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Pubs reabrem no Reino Unido. Enquanto isso, a gastronomia agoniza no Brasil

Miguel Icassatti

16/04/2021 04h00

Pessoas aproveitam pubs reabertos no Leadenhall Market, em Londres (Crédito Mike Kemp/In Pictures via Getty Images)

No dia 21 de junho comemora-se o Dia Internacional do Aperto de Mão. A data também marca em 2021 o início do inverno no Hemisfério Sul e o começo do verão no Hemisfério Norte. Graças ao Solstício, nós que estamos ao sul da linha do equador teremos o dia o mais curto e a noite a mais longa do ano, enquanto na parte de cima do planeta será o oposto: o dia será o mais longo e a noite a mais curta do ano. E o 21 de junho marcará especialmente o Reino Unido, pois essa é a data na qual todas as restrições ao funcionamento dos pubs serão levantadas, depois de um ano e meio de pandemia.

Conforme mencionei aqui mesmo no blog, os pubs representam o símbolo maior da identidade britânica, razão pela qual eu arrisquei-me a escrever, em julho de 2020, que a reabertura dos pubs àquela época, antes da segunda onda global das contaminações do covid-19, era a melhor notícia possível.

Tal como aconteceu no verão passado, na segunda-feira, 12 de abril de 2021, milhares de súditos da rainha Elizabeth II correram aos pubs logo no primeiro minuto do primeiro dia em que as regras foram afrouxadas. Desta vez, felizmente, não vimos as cenas de aglomeração pelo SoHo londrino, nem gente bêbada tombada pelas ruas. Entre os dois momentos de retomada nos pubs muita coisa aconteceu, muita gente morreu e o Reino Unido parece ter aprendido algo. Tanto é que a decisão de agora ocorre um dia depois do menor número de mortes diárias registradas desde o dia 14 de setembro.

As condições que permitem a atual reabertura são consequência de um conjunto de medidas adotadas pelas autoridades locais, baseadas no tripé: 1. Lockdown de fato; 2. Auxílio emergencial para a população e as empresas – o governo vem arcando com 80% dos salários, em um teto de 2500 libras, aos funcionários que não tenham sido demitidos; e 3. Vacinação: todos os ingleses com mais de 50 anos já tomaram ao menos uma dose da vacina, num total de 40 milhões de pessoas; com isso, mais da metade da população já desenvolver anticorpos contra o coronavírus. E a partir de hoje, que tem mais de 40 anos já pode agendar a sua data de vacinação.

A reatomada de agora ainda é parcial e impõe limitações ao atendimento. O ponto mais importante é a autorização para que pubs e restaurantes sirvam bebida e comida ao ar livre, para grupos de até seis pessoas sentadas – 38,2% dos pubs e apenas 11,9% dos restaurantes da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales têm área aberta. É possível que coloquem algum tipo de cobertura mas ao menos metade desses espaços não tenha paredes. Os pubs podem instalar aparelhos de TV para transmissões esportivas, mas apenas do lado de fora – o desafio via ser fazer os torcedores manterem-se sentados e sem gritar na hora do gol. Embora a British Beer and Pub Association estime que cerca de 2000 pubs tenham encerrados as atividades definitivamente durante a pandemia, de um total de 47200 existentes em 2019, a reabertura depois de um lockdown de quatro meses não deixa de ser auspiciosa.

Os clientes maiores de 16 anos também têm suas obrigações: devem informar seus contatos para o caso de haver a necessidade de rastreamento por parte do sistema nacional de saúde; ao levantar para ir ao banheiro, devem usar máscara facial. E convém que os imunizados portem sua carteirinha de vacinação pois os estabelecimentos terão o direito de pedir que lhes seja mostrado o documento. Em 17 de maio, se tudo correr bem, o povo do Reino Unido poderá voltar a comer e a beber em ambientes fechados e nas mesas externas serão permitidas até 30 pessoas sentadas, numa nova fase de afrouxamento de normas até que venha o liberou-geral do dia 21 de junho.

Enquanto isso, por aqui, um cenário como esse parece cada vez mais distante, com a covid-19 tirando dois anos da expectativa de vida dos brasileiros. Bares e restaurantes agonizam, encerrando as atividades de vez. Empreendedores da gastronomia seguem sem o devido apoio das esferas do poder público para manterem-se ativos e garantindo empregos. Os empregados, aliás, vêm morrendo: um levantamento realizado pelo jornal El País com base em dados do Ministério da Economia, mostrou que houve um aumento significativo de mortes entre trabalhadores de certas áreas, numa comparação entre os meses de janeiro e fevereiro de 2020 e 2021. Não é possível cravar que todos os óbitos foram por Covid-19, explica a reportagem, mas pode-se aplicar na comparação o conceito de "excesso de mortes", usado pelos epidemiologistas, já que a pandemia pode impactar a vida da população a ponto de levar uma pessoa à morte por falta de vaga em um hospital.

Entre os setores tido como essenciais, as mortes entre frentistas aumentaram 68% na comparação entre 2019 e 2020, seguidas pelas de caixas de supermercados (67%) e motoristas de ônibus (62%). Nos dez setores com mais mortes entre um ano e outro, contando aí os não-essenciais, aparecem os trabalhadores do comércio de produtos alimentícios (21,3% de aumento) e os de restaurantes e similares (mais 13,29%).

Até 21 de Junho, que ninguém aperte a mão de ninguém.

Sobre o autor

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas “Playboy” (1998-2000) e “Veja São Paulo” (2000), editor-assistente e um dos fundadores do “Paladar/jornal O Estado de S. Paulo” (2004 a 2007), editor dos guias “Veja Comer & Beber” em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista “Men’s Health Brasil” (2011 a 2014). É colunista de “Cultura de Boteco” da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da “Revista de Vinhos” (Portugal).

Sobre o blog

Os petiscos, as bebidas, os balcões encardidos, as pessoas e tudo que envolve a cultura de boteco e outras histórias de bar.