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Quatro - e mais tantas - razões para botecar na Vila Ipojuca

Miguel Icassatti

18/07/2019 23h48

Torresmo do Hilda Botequim / Foto: Miguel Icassatti

Creio que não aconteça só comigo, mas a cidade de São Paulo é de fritar os miolos deste munícipe quando o assunto é zoneamento urbano. Nada mais adequado ao tema, aliás, do que esse substantivo que define a distribuição de logradouros e regula as edificações. É, realmente, uma zona. Por exemplo: um amigo higienopolitano, que hoje vive nos Jardins (ou Cerqueira César, sei lá…) e já morou no Morumbi (Real Parque seria mais correto?), me disse certa vez que não existe o bairro de Higienópolis. O que há, naquele pedaço central-oeste paulistano, é o encontro de três bairros: Pacaembu, Santa Cecília e Consolação. Higienópolis tratar-se-ia de uma convenção imobiliária.

Mais  a oeste, sempre me referi à Lapa como bairro – o do antigo ponto final no Penha-Lapa – quando, na verdade, é um distrito recheado de uma penca, aí sim, de bairros: City Lapa, Alto da Lapa, Vila Romana, Vila Anglo, Vila Anastácio, Vila Ipojuca, Lapa de Baixo.

O tema parece algo desimportante, ainda mais num blog que se presta a tratar de botecos e afins, mas há que se considerar que somos bairristas por natureza e orgulhosos de tudo de bom que temos na nossa vizinhança. O que há de ruim, bem, podemos sempre reclamar ao 156, número da centra de atendimento da Prefeitura.

No caso da supracitada Vila Ipojuca – aquele enclave sinuoso que desce à direita da Rua Cerro Corá na altura das ruas Ponta Porã e Tonelero, além das transversais, no sentido centro-bairro, e no qual ainda resistem à gentrificação muitas ruas calmas, sobradinhos, algum comércio de rua, praças e um ponto de ônibus tido como o mais antigo da cidade –, boas opções para botecar não faltam, seja na padoca, na pizzaria ou… no boteco.

A pequena Praça Sá Pinto, por exemplo, reúne a Vittuccio Pizzaria e o Hilda Botequim. Na esquina com a Rua Tonelero, a Vittuccio foi fundada em 1982. Já teve vários donos, mas persevera como uma casa dedica à pizza feita à moda napolitana, com massa de fermentação natural preparada com ótimos ingredientes. A diavola (R$ 79,00) mistura molho de tomate, provolone fersco, salame napolitano apimentado e manjericão. A botecagem – aqui entendida como a possibilidade de "petiscar" uma pizza – se faz presente nas seis maravilhas que são as receitas das rotolinas. As rotolinas são pizzas enroladas como rocambole, servidas em porção com 8 unidades, ideal para acompanhar a primeira taça de vinho ou a cerveja, a exemplo da de anchova com abobrinha, alecrim fresco e parmesão (R$ 51,00).

Rotolina de abobrinha, da Vittuccio / Foto: divulgação

Do outro lado da praça, o Hilda Botequim foi aberto em 2018. Funciona num salão pequeno, capaz de atender 40 pessoas ao mesmo tempo, se muito. Atender bem, aliás, já que Fábio, o garçom, é daquelas figuras amáveis e atenciosas, raras, para dizer a verdade. E anda tem a descrição dos pratos e drinques na ponta da língua. Antes mesmo que ele termine explicar, você já vai querer pedir um pão de queijo feito com queijo da Serra da Canastra recheado de pernil ou de ovo de gema mole (R$ 12,00). Ou a porção de impecáveis torresmos, marinados por três horas na banha (R$ 15,00), e que servem de entrada para a boa feijoada (R$ 55,00, para dois). Bebidas, além de uma dúzia de cachaças artesanais, há drinques como a caipirinha de três limões, feita com cachaça Saliníssima armazenada em barris de bálsamo (R$ 18,00).
 
Caipirinha de três limões do Hilda Botequim / Foto: Miguel Icassatti

Às terças e sextas, nós já falamos aqui neste espaço, a Padaria Natalina prepara desde a madrugada um senhor sanduíche de pernil (R$ 14,50), que o Toninho, no balcão, finaliza com um molho de tomate de própria lavra.

E no meio de um quarteirão da Rua Croata, a Casa Avós é um bar, um brewpub mantido pela Avós, uma cervejaria artesanal que se dedica a produzir bons rótulos do estilo Lager. No bar, que ocupa um sobrado erguido nos anos 1940, as cervejas estão à venda, seja na torneira, seja envasada. É um dos melhores programas da zona oeste, a bem da verdade, tomar uns copos ao cair da tarde da "Vó Maria e o Seu Lado Zen", uma das cervejas da casa, levinha e refrescante. A gente, que já cruzou a cidade muitas vezes a bordo do Penha-Lapa, merece.

Vai lá:

Casa Avós. Rua Croata, 679, Vila Ipojuca.

Hilda Botequim. Praça Sá Pinto, 67.

Padaria Natalina. Rua Sepetiba, 448.

Vittuccio Pizzaria. Rua Tonelero, 609.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.