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Bares reabertos: o freguês está preparado para voltar?

Miguel Icassatti

15/07/2020 04h00

Pub aberto em Cambridge, Inglaterra: regras e colaboração dos clientes / Foto: Kake, creative commons

Oito dias antes do chamado "Super Sábado", que marcou a volta dos ingleses aos pubs, e nove dias antes da reabertura dos bares e restaurantes em São Paulo, escrevi aqui que a retomada do setor no Reino Unido era a melhor notícia da pandemia. E que, paradoxalmente, para São Paulo não parecia ser uma boa ideia, ainda mais depois do desrespeito às regras – para dizer o mínimo – visto no Rio de Janeiro.

Comigo parecem concordar 59% dos donos de bares e restaurantes de São Paulo, embora, admitamos, por razões diferentes. Eles não pretendem reabrir seus estabelecimentos – segundo pesquisa feita com 150 empresários pela Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel) nos dias 6 e 7 de julho – devido às regras atuais em vigor: horário (até 17 horas) e capacidade (até 40% do salão) reduzidos, além da proibição de instalar as mesas na calçada. O argumento principal é que a conta, desse jeito, não fecha.

Há empresários, porém, que estão conseguindo se manter por meio de delivery ou de outras iniciativas com as quais vêm segurando o negócio. Alguns vão além: manifestaram-se publicamente contra a reabertura, com a consciência de que não, ainda não é o momento de retomar as atividades com toda força. Afinal, a covid-19 ainda está matando 300 paulistas por dia. É louvável a coragem de alguns desses bares, entre eles o Tiquim, na Pompeia, o Rota do Acarajé, em Santa Cecília, e o Mocotó, na Vila Medeiros.

Não ignoro o fato de que a pandemia está levando muitos empresários à falência e trabalhadores ao desemprego. Mas vale correr o risco de contrair um vírus que nos surpreende a cada dia, num cenário em que sabidamente há subnotificação de casos da doença? Eu acho que não. E torço para que seja contrariado por uma nova realidade, em que surja logo a vacina ou as estatísticas se reduzam drasticamente.

Sob esse aspecto da saúde, diferentemente do que aconteceu no Rio de Janeiro e em Londres, a restrição em São Paulo poupou-nos, por enquanto, de vexames vistos nessas cidades. Se bem que neste sábado eu vi ao menos dois bares na Rua Manuel Guedes, no Itaim Bibi, cheios, com gente bebendo em pé, sem máscara. Na quinta-feira, lá pelas 10 da noite, passei de carro pela região da Santa Cecília e vi gente bebendo em grupos na calçada, com a máscara no queixo. Já tinha percebido cena idêntica na tarde do sábado e também na do domingo, quando pedalei pelas ruas dos Jardins e de Pinheiros. Essa gente deve ser da família do Wolverine, não é possível.

Apesar das aglomerações na zona boêmia do SoHo londrino durante o "Super Saturday", pude ler nas páginas dos jornais ingleses notícias de que muitos cidadãos, em pubs localizados em outros bairros e cidades, conseguiram cumprir o combinado, simples assim.

No Reino Unido, algumas regras me pareceram muito boas e poderiam ser copiadas aqui. Por exemplo, a possibilidade de os clientes fazerem a reserva dos pedidos antecipadamente por aplicativo; a música ambiente tocada em volume baixo para evitar que as pessoas gritem; e o controle no acesso aos toaletes. Sem contar o uso e a disponibilidade corretos de equipamentos de proteção individual para os funcionários e os clientes.

Mas a principal e mais eficaz regra é a de obrigar uma pessoa de cada grupo de clientes a informar o nome e o número de telefone com os responsáveis pelo local. Esses dados devem ficar em poder dos pubs por 21 dias. O estabelecimento pode marcar o horário de chegada dos clientes e quanto tempo ficaram ali. Se alguém se negar a passar os dados, o pub pode escolher não atender essa pessoa.

Foi essa regra que permitiu que ao menos três pubs fossem fechados preventivamente ao longo da semana, de acordo com o jornal London Evening Standard, depois que frequentadores testaram positivo para Covid-19, ainda que de maneira assintomática.

Tanto aqui, como no Rio, Londres ou em qualquer lugar, está claro: bebida alcoólica e distanciamento social não é uma boa combinação. E não basta que os estabelecimentos estejam de acordo com os novos protocolos. Enquanto as pessoas estiverem desrespeitando os as regras, mais distantes ficaremos do balcão do bar. Eu prefiro esperar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.