirmados:

Academia da Gula: a portuguesa Rosa Brito vai levar os impecáveis bolinhos de bacalhau que fizeram a fama de seu boteco na Vila Mariana.

Bar do Luiz Fernandes: o clássico representante da ZN apresenta o trio de petiscos preparado pela Dona Idalina, composto dos bolinhos de carne, basco (de bochecha bovina) e o carequinha, uma versão do bolovo.

Boteco do Carmo: A vovó Do Carmo, professora e cozinheira natural de Belo Horizonte, vai vender suas tradicionais empadinhas e croquetes.

Cantina Piovanelli: o bem servido sanduíche de porchetta é a receita do chef Ailton Piovan, de São Roque.

Cariri: instalado no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no bairro do Limão, o restaurante vai vender uma farta porção de baião-de-dois.

Carlinhos: o arais, uma invenção do saudoso sírio-armênio Missak Yaroussalian, é a grande atração desta casa do bairro do Pari.

Chef Carlos Bertolazzi: o midiático cozinheiro e sócio do ótimo restaurante italiano Zena Caffè vai acender o tacho e fritar as sensacionais coxinhas modeladas por ele e pela mãe, Dona Vera.

Consulado Mineiro: galinhada, torresmo, feijão-tropeiro. O tradicional restaurante mineiro estará representado pela unidade aberta no Jardim Paulistano. Imperdível.

Linguiçaria Real Bragança: a chef Patricia Polatto, artesã da gastronomia, traz de Bragança Paulista o seu já famoso choripán artesanal.

Rota do Acarajé: porção de acarajé com quatro recheios, moqueca de camarão com banana-da-terra e cocada de forno com goiabada. É Bahia na veia e na alma, pelas mãos da chef Luisa Saliba.

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Beth Carvalho e os botequins de sua vida paulistana http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/beth-carvalho-e-os-botequins-de-sua-vida-paulistana/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/beth-carvalho-e-os-botequins-de-sua-vida-paulistana/#respond Wed, 01 May 2019 17:37:33 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=364

Nos Botequins da Vida, disco de 1977 / Foto: reprodução

“Ai, que bom estar aqui, que coisa gostosa! Ah, a minha vida inteira eu frequentei os botequins da vida, que é o lugar onde a gente discute… a gente discute política, a gente fala do samba, a gente ouve samba bonito… E eu fiquei mais feliz ainda porque cheguei aqui em São Paulo e encontrei um bar que é uma coisa maravilhosa… que é o Pirajá. É verdade. Vamo lá, cumpádi?”

O ano era 1999. O dia não me lembro bem, nem o Edgard, sócio do Pirajá, que foi quem me enviou pelo celular o áudio reproduzido acima, em que Beth Carvalho faz a singela declaração para, em seguida, entoar o samba “Geografia Popular”, no show Esquina Carioca, que o Pirajá organizou no Tom Brasil e no qual se apresentaram também outros bambas. Sorte a minha, que estava lá naquela noite memorável.

Disco Esquina Carioca, lançado em 2000 / Foto: divulgação Pirajá

Nesse dia, conta o Edgard, ele o Ricardo, outro sócio do bar, foram buscar Beth Carvalho no aeroporto. No caminho, ela deu logo o recado:

– Olha aqui, seus filhas-da-puta: o samba estava lá quieto, vocês que foram cutucar. Agora vocês têm obrigação com o samba, que precisa de gente inteligente, empreendedora e séria. Podem tratar de trabalhar pro samba, entenderam?

Uma vida inteira frequentando os botequins da vida, conforme contou a própria Beth, certamente rendeu – ou renderá, quem sabe? – outra passagem por este mundo devidamente documentada somente com anedotas em tão nobres estabelecimentos.

Não é à toa que, tal qual o Pirajá, outros botecos paulistanos poderiam dar sua contribuição.

Como é o caso do Bar do Alemão, vizinho do Parque Antártica, uma fortaleza da música brasileira, em especial do samba e do choro (e que serve um chope de respeito), que costumava receber a cantora depois de algum concerto que ela dava no Sesc Pompeia, também perto dali. Meu amigo Carlão jurou-me que espetacular, mesmo, foi uma roda na qual ela cantou no ‘Alemãozinho’, num pós-Sesc, madrugada adentro.

Germano Fehr, ex-comandante do Traço de União por dezoito anos, lembra que Beth Carvalho “trabalhava em horários diferentes”. Não era de beber, no máximo uma cervejinha, mas ele conta que a Madrinha do Samba, ao fim das apresentações que fazia na casa, que acabavam não antes das 4 da manhã, emendava uma roda a portas fechadas que seguia até as 10 da manhã, quando ela se retirava para descansar. Garçons, equipe de limpeza e sócios do bar compunham a privilegiada audiência daqueles momentos. “Com ela não havia distância”, diz Germano.

Foi com ela, inclusive, que o empresário conheceu Madureira e Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e os sambistas em São Mateus, na Zona Leste paulistana, o maior reduto do samba hoje em São Paulo, na opinião de Germano. “A gente chegava lá, encontrava o pessoal e começava a batucar no balde”, diz ele.

De volta àquele show lá do início deste texto, o Google me diz que aconteceu em 24 de março de 1999 e gerou a gravação do CD Esquina Carioca – Uma Noite Com a Raiz do Samba, que seria lançado em 2000, numa noite de autógrafos no próprio Pirajá. Quem conta daquela ocasião é o Edgard:

“No comecinho de 2000 fizemos uma noite de lançamento do CD Esquina Carioca, Uma Noite com a Raiz do Samba, todos os músicos presentes para uma sessão de autógrafos.

“Um dos grandes veículos, não me lembro qual, publicou uma nota sobre o evento e arrematou dizendo que haveria uma roda de samba com entrada grátis. Isso mesmo, Beth carvalho, Moacyr luz, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate e Luiz Carlos da Vila. De quebra, Quinteto em Branco e Preto. Todos se apresentando graciosamente em palco aberto à distância de um abraço.

“Amedrontadíssimos, tomamos a decisão de que não haveria música, permitiríamos apenas os autógrafos e a interação ao vivo dos artistas com o público.

“19h, lotação transbordante. Gente por todos os lados, dentro, em cima e embaixo. Enfileiramos as estrelas numa mesa comprida, organizamos a fila e iniciamos a venda dos CDs.

“Tudo corria como planejado. Já relaxados, também começamos a beber chopp. Subitamente, a Madrinha levanta, convoca o quinteto, então já completamente armado – pega o microfone e anuncia, sob o som dos primeiros acordes:

– Não sei quem falou que não ia, mas vai ter samba aqui hoje, sim.

“Daí pra frente o Pirajá quase caiu, e nós também…

“O que se seguiu, entretanto, foi histórico. Uma grande emoção revestiu o bar inteiro, quase um culto de adoração aos Deuses em que aqueles artistas se transformaram naquele instante.”

Em tempo: Nos Botequins da Vida, disco que Beth Carvalho gravou em 1977, é uma pérola da música brasileira.

Vai lá:

Bar do Alemão. Avenida Antártica, 554, Água Branca.

Pirajá. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros.

Traço de União. Rua Cláudio Soares, 73, Pinheiros.

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5 majestosos sanduíches de pernil http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/5-majestosos-sanduiches-de-pernil/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/5-majestosos-sanduiches-de-pernil/#respond Fri, 12 Apr 2019 15:46:24 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=358 Houve um tempo em que os jogadores de futebol calçavam apenas chuteiras pretas – lembro vagamente do diz-que-me-disse na época em que o Casagrande entrava em campo, 1983, acho, pisando em um par de lustrosas chuteiras brancas.

Era uma época em que o time titular entrava em campo ostentando a numeração de 1 a 11 nas costas.

A gente colecionava futebol card e ia de mãos dadas com nosso pai ao estádio – também não havia arena – na quarta à noite e no domingo à tarde.

Sanduíche de pernil da Padaria Natalina / Foto: Miguel Icassatti

Foi um tempo em que era possível ter duas torcidas dividindo os “gomos” do Morumbi, então maior estádio particular do mundo, nos clássicos Choque-Rei, Dérbi, SanSão, Majestoso.

E, como bem lembrou meu amigo Piki, um dos mais ardorosos Tricolores que conheço, chegávamos três horas antes do jogo ao estádio para comer sanduíche de pernil, em alguma daquelas barracas que ficavam enfileiradas na Praça Roberto Gomes Pedrosa. A fumaça cheirosa vinha guiando a gente por algumas centenas de metros.

Mas eis que vieram a torcida única, as chuteiras coloridas, os parças, as arenas – símbolo maior da gourmetização ludopédica –, as malditas pizzas a 10 reais. E as barracas de sanduíche de pernil sumiram.

Numa cruel e talvez impensada tentativa de emular aqueles tempos, alguns motoristas e ambulantes estacionam seus carros a certa distância do estádio e esquentam a chapa no porta-malas aberto de suas carangas para salvar uns trocados.

Às vésperas da final do Paulistão 2019, que reúne São Paulo e Corinthians no clássico Majestoso, conforme definiu o jornalista Tomás Mazzoni, de A Gazeta Esportiva, a nostalgia toma conta deste torcedor, que resolve compartilhar aqui cinco majestosos sanduíches de pernil. Vai lá:

Sanduíche de pernil do Bom Gosto / Foto: Miguel Icassatti

Bom Gosto (Rua São Bento, 525, centro). Há dez anos, ocupa o mesmo endereço do saudoso Ao Dix Bar, célebre casa que preparava sanduíches e uma famosa coxa creme. Alguns funcionários, inclusive, foram herdados e montam um sanduíche muito semelhante ao do Estadão Bar e Lanches, cuja família comanda as duas casas, aliás.

Estadão Bar e Lanches (Viaduto Nove de Julho, 193). Porque clássico é clássico e não nos deixa na mão em nenhuma hora do dia. O molho de pimenta completa perfeitamente a mistura de pão crocante mais molho com pimentão mais a carne úmida (R$ 17,00). Quando a gente consegue um naco da pururuca, é a certeza de que o dia valeu. E ainda ganha a simpatia do Zezão.

Sanduíche de pernil do Mortadela Brasil / Foto: divulgação

Mortadela Brasil (Mercado Municipal Paulistano, mezanino). No mezanino do Mercado Municipal, esse boteco prepara sanduíches colossais e também versões menores. Há uma opção com queijo provolone mas a escolha certeira é a do pernil regado com o molho do próprio assado, que, aliás, é uma receita que está na família dos donos há pelo menos 50 anos. Custa R$ 36,00 e, a bem da verdade, vale ser dividida por duas pessoas.

Padaria Natalina (Rua Sepetiba, 448, Vila Ipojuca): um endereço afetivo do bairro, a padaria serve o sanduíche de pernil (R$ 14,50) às terças e sextas. Na véspera, o proprietário, José, tempera a carne e entrega ao padeiro que, começa o expediente às 9 da noite. Depois que os primeiros pães são assados, no meio da madrugada, ele coloca o pernil no forno, por umas três horas. Na manhã seguinte, o Toninho, comandante do balcão, vai dando saída ao sanduíche, não sem antes finalizar na chapa e cobrir as lascas de carne com molho de tomate.

Sanduíche de pernil do Pompeia Bar / Foto: divulgação

Pompeia Bar (Rua Dr. Augusto de Miranda, 712, Pompeia): O José Luiz, dono do bar, supervisiona cada etapa do preparo: do tempero caseiro, receita da mãe dele, ao desfiar da carne e a montagem do sanduíche, que é servido ao lado de uma porção de batata frita. Custa R$ 25,90.

 

 

 

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Torresmo no drive-thru, no café da manhã e no bistrô http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/04/05/torresmo-no-drive-thru-no-cafe-da-manha-e-no-bistro/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/04/05/torresmo-no-drive-thru-no-cafe-da-manha-e-no-bistro/#respond Sat, 06 Apr 2019 02:07:58 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=351

Torresmo (ou barriga) do Le Jazz. Entre os bons na cidade / Foto: Miguel Icassatti

Foi minha amiga Christiane quem compartilhou num grupo de what’sapp, no início deste semana, o vídeo no qual um motorista, com aquele típico sotaque do oeste paranaense, narra e exibe uma das melhores invenções da história do Brasil: o drive-thru de torresmo.

Vamos rebobinar: cinco meses atrás e então desempregado, o cidadão londrinense Mario Aparecido lançou ao amigo Edson Francisco a ideia de fritar uns torresmos, acondicioná-los em saquinhos e vende-los a 10 reais cada um. Não em um bar, não em um restaurante, mas na calçada de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Para divulgar o negócio, a dupla montou ali um cavalete.

Durante esses cinco meses, até a sexta da semana passada, segundo uma reportagem do site Bonde, a dupla vendia 15 saquinhos por dia.

Eis que, depois que o vídeo passou a ser compartilhado nas redes sociais, o negócio bombou. Na sexta-feira e no sábado, 29 e 30 de março, a procura foi tão grande que o estoque ficou zerado. Só nesses dois dias, mais o domingo, Mario e Edson disseram ter vendido 800 quilos de torresmo.

Torresmo é daquelas coisas que mesmo sendo ruim é bom. Como o pudim. Não parece ser o caso, definitivamente, dessa iguaria londrinense. E está longe de ser o caso dos torresmos apontados neste post de junho de 2018 – sim, o assunto é e sempre será recorrente aqui no blog – bem como do torresmo, ou, melhor, do pão de torresmo produzido pela padaria Casca Grossa, em Campinas.

Nessa muito boa padaria artesanal, o pão de torresmo não é feito todos os dias. De fermentação natural, o pão tem a casca crocante, o miolo macio e bem aerado, com pedaços de torresmo (eu poderia comer isso todos os dias pela manhã).

Para além dos torresmos paulistanos citados no link acima, é legal lembrar também do torresmo do bistrô Le Jazz, em Pinheiros. Com as pontas bem crocantes e o meio mais macio, para não dizer elástico, é uma das pedidas à qual não se deve ignorar ali.

Torresmo é vida, do café da manhã ao jantar.

Vai lá:

Casca Grossa Padaria Artesanal. Rua Barreto Leme, 2384, Cambuí, Campinas.

Edinho Assados (Drive-thru de torresmo). Avenida Duque de Caxias, 2564, Leondor, Londrina, Paraná.

Le Jazz. Rua dos Pinheiros, 254, Pinheiros, São Paulo.

 

 

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Um boteco, uma foto, um livro, um filme http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/um-boteco-uma-foto-um-livro-um-filme/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/um-boteco-uma-foto-um-livro-um-filme/#respond Fri, 29 Mar 2019 23:31:57 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=347

O Británico: um bar que se entrelaça com a história de Buenos Aires / Foto: Miguel Icassatti

Estava eu ontem a procurar alguma imagem antiga de meus périplos botequeiros – eu queria, sinal dos tempos, postar um #tbt no instagram – , quando veio à minha mão, na pilha de retratos impressos em papel fotográfico no formato 10×15, a saudosa fotografia reproduzida acima.

Trata-de de um clique que fiz em janeiro de 2004, no Bar Británico, localizado em San Telmo, Buenos Aires. Era minha primeira viagem à cidade e, ao longo de uma semana, visitei os pontos turísticos obrigatórios, tirei uma selfie com Carlitos Tévez, então jogador do Boca Juniors, e peregrinei por uma dúzia de botecos, de La Boca a Palermo Viejo – que é, aliás, um dos meus lugares prediletos na Terra.

Não cheguei a ver Jesus na goiabeira, mas não deixo de admitir que possa haver uma conexão sobrenatural entre mim e o Británico. Não quero crer que terá sido apenas uma sequência de coincidências.

Naquele dia, perto da hora do almoço, sentei-me na mesinha à esquerda na foto, comi um sanduíche de presunto cru e tomei uma garrafa de cerveja Quilmes. Fui atendido por aquele garçom, o senhor vestido de branco, que aparece ao centro e ao fundo da foto, e que está com um pano sobre o ombro direito, a ler o jornal.

Alguns meses depois, fui ao cinema para assistir a Diários de Motocicleta, o belo filme de Walter Salles baseado no livro “De moto pela América do Sul”, escrito pelo jovem Ernesto Che Guevara, no qual ele detalhava a fantástica viagem que fizera na companhia do amigo Alberto Granado, no início dos anos 1950, a bordo de uma moto, desde a Argentina até a Venezuela.

Parênteses longo: no fim de 2002, estive em uma feira de livros na USP, onde me deparei com o diário de Che. Comprei-o e soube ali que Salles estava a filmar a história. Envolvido por ela, fiz uma pesquisa e encontrei uma reportagem do jornal cubano Granma, que dava conta de que Alberto Granado estava vivo e residia em Havana. Entrei em contato com o autor da matéria, Antonio Paneque Brizuela, que muito me ajudou a convencer Granado a me dar uma entrevista. Em outubro de 2003, depois de muito insistir, desembarquei em Havana, Cuba, onde fiz três sessões de bate-papo com o amigo de Che. A reportagem foi publicada pela revista MIT, editada na época pela editora Trip.

Pois bem, numa das cenas no início do filme – aquela em que Ernesto convence Alberto a encarar a estrada a bordo de La Poderosa – , quase pulei da poltrona ao ver na telona o Bar Británico. E fiquei mais atônito ainda ao ver que o garçom que me atendeu fazia uma ponta no filme, como figurante. Assista ao filme, é o que posso recomendar a você que me lê.

O Bar Británico, por sua vez, tem uma história e tanto. Ele foi aberto na esquina das ruas Brasil e Defensa, de frente para o Parque Lezama, no exato ponto no qual teria sido fundada a cidade de Santa Maria de los Buenos Ayres, em 1536 – a capital argentina seria refundada em 1580, depois que o assentamento anterior foi destruído por índios.

Ocupou o mesmo ponto do La Cosechera, uma casa especializada em polvo, inaugurada no início do século XX por três irmãos nascidos na Galícia, Espanha. Foi rebatizado após a Primeira Guerra Mundial, em homenagem aos soldados ingleses que foram viver na cidade e que passaram a frequentar o local enquanto construíam ferrovias.

Em uma das trinta mesas de seu salão, o romancista Ernesto Sábato escreveu algumas páginas de “Sobre Heróis e Tumbas”. Além de Walter Salles, nada menos que Francis Ford Coppola utilizou o bar como locação de um filme, no caso, Tetro, de 2009.

Durante a Guerra das Malvinas, que envolveu Argentina e Inglaterra em 1982, o Británico teve de mudar de nome, para Bar Tánico. Anos depois recuperou o nome.

Em junho de 2006, o dono do imóvel não quis renovar o contrato de aluguel com o bar. Quando tentou reaver a posse do local, viu-se sob o protesto dos vizinhos e frequentadores que, em um gesto impressionante, entregaram-lhes as chaves das próprias casas, em vez de abandonar o Británico – consta que desse grupo de protestantes fazia parte até mesmo Daniel Scioli, então vice-presidente da República (2003-2007). Apesar do movimento, o bar foi encerrado.

Um empresário comprou o imóvel no ano seguinte e restaurou o bar, que sobreviveu até agosto de 2014. Veio mais um curto período desativado, até que em novembro daquele ano foi reaberto e segue em operação desde então, sempre aberto até as 3 da manhã.

A América, como disse o Che, por seu povo e sua cultura, é mesmo maiúscula.

 

Vai lá:

Bar Británico. Avenida Brasil, 399, esquina com Rua Defensa, Santelmo, Buenos Aires.

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Boteco, carnaval e a economia da alegria http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/03/22/boteco-carnaval-e-a-economia-da-alegria/ http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/2019/03/22/boteco-carnaval-e-a-economia-da-alegria/#respond Fri, 22 Mar 2019 22:45:20 +0000 http://boteclando.blogosfera.uol.com.br/?p=344

Bloco da Véia, na Casa Avós / Foto: divulgação

 

Por mais que o carnaval 2019 seja assunto distante – alguém aí já está pensando no de 2020? –, acho interessante reparar no impacto e na relação da festa com os bares e botecos, sobretudo no caso de São Paulo.

Paulistanos de meia idade, como eu, irão se lembrar: há dez anos ou mais, ou menos, o carnaval era um feriado no qual as famílias viajavam à praia, os chegados à festa dividiam-se entre Rio, Salvador, Ouro Preto, Olinda e São Luís do Paraitinga, para citar alguns exemplos de destinos momescos. Ficava na cidade aquele que queria sossego, isolamento, ou estava duro demais para encarar a estrada. Eram poucos os blocos de rua a desfilar, seja na semana pré-carnavalesca, seja nos quatro dias oficiais. Com isso, muitos bares e restaurantes aproveitavam para dar folga à brigada.

Eis que nos últimos anos – e falo dos de 2016, 2018 e 2019, os quais passei na cidade – São Paulo passou por uma transformação e tanto. Não vou fazer aqui uma avaliação da festa, apontar erros e acertos da gestão pública, do fechamento de ruas, da qualidade dos blocos. Mas o fato é que os 520 blocos de rua que desfilaram no período, incluindo os fins de semana anterior e posteior ajudaram a injetar na economia da cidade o montante de R$ 1,9 bilhão, de acordo com a Prefeitura.

Moradores ficaram por aqui, turistas desembarcaram e lotaram hoteis, restaurantes e… botecos, que faturaram muito quando, de uma maneira ou outra, envolveram-se com a festa.

A Cervejaria Ideal, por exemplo, teve um movimento 25% maior no dia em que foi ponto de concentraçao do bloco Achados em Perdizes.

Na Casa Verde, o bloco Azaração Casaverdense montou uma praça de alimentação com a presença de bares da região, entre os quais o Cariri, e de outros bairros, a exemplo da Academia da Gula. Também na ZN, o FrangÓ faturou 20% a mais durante os desfiles do bloco Urubó – que, aliás, é apoiado pelo bar. Nos fins de semana anteriores, em compensação, durante ensaios e desfiles de agremiações menos tradicionais, e com o Largo da Matriz fechado para o tráfego de veículos, a casa recebeu poucos clientes.

Mas um excelente exemplo de que vale a pena juntar carnaval e boteco é o da Casa Avós, brew pub localizado na Vila Ipojuca, que produz boas cervejas lagers artesanais. O bar-cervejaria lançou o Bloco da Véia, no dia 23 de fevereiro, e viu o caixa se multiplicar em nada menos que 400%!

Para mim, não há dúvida: vale a pena investir na exonomia da alegria.

Vai lá:

Casa Avós. Rua Croata, 679, Vila Ipojuca.

Cervejaria Ideal. Rua Ministro Ferreira Alves, 203, Perdizes.

FrangÓ. Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó.

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